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Análise: Signs of the Sojourner (PC) é uma exótica aventura sobre as alegrias e as dificuldades de se comunicar

Navegue por um mundo colorido neste título indie em que os diálogos acontecem por meio de cartas.


Conversar e se fazer entender nem sempre é uma tarefa fácil, afinal, há várias questões envolvidas, como valores pessoais e o estado emocional dos envolvidos. Signs of the Sojourner transforma essa atividade complicada em uma interpretação minimalista curiosa em que cartas e símbolos ditam o tom dos diálogos. O título combina aventura, construção de baralhos e narrativa em uma experiência repleta de metáforas sobre a vida em um mundo pitoresco. Mecânicas únicas, mas um pouco obtusas, o tornam ora deslumbrante, ora frustrante.

Uma jornada por um mundo complicado

Signs of the Sojourner se passa em um mundo muito similar ao nosso, mas com alguns toques de fantasia. Alterações climáticas mudaram a vida no planeta, o que tornou custoso viajar entre diferentes localidades. Sendo assim, um grupo de pessoas experientes fundou uma caravana de mercadores itinerantes responsável por comprar produtos e abastecer estabelecimentos das cidades.

É nesse contexto que está um jovem sem nome com orelhas de gato. O personagem herdou a loja de sua falecida mãe na cidade de Bartow e agora precisa assumir os negócios. Fora o luto, há outro problema para lidar: a caravana está avaliando tirar a cidade de sua rota, o que significaria grandes dificuldades para a população do lugar. Sendo assim, nosso protagonista decide viajar com a caravana a fim de tentar impedir isso, ao mesmo tempo em que tenta descobrir mais sobre sua falecida e misteriosa mãe.


Conversando por meio de cartas

O foco principal do jogo é visitar diferentes cidades para cumprir objetivos diversos. Em cada uma delas há várias pessoas e podemos conversar com elas em busca de informações ou objetos de valor. É nesse momento que o aspecto mais único de Signs of the Sojourner entra em ação. Em vez de escolher opções de diálogos, todas as conversas acontecem por meio de cartas. Cada uma delas tem símbolos nas extremidades que representam diferentes abordagens, como ser empático, lógico ou incisivo. Para fazer a conversa avançar, é necessário combinar os ícones idênticos até completar uma sequência da esquerda para a direita, de maneira parecida com o dominó. No entanto, basta um único erro para quebrar a corrente.

Uma série de nuances deixa as interações com cartas mais estratégicas. Certos cartões contam com habilidades especiais, como a possibilidade de inseri-los entre sequências já formadas, copiar os símbolos da carta anterior ou até mesmo ver a mão da outra pessoa. Além disso, sequências de quatro ou mais símbolos iguais criam um Accord, que protege a corrente de um único erro. No fim de cada conversa, o protagonista é forçado a substituir uma das cartas de seu baralho de dez — uma clara apologia ao fato de que ele aprendeu algo novo nessa interação.


Curiosamente, não importa tanto se a interação resultou em uma conversa agradável ou terminou abruptamente, pois a jornada avança independentemente do resultado. Normalmente certos objetivos, como conseguir um objeto raro, dependem de ir bem no carteado, mas, às vezes, certas informações só podem ser obtidas ao irritar o outro ou discordar de um ponto de vista. A história é dividida em cinco viagens e, salvo a primeira, podemos ir para qualquer cidade já conhecida que desejarmos. Cada trecho leva alguns dias para ser atravessado e há uma data limite para voltar para casa e reestocar a loja. O andamento da trama e o final dependem das ações feitas durante a jornada, e as partidas contam com elementos diferentes.

As dificuldades e os prazeres de se comunicar

As mecânicas de Signs of the Sojourner traduzem bem o sentimento de deslumbre de visitar um novo local e também as dificuldades de manter uma boa conversa. No começo tudo é fácil, pois somente dois símbolos são necessários para conversar com tranquilidade. No entanto, conforme exploramos as cidades mais distantes, novos ícones aparecem e as coisas ficam mais complexas. Além disso, ser forçado a substituir cartas do baralho traz uma série de decisões difíceis, afinal, o conjunto de cartões é bem pequeno.

A interação por cartas tem regras simples, mas há boa complexidade por trás. No começo eu tive muita dificuldade em terminar bem as conversas, principalmente quando a variedade de símbolos aumentou. Porém, aos poucos, consegui entender como usar bem as habilidades especiais e, principalmente, o Accord, que permite cometer um único erro. Isso me permitiu conduzir melhor os diálogos até mesmo com símbolos que não combinam — é recompensador conseguir criar sequências mesmo com uma mão ruim. A construção de baralho parece limitada em um primeiro momento, mas há muita estratégia envolvida por trás: normalmente o melhor é focar em um conjunto pequeno de símbolos, por mais que isso limite algumas interações.


