Meus jogos favoritos de 2020 — Farley Santos

Os redatores do GameBlast falam sobre os títulos que mais curtiram entre os lançamentos deste ano.


2020 foi um ano bem intenso e maluco e, felizmente, repleto de jogos. Durante os últimos meses pude experimentar muitos títulos legais, em especial alguns ótimos e criativos indies. Infelizmente não tive a oportunidade de jogar alguns AAA que eu tinha interesse, como Persona 5 Royal e Final Fantasy VII Remake, mas sobrou um tempinho para ver também algumas coisas de 2019 (como o ótimo Control). 

Confesso que foi um pouco difícil escolher os meus favoritos, afinal conferi uma grande variedade de títulos. Como é de praxe, minha lista tem muitos jogos indie e alguns títulos mais desconhecidos, e, no fim, optei por selecionar aqueles que mais me marcaram, a despeito de alguns de seus problemas e limitações. Não deixe também de conferir os meus jogos favoritos de Switch lá no Nintendo Blast.

Signs of the Sojourner

Signs of the Sojourner é um jogo que me conquistou com seu conceito único baseado nas dificuldades de se comunicar e como conversas moldam e modificam as pessoas. Na pele de um mercador, exploramos um pitoresco continente em busca de itens para nossa loja. O mais curioso é o seu sistema de conversação: cartas representam sentimentos e precisamos utilizá-las para montar uma “corrente de diálogo”. Nem sempre é possível terminar amigavelmente as conversas, mas, mesmo assim, seguimos em frente e aprendemos algo.


Achei impressionante como um jogo com sistemas tão simples consegue traduzir tão bem o processo de amadurecimento e evolução de caráter de uma pessoa. Um exemplo é o amigo de infância do protagonista: depois de rodar o mundo em algumas viagens, é difícil se comunicar com ele, pois o baralho está completamente diferente depois de tantas experiências. O jogo conta com uma progressão livre e vários finais, o que faz com que cada aventura seja única. E, para completar, o visual é marcante e a trilha sonora é belíssima. Tem alguns problemas de balanceamento, mas gostei demais do meu tempo em seu incrível mundo.

Going Under

Em Going Under acompanhamos Jackeline Fiasco, uma garota que consegue um estágio não remunerado na startup de bebidas Fizzle. Chegando lá, ela descobre que em vez de trabalhar com marketing, vai ter que enfrentar monstros em ruínas de empresas de tecnologia falidas. O jogo é um maluco dungeon crawler em que qualquer objeto pode ser utilizado como arma: laptops, vassouras, cadeiras e outras tralhas viram instrumentos de defesa. Me diverti demais com o alto desafio repleto de improvisação, com o visual inusitado e com o ótimo texto que critica e faz piada com a cultura tóxica da indústria do trabalho.

Ring of Pain

Cartas organizadas no formato de anéis montam os calabouços de Ring of Pain, um criativo RPG dungeon crawler com elementos de roguelike. O conceito principal e as mecânicas são simples, mas há grande variedade e profundidade pela jornada, e certos andares lembram até puzzles com seus perigos que alteram a configuração do círculo de cartas. A dificuldade é brutal, mas é justamente esse alto desafio que me fez continuar tentando chegar cada vez mais longe. Ah, é impossível não lembrar da atmosfera tensa repleta de criaturas estranhas — até hoje a estranha coruja que ajuda o protagonista me traz sentimentos desconcertantes.

Spiritfarer

Stella, uma barqueira do além que ajuda espíritos na travessia para o pós-vida, é a protagonista de Spiritfarer. O foco é cuidar do bem-estar dos espíritos, em uma interpretação curiosa do gênero de administração que transforma um barco em uma mistura de hotel, fazenda e oficina. Há também um extenso mundo para explorar com trechos de plataforma, novas habilidades, segredos e muitos eventos, ou seja, é um título que tem um pouco de tudo. A ambientação também é marcante, com belíssimos gráficos desenhados e música tranquila.


O que mais me surpreendeu é a suavidade que Spiritfarer trata da morte. Pelo caminho, Stella encontra diferentes personagens e conhecê-los aos poucos é bastante envolvente. É notável, em especial, a variedade de temas explorados na trama, incluindo assuntos sérios como depressão ou câncer. Particularmente, nunca vou esquecer do momento do adeus: é uma sensação agridoce se despedir para sempre daqueles espíritos que você se afeiçoou.

Haven

Em Haven acompanhamos um casal apaixonado que foge para um planeta distante para poder ficar junto. O jogo é um misto de aventura, exploração e RPG que me cativou com a dupla carismática de protagonistas — é ótimo acompanhar o dia a dia deles em inúmeros diálogos divertidos e repletos de cumplicidade. Apreciei a atmosfera relaxante focada em flutuar por belos cenários alienígenas em busca de recursos, assim como o sistema de batalha que mistura turnos, ritmo e sincronia. No mais, Haven é bem criativo e único.

Streets of Rage 4

Sempre gostei de beat ‘em ups, mas confesso que nunca tinha jogado nenhum Streets of Rage antes de ficar atento ao seu quarto episódio — algo natural quando se leva em consideração que eu só tive consoles Nintendo na infância. Mesmo assim, dei uma chance a Streets of Rage 4 e não me arrependo. O novo jogo da série me fascinou, em um primeiro momento, com seu visual estonteante desenhado à mão. Depois, curti bastante o excelente sistema de luta que permite montar combos variados e que tem também um pouco de risco e recompensa. O título é um ótimo retorno à franquia e recomendo bastante para quem gosta do gênero.

