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Análise: Crash Bandicoot 4: It’s About Time (PS4/XBO) é uma célebre aventura pelo espaço-tempo

Viaje com Crash e Coco por inúmeras dimensões para encontrar as quatro máscaras quânticas e restaurar a ordem do multiverso.

Crash Bandicoot é uma franquia de jogos eletrônicos extremamente popular. Não há como negar a influência que ela tem na indústria desde a sua criação no final da década de 90, quando o personagem se consolidou como o mascote do PlayStation. Foram desenvolvidos inúmeros títulos, entre obras originais e remasterizações, que passaram pelas mãos de diferentes desenvolvedoras, sendo os mais recentes Crash Bandicoot N. Sane Trilogy (Multi) e Crash Team Racing: Nitro-Fueled (Multi), produzidos pela Activision.

O sucesso destas remasterizações foi tão grande que logo a empresa e a sua subsidiária Toys for Bob decidiram desenvolver uma quarta aventura para o marsupial, culminando em Crash Bandicoot 4: It's About Time. Lançado no início do mês para PlayStation 4 e Xbox One, o novo título da série trouxe uma infinidade de conteúdo, visual e gameplay renovados, incorporação de novas mecânicas e muitas outras novidades para uma experiência cômica e um pouco inusitada.

Viajando entre dimensões com quatro máscaras quânticas

It's About Time é a sequência direta de Crash Bandicoot 3: Warped (PS) e começa com Neo Cortex, N. Tropy e a máscara do mal Uka Uka isolados em uma prisão dimensional de um planeta distante. Com muita paciência, esforço e dedicação, Uka Uka consegue abrir uma fenda no espaço-tempo e os vilões fogem do local, mas no processo diferentes dimensões entram em colapso.

Sentindo que algo terrível aconteceu, Aku Aku resolve avisar Crash e Coco na ilha N. Sanity e os dois partem para uma memorável viagem entre mundos em períodos de tempo distintos para restaurar a ordem do multiverso. Eles devem encontrar quatro máscaras quânticas espalhadas por diferentes universos e que lhes fornecem algumas habilidades específicas; Lani-Loni remove e adiciona obstáculos e plataformas, Arkano realiza um movimento giratório poderoso que pode eliminar tudo o que está a frente, Kapuna-Wa desacelera o tempo e Ika-Ika controla a gravidade.

Apesar do tom de ficção científica, a narrativa de Crash Bandicoot 4 se desenvolve de maneira leve, entregando uma experiência marcante com personagens principais e antagonistas carismáticos e cutscenes repletas de humor. A ótima dublagem em português brasileiro também reforça os traços cômicos da história; é improvável você não rir durante a jogatina.
A máscara Ika-Ika utilizando seus poderes gravitacionais.
Você pode alternar entre Crash e Coco como personagens jogáveis a qualquer momento da campanha, e ambos possuem skins inéditas que são desbloqueadas ao longo do jogo através de joias adquiridas ao concluir determinados desafios nas fases, como coletar certas porcentagens de frutas ou não morrer mais que três vezes. Uma série de tarefas longas, mas extremamente recompensadoras e divertidas para horas de gameplay.

O título possui dez mundos com mais de trinta fases, incluindo viagens temporais para cidades futuristas no ano de 2300, planetas alienígenas estranhos, baías repletas de navios piratas e muitas outras áreas inéditas. Sua estrutura segue a fórmula da trilogia original, trazendo os mesmos elementos como caixas com frutas Wumpa, blocos explosivos Nitro e TNT, plataformas móveis, novos inimigos e mais. As clássicas fases bônus também retornam, com novos desafios de saltos sequenciais para quebrar caixas.
O mapa dimensional com as fases da campanha principal, fitas de flashback e jogabilidades extras.
O jogo não inventa nada de novo e respeita o legado da franquia, aprimorando e expandindo mecânicas já conhecidas como saltos duplos, deslizamentos, giros e barrigadas, além de apresentar as habilidades das novas máscaras que transformam o gameplay de maneira positiva. Também existem dois modos de jogo, o Moderno e o Retrô. No primeiro você pode morrer quantas vezes quiser, recomeçando no checkpoint mais próximo, já no modo Retrô, o jogo oferece um número fixo de vidas e lhe força a reiniciar a fase ao perder todas.