A dificuldade, na maioria das vezes, é ter as cartas certas para conseguir interagir com as pessoas que você deseja naquele momento. É um conceito interessante, mas a execução nem sempre é boa, pois às vezes dependemos da sorte: ter as cartas de atitude corretas não garante que você vai conseguir chegar no fim da conversa. E muitos dos objetivos do jogo exigem que os diálogos terminem bem, então é meio chato e frustrante ficar à mercê disso.

A saudade de casa é representada por cartas de fadiga, que não combinam com nenhuma outra carta. Conforme viajamos, mais cartões desse tipo são adicionados ao baralho, o que atrapalha as interações — é como se o cansaço influenciasse negativamente as conversas. Eventos diversos, como fazer carinho em um cachorro, diminuem a fadiga. É uma interpretação interessante, mas achei a mecânica desbalanceada: a fadiga se acumula rapidamente, comprometendo bastante os diálogos no final dos capítulos e trazendo frustração.


Aos poucos eu percebi que o baralho representa a personalidade do protagonista e é interessante ver como isso afeta as relações. Um exemplo é o seu amigo de infância, Elias. No começo da aventura é fácil conversar com ele por causa da presença de simples cartas com triângulos e círculos. Durante as viagens, o baralho muda com novas experiências, como o losango do pensamento lógico e o quadrado de imposição de opiniões. Quando o protagonista volta para casa após uma viagem é difícil conversar com Elias, pois os símbolos nem sempre combinam. É uma clara analogia a como conhecer o mundo e interagir com outras pessoas altera a personalidade da gente, e o jogo está repleto de momentos assim.

Uma bela estrada com muitas possibilidades

Signs of the Sojourner é uma história sobre se conectar e amadurecer no processo. Ao mesmo tempo, é também uma viagem incrível por um mundo colorido e repleto de pessoas singulares. Apreciei bastante a progressão não linear: podemos acompanhar a caravana ou explorar livremente. Cada partida é distinta e apresenta personagens, rotas, cidades e eventos únicos, sendo que o andamento muda de acordo com nossas ações.

Em um conjunto de viagens, por exemplo, eu decidi acompanhar a caravana itinerante, o que me permitiu salvar a loja — no entanto, muitas amizades foram perdidas no processo. Já em outra jornada, me concentrei em tentar encontrar informações sobre a mãe do protagonista ao custo de ter a cidade natal removida da rota. É impossível ver todas as possibilidades em uma única partida e me surpreendi com as diferenças significativas entre elas.


Pelo caminho, encontramos todo tipo de gente, como a bruta líder da caravana, um artista inseguro, um estranho homem que vende grilos tostados, uma musicista misteriosa, e muito mais. Os personagens conseguem esbanjar personalidade com suas poucas linhas de diálogo e é interessante ver como as relações com eles se aprofundam com o passar do tempo. Mesmo assim, senti falta de um maior aprofundamento dessas pessoas e de suas histórias — faltou mais texto para desenvolver melhor os assuntos.

Fora isso, Signs of the Sojourner conta com uma ambientação cativante. O visual desenhado é repleto de cor, os personagens esbanjam estilo com suas aparências marcantes e os cenários são pitorescos. Uma trilha sonora imersiva com instrumentos acústicos e composições que remetem ao folk e ao jazz dá vida ao mundo do jogo. A mescla desses elementos me fez sentir no meio de uma viagem na estrada em um local exótico.


Uma criativa história de crescimento pessoal

Signs of the Sojourner é uma interessante interpretação sobre a arte de se comunicar e as dificuldades do processo de amadurecimento. O diálogo feito por meio de cartas com símbolos é simples de entender, mas oferece profundidade com os efeitos variados dos cartões e a construção minimalista de baralhos. A viagem por esse mundo exótico é envolvente por causa dos vários personagens interessantes, belas localidades e ambientação ímpar, em uma jornada diversificada feita para ser experimentada várias vezes. Alguns detalhes, como a influência da sorte e a inclusão constante de cartas inúteis no baralho, trazem um pouco de frustração, no entanto, interpreto como mais uma metáfora do jogo — assim como na vida, precisamos fazer o melhor com o que temos. No fim, Signs of the Sojourner oferece uma experiência diferente e única de cartas e narrativa.

Prós

  • Interessante sistema de diálogos baseado em cartas que combina estratégia, puzzle e montagem de baralhos;
  • Narrativa não linear que muda de acordo com nossas ações;
  • Boa diversidade de personagens para conhecer;
  • Ambientação excepcional com belas ilustrações e trilha sonora elaborada.

Contras

  • Mecânicas influenciadas pela sorte atrapalham em alguns momentos;
  • Certos aspectos são um pouco desbalanceados, como as cartas de fadiga;
  • Diálogos e personagens subdesenvolvidos.
Signs of the Sojourner — PC — Nota: 8.5
Revisão: Ives Boitano
Análise produzida com cópia digital cedida pela Echodog Games

é brasiliense e gosta de explorar games indie e títulos obscuros. Fã de Yoko Shimomura, Yuzo Koshiro e Masashi Hamauzu, é apreciador de roguelikes, game music, fotografia e livros. Pode ser encontrado no seu blog pessoal e nas redes sociais por meio do nick FaruSantos.


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