Blast from the Past

Resident Evil: Dead Aim (PS2) — a subsérie que você precisa conhecer

Relembre a época na qual apontar uma pistola de brinquedo para a TV era sinônimo de diversão e entenda como Resident Evil surfou nessa onda.


Resident Evil é uma das franquias mais antigas e importantes dos videogames. Em quase três décadas de história, a série já conta com mais de trinta lançamentos para os mais diversos consoles. No meio de tantos jogos — alguns ótimos e outros catastróficos — é normal que algumas pérolas passem despercebidas até mesmo pelos fãs, mas um em específico sempre é citado quando falamos dos esquecidos da franquia, Resident Evil: Dead Aim.

Eram outros tempos

A busca pelo realismo, os gráficos estonteantes e as experiências de tirar o fôlego fazem com que o desenvolvimento dos jogos fique cada vez mais demorado e complexo, mas há vinte anos o cenário era bem diferente. Em uma época na qual os jogos eram mais simples e a tecnologia não se preocupava tanto com o realismo, era comum os estúdios levarem meses ou no máximo um ano para soltar um novo lançamento.

Usando a nova geração da série como exemplo, entre 2017 e 2023 a franquia recebeu apenas cinco novos títulos, e no mesmo período de seis anos entre 2001 e 2006 mais de dez jogos haviam sido lançados.

Esse excesso de lançamentos trouxe muitas coisas boas (e outras ruins) em uma época em que as pessoas ainda estavam descobrindo como fazer videogames, o que fez com que a desenvolvedora japonesa Capcom resolvesse apostar nas novas tecnologias usando Resident Evil como um laboratório criativo. No PlayStation 2, a série tentou se encontrar no online cooperativo com Outbreak. Já no Nintendo Wii e seu fantástico controle de movimento, The Umbrella Chronicles transformou a franquia em um rail shooter.

Gun Survivor


No começo dos anos 2000 a franquia recebia uma das subséries mais queridas pelos fãs, Gun Survivor. Com o seu primeiro lançamento para o PlayStation, ele trazia a diferente proposta de ser jogado inteiramente com a GunCon, uma pistola de brinquedo desenvolvida pela Namco que servia como controle para diversos jogos, sendo o mais famoso deles Time Crisis.

Gun Survivor foi um sucesso e já no PlayStation 2 recebeu uma sequência que funcionava como uma reimaginação em primeira pessoa de Code: Veronica, que para a tristeza dos fãs,  era uma completa tragédia: um jogo confuso, sem conteúdo e que não fazia jus nem ao seu antecessor ou ao nome que carregava. A tristeza dos fãs só aumentou com o lançamento de Gun Survivor 3 que por algum motivo desconhecido não fazia parte da série Resident Evil, mas sim de uma outra franquia da Capcom chamada Dino Crisis.

Com dois fracassos seguidos era de se esperar que a subsérie pararia por aí como tantas outras fizeram, mas em 2003 todos foram surpreendidos com o lançamento de Gun Survivor 4 (ou Dead Aim como ficou conhecido nesse lado do mundo), que não só voltava a fazer parte de Resident Evil, mas também daria um final digno a subsérie.

Um protótipo de Resident Evil 4

Assim como seus antecessores, Dead Aim foi feito para ser jogado inteiramente na GunCon, mas dessa vez transitando entre primeira e terceira pessoa, tirando o personagem principal da tela em situações que exigem precisão e mostrando-o nos momentos de exploração. Apesar de parecer arcaico e pouco intuitivo, esse conceito foi aprimorado e dois anos depois deu origem a câmera em cima do ombro de Resident Evil 4 que se tornou a base do jogo de tiro moderno.


Mas não se esqueça que estamos em 2003, e durante essa época a precisão dos controles era um conceito que não existia. Foram poucas as pessoas que jogaram Dead Aim como ele deveria ser jogado, já que nem todos tinham uma GunCon para desfrutar seu verdadeiro potencial, bem como não tinham guitarras para jogar Guitar Hero.