É notável perceber que depois de mais de duas décadas, a Toys for Bob ainda conseguiu estabelecer uma jogabilidade viciante, com ambos os modos sendo extremamente satisfatórios. A opção Retrô vai agradar os fãs mais antigos, principalmente pela manutenção da jogabilidade tradicional da série, enquanto que a Moderna deve atrair novatos, pois oferece diferenciais como a alocação de um checkpoint mais próximo do jogador quando ele morre com muita frequência.
Arkano faz você girar loucamente, então tenha cuidado.
Em N. Sane Trilogy, a Vicarious Visions alterou a física do personagem, deixando os pulos imprecisos e a experiência muito mais difícil. Na década de 90, por exemplo, os formatos dos pés de Crash eram achatados, o que permitia um ajuste perfeito entre plataformas, mas na remasterização, eles foram arredondados, fazendo com que o personagem escorregue das beiradas para tentar alcançar outra plataforma.

It's About Time mantém isso, e a física do jogo, em adição às novas mecânicas, tornou a experiência mais desafiadora - e frustrante. Por exemplo: no mundo nove, ambientado em uma cidade futurista, é necessário correr até a nave de Neo Cortex, pulando entre plataformas que rapidamente caem. Controlar Crash e Coco nesse momento pode ser angustiante, pois os saltos são um tanto quanto descontrolados e ora você pula demais, ora muito pouco. Isso se você não cair antes.

Além disso, na parte final do título precisamos intercalar os poderes das máscaras, enquanto fazemos saltos precisos entre plataformas, lasers, objetos cortantes e explosivos. Embora tudo isso seja desafiador, a Toys for Bob desenhou tais fases de maneira metódica e ritmada, onde o timing do jogador deve ser perfeito, ou seja, além de controlar o tempo exato de salto, você precisa ativar poderes quase em sequência a esses movimentos e ainda preparar aterrissagens bem definidas.

Fazer tudo isso rapidamente é uma tarefa árdua, principalmente porque a física do personagem peca por não oferecer muita precisão. Também fui presenteado com alguns raros delays, que pioraram e muito a minha situação, mas neste caso foram pouquíssimas vezes e logo foi possível vencê-los.

Esses impasses não transformam a experiência em algo completamente ruim, pois em comparação a N. Sane Trilogy, a Toys for Bob investiu um pouco mais em precisão. Excluindo alguns momentos como os citados acima e outros não especificados, controlar Crash e outros personagens é satisfatório e oferece um estado de serenidade ao jogador. Para mim, o maior destaque neste ponto vai para os saltos no meio do ar, onde é possível corrigi-los com mais facilidade para aterrissagens mais precisas. Outra novidade é a presença de uma sombra mais nítida abaixo do personagem, auxiliando o jogador nos saltos.
Use o poder da Lani-Loni para transformar plataformas, enquanto salta com precisão.
Crash Bandicoot sempre foi uma franquia de jogos com desafios de alto nível, e isso vale para o quarto título também. É necessário ter muita paciência para chegar ao final de cada fase e coletar todas as caixas, o que pode não agradar a todos os públicos, mas fãs do gênero de plataforma e do personagem irão se divertir bastante nesta nova aventura, principalmente por conta do alto fator replay.

Novos personagens resultam em novas maneiras de jogar

O level design de It's About Time pode até soar familiar, mas a Toys for Bob implementou plataformas modernas com visual colorido, rico em detalhes e sensações de profundidade ampliadas com perspectivas 2D, 3D, lateral e de frente. Existem também fases inéditas com referência à trilogia original, como a chamada "Urso Pular" em homenagem ao personagem Polar de Crash Bandicoot 2: Cortex Strikes Back (PS). Além do visual e do level design, a trilha sonora é excepcional, com músicas divertidas que obviamente mesclam sonoridades vindas dos jogos anteriores.

