Blast Test

Rogue Legacy 2 (PC) refina as ideias do jogo original em um viciante roguelite

Controle diferentes heróis de uma mesma família e explore um reino repleto de perigos na ótima continuação do título de ação e plataforma.


Rogue Legacy 2 é a sequência de Rogue Legacy, um roguelite de ação em que gerações de heróis precisam explorar um castelo amaldiçoado. O conceito principal está intocado na continuação, mas várias mecânicas foram expandidas, novas características foram incluídas e o visual foi renovado, resultando em uma experiência simultaneamente familiar e inédita. O jogo foi lançado inicialmente para PC, no formato Acesso Antecipado, em uma versão polida e divertida, por mais que muitas das promessas ainda estejam ausentes.

Controlando várias gerações de heróis novamente

Em Rogue Legacy 2 controlamos um guerreiro que explora um reino amaldiçoado repleto de perigos em uma aventura de ação e plataforma 2D. Além de atacar com sua arma principal, o personagem conta com um feitiço e uma habilidade exclusiva de sua classe. Desbravar tal local é bastante difícil, logo ser derrotado é praticamente inevitável. Acontece que em Rogue Legacy a morte é permanente e quando o herói é abatido, um de seus filhos continua a jornada.


Além de serem representantes de classes únicas de guerreiros, os descendentes apresentam também características pessoais que afetam o jogo de alguma maneira. Alguns traços alteram atributos do personagem, como "ossos fracos" (ele é lançado mais longe ao ser atingido), "gigantismo" (o personagem é imenso) ou “leveza” (flutua durante o pulo). Já outros afetam fortemente o visual, como “visão em túnel” (parte da tela fica obscurecida), “vertigem” (tudo fica de cabeça para baixo) ou “daltonismo” (o jogo fica sem cor). A seleção é uma mistura de utilidade, dificuldade e zoeira, o que torna bem única a experiência de jogar com cada personagem.

Como típico representante do gênero roguelite, a configuração do mapa muda a cada nova tentativa. A lógica de montagem obedece algumas regras, o que significa que alguns locais são colocados em posições mais ou menos consistentes entre as partidas — a área da ponte, por exemplo, sempre está na parte direita do mapa. Mesmo com morte permanente do personagem, há progressão: o dinheiro coletado pode ser utilizado para melhorar atributos dos heróis, liberar novos recursos ou comprar equipamentos. Sendo assim, aos poucos, os personagens se fortalecem e conseguem chegar cada vez mais longe.


Uma família mais diversa

Em Rogue Legacy 2 o núcleo do ciclo de jogo segue intocado. Em cada partida o objetivo ainda é explorar o máximo possível do mapa enquanto coletamos dinheiro e esquemas para criar equipamentos, que serão utilizados pelos sucessores para aumentar as chances de sobrevivência. A sequência investe em expandir as ideias do título original, e a versão de lançamento no Acesso Antecipado já traz muitas mudanças.

A presença de classes mais distintas de heróis é a grande novidade de Rogue Legacy 2. Ao contrário do original, cada um dos tipos de personagens apresenta mecânicas e habilidades únicas que alteram profundamente a experiência, e quatro categorias de heróis estão disponíveis no lançamento do Acesso Antecipado. O cavaleiro conta com atributos equilibrados e seu arsenal de habilidades está intocado em relação ao primeiro título. O mago usa um cajado para atacar à distância com uma explosão de fogo, tem dois feitiços e mais mana. O bárbaro apresenta maior HP e um conjunto de ataques distinto: um movimento amplo e lento no chão e um ataque giratório no ar. Por fim, o inédito arqueiro acerta inimigos de longe com flechas poderosas, mas ele precisa de muito tempo para mirar e sua defesa é reduzida.


