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Análise: Going Under (Multi) é uma aventura maluca em que tudo pode ser usado como arma

Explore ruínas de empresas de tecnologia falidas neste cômico título de ação e exploração de calabouços.


Going Under é um dungeon crawler fora do comum. Uma estagiária recebe a tarefa de desbravar escritórios amaldiçoados e, para se defender, ela se vê usando objetos do cenário: teclados, cadeiras, monitores e laptops viram armas letais. Esse conceito maluco é explorado em uma jornada de desafio intenso por um mundo bem humorado e repleto de referências. Mesmo com alguns contratempos, o jogo conquista com seu carisma e ritmo ágil.

Um estágio fora do comum

Quando Jackeline Fiasco aceitou um estágio não remunerado na badalada startup de bebidas Fizzle, ela esperava melhorar suas habilidades de marketing. No entanto, ao chegar lá, a realidade era outra: sua principal tarefa seria explorar ruínas de empresas de tecnologia falidas. Em um primeiro momento, a garota acha a ideia absurda (afinal quem quer se arriscar em locais repletos de monstros sem receber um centavo?), mas a promessa de ser efetivada é bem tentadora. Sem saber dizer não, Jackeline aceita a tarefa, mal sabendo que se envolveu em um negócio mais complicado do que parece.


É com essa premissa peculiar que Going Under molda a sua aventura de exploração de calabouços. Jackie precisa desbravar escritórios amaldiçoados cheios de perigos e derrotar seus chefes, no entanto a Fizzle não tem orçamento para prover equipamentos (ainda mais para uma reles estagiária). Sem outra opção, a garota usa quase tudo como arma: vassouras, lápis, cadeiras, caixas, laptops e qualquer outra tralha que aparecer pelo caminho. Os itens têm durabilidade limitada, logo é regra obter novas coisas e improvisar constantemente.

Um estágio é uma boa oportunidade para aprender novas skills, e Jackeline aproveita seu tempo nos escritórios para melhorar seu currículo. Durante a exploração, a garota adquire habilidades diversas, como “resolução de conflitos” (dá choque em inimigos ao ser atingida), “olhar ardente” (ocasionalmente deixa o alvo em chamas ao ativar a mira) e “ande rápido e quebre coisas” (a velocidade aumenta conforme destruímos objetos) e, com um pouco de sorte, dá para montar sinergias poderosas entre elas. Pelo caminho, ela também pode encontrar apps úteis para seu celular que ativam efeitos temporários,  além de itens estão disponíveis para compra em lojinhas.


Going Under tem elementos de roguelite, o que significa que os calabouços são diferentes a cada tentativa. Melhorias e itens são perdidos ao morrer ou ao completar os níveis, mas certos elementos permanecem entre as partidas. Jackeline aprende habilidades de maneira definitiva depois de utilizá-las algumas vezes, e após isso é possível escolher uma delas no começo de uma fase. Além disso, a estagiária recebe tarefas de seus colegas de trabalho que, quando completadas, liberam benefícios úteis. Por fim, novas skills podem ser desbloqueadas por meio de dinheiro no saguão da Fizzle.

Improvisando para sobreviver a combates caóticos

Em sua essência, Going Under é um dungeon crawler focado em combates, mas o seu sistema de armamentos o torna único. Assim como Jackeline, precisamos nos virar para sobreviver aos perigos com as tralhas disponíveis pelos cenários e, surpreendentemente, há muita estratégia envolvida. Cada objeto apresenta propriedades e ataques únicos, e todos eles têm durabilidade limitada. Sendo assim, precisamos avaliar frequentemente a situação: às vezes é melhor guardar um item forte para enfrentar um inimigo complicado, em outros momentos uma opção é simplesmente lançar as tralhas nos monstros.

Eu me diverti demais usando os diferentes itens malucos como arma. Grampeadores lançam grampos à distância; laptops paralisam oponentes com dano elétrico; vassouras têm bom alcance, porém são frágeis; monitores de computador e cadeiras são bastante poderosos, mas deixam Jackeline lenta; lápis, caixas e vasos podem ser usados como projéteis; carros compartilhados são uma boa opção para atropelar monstros.

Aprender a usar os objetos é essencial para sobreviver ao estágio de Jackeline, pois o desafio é acentuado. Os calabouços estão repletos de monstros que atacam em grupo e basta um momento de desatenção para ser derrotado. O combate é uma mistura de destreza, atenção e improvisação: observar os padrões de ataques dos inimigos para escapar na hora certa é importante, assim como usar com sabedoria os itens disponíveis na sala. O jogo conta com opções para amenizar a dificuldade, o que o torna mais acessível.


Um detalhe que incomodou foi a bagunça visual. Em alguns momentos, a ação fica caótica com muitos inimigos, coisas explodindo e objetos voando simultaneamente, o que torna difícil entender o que está acontecendo. Para piorar, Jackeline pega automaticamente itens ao usar a esquiva, o que pode atrapalhar as estratégias. Algumas vezes fui derrotado por causa dessas questões, mas, felizmente, com o tempo aprendi a lidar melhor com isso (normalmente saindo de perto dos inimigos e atacando de longe).