As fases flashback são outro elemento que incrementa o gameplay, e são muito semelhantes às fases bônus, onde é preciso quebrar todas as caixas Wumpa que conseguirmos. Os novos desafios 2D são ambientados nos anos 90 e o filtro visual utilizado é de uma antiga filmadora, que mostra os testes de Crash no laboratório de Neo Cortex. Mecanicamente estes desafios são bem mais difíceis que as fases bônus, principalmente porque requerem precisão, algo que pode não ser tão fácil devido à atual física incorporada ao personagem.
Volte para 1996 e entenda como foi o treinamento de Crash Bandicoot no laboratório de Neo Cortex.
A troca frequente de câmera apresenta maior dinamicidade entre fases, mas em algumas dessas ocasiões ela simplesmente atrapalha a experiência. No mundo oito, enquanto movimentava Crash pelas naves espaciais de N. Tropy, o ângulo da câmera não permitia ver o que estava além de uma curva fechada, e dei de cara com uma barreira elétrica criada por um inimigo. Também existem fases em que o ângulo fica quase rente ao chão, impedindo a visão das plataformas. São poucos os momentos que isso acontece, mas suficientes para incomodar.

O maior destaque e ponto positivo de It's About Time é a inclusão dos novos personagens jogáveis Tawna, Neo Cortex e Dingodile, fornecendo uma jogabilidade extra, mais dinamismo e quebrando um pouco da monotonia dos momentos com Crash e Coco. Como grande fã da franquia, esperava que o novo título trouxesse algumas inovações de grande impacto, mas isso não ocorreu.

Embora as novidades apresentadas sejam satisfatórias e deixem o jogo excelente, depois de um tempo os desafios com os protagonistas não engatam como deveriam; particularmente, houve momentos em que eu não aguentava mais aquele sentimento de repetição mesmo com as habilidades das novas máscaras. É aqui que os novos personagens foram acoplados de maneira brilhante, cada um com mecânicas distintas que transformam completamente o gameplay.

Abandonando os estereótipos de donzela em perigo, Tawna possui um gancho que permite a realização de diversas ações à distância; Neo Cortex tem mais foco em estratégia e usa sua arma de raios para transformar inimigos em plataformas para progredir; já Dingodile usa sua arma aspiradora para sugar caixas e lançar TNTs nos inimigos. A variação de mecânicas destes personagens é muito bem-vinda e inova a experiência de maneira muito interessante.
Sugando tudo o que vem pela frente com Dingodile.
Em contrapartida aos ótimos "heróis jogáveis", por assim dizer, o outro lado fica completamente à mercê de novidades. Com mínimas adições de novos chefes e vilões, Crash Bandicoot 4 infelizmente perde a chance de criar antagonistas ricos e diversificados. Ao longo da jornada você até encontrará um personagem inusitado, mas ele acaba sendo ofuscado rapidamente e só aparece em uma cutscene pouco reveladora e em uma batalha não muito épica. Por outro lado, o título apresenta alguns chefes secundários interessantes, como um Tiranossauro, um polvo e outros, mas as batalhas também são pouco desafiadoras e notáveis, utilizando as mesmas ideias que já conhecíamos.

No caso das batalhas com vilões, mecanicamente elas são fluidas e podem ser divertidas para a maior parte do público, mas ao enfrenta-los, percebi que elas utilizam da mesma ideia principal, muito repetitivas, não oferecendo nenhum grande diferencial. Os poderes das máscaras quânticas tiveram que ser usados, mas ainda assim foram experiências no máximo razoáveis, sem muito a acrescentar e que acabavam quase sendo ofuscadas pelas fases lineares.
N. Brio usando todos os seus truques maléficos não muito desafiadores.

Implementação de novos modos de jogo

A campanha principal é de longe o maior destaque de Crash Bandicoot 4, mas a Toys for Bob foi além e acrescentou inúmeras novidades para o título, como uma imensidade de colecionáveis e novos modos como o N. Verted, onde todas as fases originais são invertidas. Entretanto, foram acoplados alguns filtros que transformam o visual destas fases e que não agregam muito valor à jogabilidade, pois a experiência de alguns efeitos exagerados faz com que o jogador fique totalmente confuso e perdido.