Gostei bastante das várias alterações nas classes de heróis, pois elas tornam cada personagem mais único, trazendo variedade ao jogo. A curva de aprendizado pode ser acentuada para quem jogou o primeiro título por causa dos estilos distintos, mas parte da graça é justamente dominar as habilidades novas — já apanhei bastante no controle do mago e do arqueiro. Equipamentos e runas permitem customizar um pouco os heróis, e há a indicação de novos sistemas envolvendo essas características. A desenvolvedora promete adicionar mais classes e diferentes tipos de armas nas atualizações futuras.

Outra alteração notável em relação aos heróis é a presença de mecânicas que incentivam escolher personagens com traços negativos. Ao selecionar um guerreiro com certas características ruins, como partes da tela obscurecida ou tudo de cabeça para baixo, é ativado um bônus de dinheiro proporcional à dificuldade. É uma adição interessante, mas as moedas adicionais ainda não me convencem a usar um personagem com filtro visual irritante.


O deslumbre de um mundo belamente construído

A estrutura do mundo passou por alterações em Rogue Legacy 2, por mais que, neste momento, ainda sejam tímidas. Os mapas são gerados proceduralmente e apresentam salas com diversos desafios: em algumas o foco é o combate, em outras há desafios de plataforma e locais especiais contam com restrições específicas para poder destravar baús especiais. No momento a variedade de conteúdo é boa, com mais de 700 salas e dois biomas para explorar.

Ao contrário do primeiro, a sequência tem alguns aspectos de metroidvania. Pelos cenários estão escondidos equipamentos que habilitam permanentemente habilidades especiais, como uma investida no ar ou a possibilidade de conversar com espíritos. Para obter tais técnicas, precisamos completar uma série de salas com puzzles de navegação. Sem essas habilidades, partes do reino não podem ser acessadas, como o bioma de gelo, que é precedido de um longo buraco. A desenvolvedora promete incluir mais elementos de metroidvania no jogo, no entanto, do jeito que está agora, fiquei com a sensação que estas habilidades são mais ferramentas para acessar rotas diferentes do que para incentivar a exploração.


O universo do jogo abandonou o pixel art e agora apresenta um visual elaborado que lembra desenhos animados. A movimentação se mantém em duas dimensões, mas o mundo é construído com uma mistura de elementos 3D, iluminação dinâmica e partes desenhadas à mão. As animações, que são de autoria do brasileiro Glauber Kotaki, foram cuidadosamente montadas para manter o estilo do original. O resultado é belo, uma evolução natural que não deixa de lado o carisma característico.

As alterações técnicas, no entanto, deixaram o jogo mais pesado: lentidão apareceu mesmo usando uma máquina com as configurações acima das recomendadas, e em um computador mais modesto a ação só ficou boa na configuração visual “mínimo”. Além disso, também encontrei bugs, como personagens desaparecendo, travamentos e som problemático. O jogo foi lançado em Acesso Antecipado, o que justifica eventuais problemas, e imagino que estas questões serão resolvidas no decorrer do desenvolvimento.


Uma evolução promissora

Rogue Legacy 2 traz novamente a aventura de plataforma baseada no legado de uma família de heróis em um título de ação e plataforma ágil e viciante. A sequência refina os conceitos do antecessor na forma de personagens mais distintos, um mundo mais rico e algumas ideias interessantes, resultando em uma experiência empolgante. A versão de lançamento no formato Acesso Antecipado já mostra polimento e boa quantidade de conteúdo, mas alguns aspectos importantes (como mecânicas de metroidvania mais notáveis) ainda estão na promessa. Além disso, no estado atual, o jogo apresenta problemas de otimização técnica e alguns bugs, porém isso deve mudar durante o desenvolvimento. No mais, Rogue Legacy 2 já diverte e tem tudo para ser uma sequência notável.


Revisão: José Carlos Alves
Texto de impressões produzido com cópia digital cedida pela Door Cellar Games

é brasiliense e gosta de explorar games indie e títulos obscuros. Fã de Yoko Shimomura, Yuzo Koshiro e Masashi Hamauzu, é apreciador de roguelikes, game music, fotografia e livros. Pode ser encontrado no seu blog pessoal e nas redes sociais por meio do nick FaruSantos.


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