Diversidade repetitiva

A estrutura de roguelite traz bom ritmo a Going Under. Cada partida é focada em um único estágio temático e a duração é bem dosada, o que faz com que as tentativas sejam ágeis. A variedade é alcançada com presença de muitas armas, diferentes habilidades com sinergias, missões opcionais e eventos — fiquei com a constante sensação de estar experimentando algo novo, mesmo explorando o mesmo lugar.


Cada uma das três empresas falidas oferece desafios distintos. A startup de trabalhos Joblin é um calabouço básico, mas tem bastante inimigos. Winkydinky, a ex-sede de um app de namoros falido, tem escritórios com chamas, muitas armadilhas e diabinhos que se teletransportam — em certas salas, é possível até mesmo marcar um “encontro” com um monstro que se torna aliado, caso seja derrotado rapidamente. Por fim, a criptomoeda é o foco na empresa Styx: as lojas aceitam dois tipos de dinheiro, caveiras mineradoras atacam a estagiária e carrinhos de mina podem ser usados como arma.

Com o tempo, percebi que Going Under é, na verdade, uma aventura linear com elementos de roguelite. É uma escolha curiosa e que funciona, mas não é livre de problemas. Depois de algumas partidas, a questão mais notável se revela: a quantidade limitada de conteúdo. Os mapas são gerados proceduralmente, porém não há muitos tipos de salas. Sendo assim, com o tempo, as coisas ficam meio repetitivas. Versões alternativas dos calabouços, tarefas opcionais e diferentes habilidades ajudam a amenizar essa sensação, mas não são completamente suficientes.


Na loucura de um universo cômico

A premissa de uma estagiária explorando ruínas de startups falidas dita o tom cômico de Going Under, e a maluquice é uma constante por todas as suas áreas — este é, inclusive, o meu aspecto favorito do jogo. O texto e as situações fazem piadas (e dão alfinetadas) sobre culturas tóxicas de trabalho e questões do mundo moderno, constantemente citando jargões tecnológicos e termos de redes sociais. Os assuntos e as críticas são abordados de forma leve e é importante conhecer um pouco desse universo para entender bem as referências.

Os personagens representam estereótipos de maneiras curiosas. Jackeline Fiasco é a típica estagiária explorada por todos que até se sente culpada quando faz algo para si própria. Rey é o CEO sem noção que acha que todos são iguais a ele, sempre esbanjando dinheiro e dando conselhos duvidosos. Marv é o típico chefe passivo-agressivo que abusa dos funcionários com palavras bonitas. Já a desenvolvedora Kara é paranoica com segurança digital e defende que “celulares devem ser destruídos”. Os diálogos entre eles são repletos de humor e me diverti com suas interações espirituosas.


O tom de sátira também está presente nos cenários e itens. Cada calabouço explora de maneira maluca conceitos conhecidos, como um bizarro app de namoro ou uma empresa de mineração de criptomoeda. Há todo tipo de situação: em uma loja, é possível comprar um coração humano (Jackie até se pergunta se isso é legalmente permitido); um goblin barista hipster vende sanduíches de abacate superfaturados; um assistente digital grava conversas constrangedoras entre membros da equipe; a estagiária pode fazer dívidas, que são tomam a forma de uma bola de ferro acorrentada à sua perna; as habilidades referenciam memes e jargões. Fiquei o tempo todo me perguntando que loucura engraçada viria a seguir.

Toda essa ambientação é complementada pelo visual colorido repleto de modelos geométricos e pela trilha sonora com elementos incomuns. A direção de arte, que contou com a participação do brasileiro Luiz de Mello, também tem um tom bem humorado com personagens com olhos grandes e faces curiosas, movimentação desengonçada, símbolos de habilidades que lembram emojis, cenários repletos de referências sutis, e mais. O resultado é um mundo vibrante que esbanja personalidade.


Um trabalho peculiar que vale a pena

Going Under me conquistou com sua premissa maluca e excêntrica. Explorar ruínas de empresas de tecnologia falidas no controle de uma estagiária é estranho e empolgante, principalmente por ser possível usar quase tudo como arma. O conceito principal dá espaço para experimentação e estratégia, sendo necessário improvisar constantemente para conseguir superar os complicados desafios. O tom cômico está presente em todos os cantos com diálogos bem humorados, situações inusitadas e inúmeras referências divertidas. De negativo, a aventura se mostra um pouco repetitiva, mesmo com aspectos de roguelite, e às vezes o caos atrapalha o andamento. No fim, Going Under é um estágio que vale a pena ser conferido.

Prós

  • Ótimo conceito principal em que quase tudo pode ser utilizado como arma;
  • Ciclo de jogo ágil e com boa variedade de habilidades para descobrir;
  • Ambientação divertida que faz piadas e críticas sobre a cultura de startups com muitos memes e referências;
  • Presença de opções que amenizam certos aspectos da dificuldade tornam o título mais acessível.

Contras

  • Quantidade limitada de salas pode trazer sensação de repetição;
  • Bagunça visual atrapalha em alguns momentos.
Going Under — PC/PS4/XBO/Switch — Nota: 8.0
Versão utilizada para análise: PC
Revisão: João Pedro Boaventura
Análise produzida com cópia digital cedida pela Team17

é brasiliense e gosta de explorar games indie e títulos obscuros. Fã de Yoko Shimomura, Yuzo Koshiro e Masashi Hamauzu, é apreciador de roguelikes, game music, fotografia e livros. Pode ser encontrado no seu blog pessoal e nas redes sociais por meio do nick FaruSantos.


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