Na primeira fase do jogo, por exemplo, um filtro escuro é adicionado e Crash parece uma tocha que apaga e acende para mostrar o caminho. O problema é que às vezes você não vê nada e caso não preste atenção, logo estará caindo em um buraco ou cambaleando entre os inimigos. Esses filtros visuais não são tecnicamente ruins ou desnecessários, pois existem variações muito divertidas de se usar, mas seria mais inteligente por parte da desenvolvedora incluir uma opção para desativá-los em alguns momentos.
It's About Time apresenta plataformas deslizantes frenéticas e utilizar diferentes filtros cria efeitos inéditos e inusitados.
Outra novidade foi a implementação de um modo multiplayer local que acopla diferentes desafios competitivos e cooperativos. O competitivo tem foco em corridas de tempo e coleta de caixas, onde você e seus amigos podem competir para ver quem chega mais longe em menos tempo ou quem coleta mais frutas Wumpa. O cooperativo, por sua vez, é moldado a partir de um esquema de passagem de controle, em que você joga até um checkpoint e depois passa a vez para seu amigo. Os modos visam a diversificação do gameplay e embora sejam simples, não são muito divertidos, pois é necessário passar o controle fisicamente para cada pessoa. Seria mais interessante que os usuários corressem simultaneamente com diferentes controles ou até implementar um modo multiplayer online.

Certamente esse modo vai depender muito de quem for jogar, mas ainda é mais interessante partir logo para a história principal e tentar zerar o game nesse estilo com os amigos, a menos que você queira testar suas habilidades. No mais, o modelo não traz nada de empolgante e existem melhores investimentos de tempo.

Já era hora de uma nova aventura do marsupial

Crash Bandicoot 4: It's About Time não apresenta nenhuma inovação de grande impacto, mas ainda assim é excelente o suficiente para divertir e extasiar. É uma sequência digna de uma série de sucesso com elementos aprimorados da trilogia original, visual e trilha sonora renovados e uma jogabilidade competente e desafiadora. As inclusões de novos personagens jogáveis, de ambientes variados e das mecânicas provindas das quatro máscaras quânticas são bastante satisfatórias, e o tom cômico acoplado à ótima dublagem ajuda a criar uma aventura inesquecível e extremamente engraçada.

Existem alguns pontos que deixam a desejar, como a falta de diversidade nas batalhas contra vilões, os filtros visuais do modo N. Verted e o multiplayer pouco memorável, mas o título em si entrega o que promete e consegue melhorar razoavelmente a física de personagem enraizada em N. Sane Trilogy, ainda que persistam os momentos de frustração, principalmente por conta de movimentos precisos e de ângulos de câmeras mal projetados.
"Esses malditos, mas fofos marsupiais", pensou o Dr. Neo Cortex.

Prós

  • Alto fator replay;
  • Trilha sonora excelente;
  • Level design desafiador com homenagens à trilogia original;
  • Visual colorido e rico em detalhes;
  • Personagens carismáticos com cutscenes repletas de humor;
  • Ótima dublagem em português brasileiro;
  • Jogabilidade clássica aprimorada com novas e interessantes mecânicas;
  • Diferentes personagens jogáveis tornam a experiência mais diversificada e menos monótona;
  • Vários modos de jogo e colecionáveis.

Contras

  • O ângulo da câmera pode atrapalhar em alguns momentos;
  • A física do jogo em adição às novas mecânicas continua problemática em algumas fases;
  • As batalhas contra os chefes e os vilões são pouco desafiadoras e memoráveis;
  • Alguns filtros visuais do modo N. Verted confundem o jogador;
  • O multiplayer local é completamente esquecível.
Crash Bandicoot 4: It's About Time - PS4/XBO - Nota: 9.0
Versão utilizada para análise: PS4
Revisão: Davi Sousa
Análise produzida com cópia digital cedida pela Activision

é apreciador de games com conceito artístico minimalista e narrativas de significado profundo. No GameBlast escreve notícias, análises, crônicas e especiais; no tempo livre produz roteiros autorais de séries e filmes.


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