Animal Crossing: New Horizons

Animal Crossing: New Horizons dispensa apresentações. O novo título da série de simulação da Nintendo trouxe um visual mais elaborado e um mundo de coisas para construir e adquirir. Perdi a conta de quantas horas fiquei na minha ilha decorando a minha casa, conversando com os habitantes, visitando amigos, verificando as novidades diárias e tentando enfeitar as partes externas — é, de fato, como participar de uma vida paralela. Após algumas semanas acabei abandonando o jogo por ter ficado cansado da repetição e das mecânicas restritivas, mas, mesmo assim, apreciei bastante o meu tempo na ilha paradisíaca.
 


Paper Mario: The Origami King

Em Paper Mario: The Origami King, o encanador precisa enfrentar um autoproclamado rei que está espalhando o caos ao transformar os habitantes do Reino dos Cogumelos em estranhas criaturas de papel dobrado. O jogo é mais próximo dos episódios mais recentes da série ao mesmo tempo em que resgata algumas coisas do passado de forma tímida. Está longe de ser perfeito, mas é bastante divertido.


O que eu mais gosto em Paper Mario está presente em The Origami King: o humor. Pelo caminho, Mario e seus amigos passam por inúmeras situações que exploram de forma cômica o fato de que tudo é feito de papel — as conversas com os vários Toads são hilárias e repletas de referências legais. Junto a isso, há um imenso e vibrante mundo a ser explorado com atividades variadas e segredos, e fiquei impressionado com o belo visual do jogo. Já o combate é basicamente um puzzle com alguns bons momentos, uma pena que fica repetitivo rapidamente. Gostei, em especial, dos embates contra os chefes, pois apresentam situações bem interessantes.

Ori and the Will of the Wisps

Desde que foi anunciado, fiquei muito animado com Ori and the Will of the Wisps, a sequência do metroidvania da Moon Studios, pois os aspectos do primeiro título pareciam ser refinados. Depois de jogá-lo, percebi que muito foi mudado, felizmente para melhor. Desta vez, o espírito Ori explora uma região em busca de Kun, sua amiga coruja, ao mesmo tempo em que tenta limpar a corrupção do local.  


Estonteante é uma palavra que eu uso para definir Ori and the Will of the Wisps por causa de seu universo belíssimo: os cenários desenhados à mão são bem detalhados, os personagens se movem com fluidez e graça, e a trilha sonora orquestrada reforça o clima de fantasia dos ambientes e das cenas. Como jogo 2D, me apaixonei por Ori, que tem inúmeros movimentos que o permitem se locomover com velocidade e agilidade pelos cenários. Gostei também do equilíbrio entre trechos lineares com puzzles de navegação e as partes mais abertas que nos convidam a explorar todo canto em busca de segredos. No mais, é um jogo incrível.   

Hades

Hades me conquistou assim que entrou em Acesso Antecipado, no final de 2018, pois combinava em um único jogo várias características que eu gosto muito: estrutura roguelite, ação intensa e variada, arte e música incríveis, e o cuidado minucioso de sempre da desenvolvedora Supergiant Games. A versão final do título saiu agora em 2020 e meu apreço pelo jogo só aumentou.


Controlar Zagreu, o semideus que deseja fugir do Submundo, é empolgante, pois cada partida oferece opções diferentes — em uma tentativa, usei os poderes de Zeus para desferir relâmpagos combinados com as bênçãos congelantes de Deméter; em outra jornada, derrotei inimigos com o veneno de Dionísio enquanto refletia projéteis com a ajuda de Atena. Uma grande variedade de opções na hora de mesclar poderes, diferentes tipos de armas e muitas mecânicas fazem com que cada partida seja única, e até hoje me surpreendo com combinações inéditas.

Fora isso, o mundo e a história de Hades são construídos de forma impressionante. Os personagens se lembram de fatos entre as partidas, Zagreu faz novas amizades e a trama avança aos poucos, mesmo com as derrotas. A estupenda ambientação é montada por meio de arte estonteante, dublagem cuidadosa e ótima trilha. É impressionante também a imensa quantidade de diálogos e interações entre os personagens: mesmo depois de mais de cem partidas, continuo vendo conversas inéditas.


O resultado de tanto esmero é um jogo incrível e viciante que surpreende constantemente. Joguei mais de 90 horas, completei todas as conquistas no Steam e mesmo assim ainda tem muita coisa que eu não vi — continuo voltando ao Submundo e me divertindo com a aventura.

Menções honrosas

Tive a oportunidade de experimentar muitos outros títulos durante o ano, cada qual com qualidades que se destacaram de alguma maneira para mim. Dentre eles, destaco:

Tokyo Mirage Sessions #FE Encore, Curse of the Dead Gods, Meteorfall: Krumit’s Tale, holedown, Shinsekai Into the Dephts, Assemble With Care, Lonely Mountains: Downhill, Void Bastards, Alwa’s Legacy, Record of Lodoss War: Deedlit in Wonder Labyrinth, UnderMine, HAAK, ScourgeBringer, Rogue Legacy 2, Star Renegades, Cloud Gardens, AVICII Invector Encore, Part Time UFO, Grindstone, Disc Room, Carto, Crown Trick e Alba: A Wildlife Adventure.
E para vocês, caros leitores? Como foi 2020? Tiveram a oportunidade de experimentar o que joguei? O que me recomendam?

Não deixe de conferir as listas dos outros redatores: Ivanir Ignacchitti, Carlos Cirne, Alexandre Galvão, Mário Carvalho, Nycolas Medeiros e Carlos França Jr.
Revisão: José Carlos Alves

é brasiliense e gosta de explorar games indie e títulos obscuros. Fã de Yoko Shimomura, Yuzo Koshiro e Masashi Hamauzu, é apreciador de roguelikes, game music, fotografia e livros. Pode ser encontrado no seu blog pessoal e nas redes sociais por meio do nick FaruSantos.


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