Jogando no controle Dead Aim é um teste de paciência: mirar é uma tarefa difícil, truncada e frustrante (principalmente nas lutas contra chefes) fazendo com que alguns jogadores nem consigam chegar ao final, seja pela dificuldade ou pela falta de paciência. Já na GunCon a história é diferente, pois tudo flui muito bem, de forma extremamente rápida e intuitiva, o que o transforma em um jogo totalmente diferente.

A essência dos jogos clássicos também está presente aqui, apesar de ter um foco um pouco maior na ação, aquele leva e trás de itens e a resolução de quebra-cabeças tomará boa parte da jogatina. Por se ambientar a maior parte do tempo em um navio, o jogador terá que passar pelos mesmos lugares várias vezes, desvendando segredos, lidando com o enorme número de zumbis e fazendo com que um lugar que antes parecia intimidador se torne familiar.

Mas calma que você não precisará ir atrás de um PlayStation 2 e uma GunCon no market place do facebook. Graças às benesses da tecnologia moderna, é possível jogar usando teclado e mouse através de emulação. Se você jogou Dead Aim na época e achou o cúmulo da chatice, que tal dar essa nova chance?

Um navio infestado de zumbis


Apesar da boa jogabilidade, o mesmo não pode ser dito de sua história que é rasa, curta e desinteressante. Nela, acompanhamos o agente secreto Bruce McGivern em uma missão para capturar o terrorista Morpheus Duvall que sequestrou o navio da Umbrella “Spencer Rain”, e está planejando liberar um vírus mortal caso suas exigências não sejam cumpridas.

Em paralelo a missão de Bruce, temos a chinesa Fong Ling que também foi enviada ao Spencer Rain para deter Morpheus a mando do governo chines. Durante a trama, Bruce e Fong precisam unir forças para derrotar um inimigo em comum, mas o patriotismo cego de ambos deixa as coisas um tanto difíceis.

A premissa pode até ser interessante, mas o fato de o jogo ter apenas duas horas de duração não ajuda no desenvolvimento do enredo e quando as coisas começam a ficar interessantes o jogo acaba, deixando Bruce e Fong como apenas dois personagens rasos que se encontraram por acaso.

E se você achou Bruce parecido com Leon, não é mera coincidência. As semelhanças dos jogos não param na perspectiva, já que todo o design de Bruce foi usado para inspirar o visual de Leon, mostrando que Dead Aim é um jogo mais importante para a franquia do que alguns pensam.


“Mas isso não é Resident Evil”

Apesar de ter vendido relativamente bem principalmente no Japão, esse foi infelizmente o fim da subsérie Gun Survivor. Após o sucesso astronômico de Resident Evil 4, a franquia tomou novos rumos, deixou de ser um laboratório criativo e passou a atender aos desejos dos fãs e entregar o que eles mais queriam, deixando de apostar em ideias malucas.

Dead Aim é um reflexo de uma era dos videogames que nunca voltará, uma época na qual os estúdios não tinham medo de inventar e criar ideias malucas. Quem imaginaria que um jogo de dança de Persona poderia ser bom ou que colocar o Mario para jogar futebol daria certo? Por um lado o fim dessa era nos livrou de muitos jogos ruins, mas por outro nos deixa a impressão de que todos os jogos são iguais e que as ideias legais ficaram no passado.

Mesmo que sejam jogos velhos e decrépitos dos quais ninguém mais se lembra, é divertido voltar algumas décadas e experimentar essas ideias malucas. Muitas delas nunca foram bem recebidas, sempre que Resident Evil tentou se tornar algo mais do que levar e trazer chaves em uma mansão o tiro saiu pela culatra, mas ao mesmo tempo a série já foi tantas coisas que hoje em dia é difícil dizer o que ela é, e talvez só agora, vinte e oito anos depois, ela esteja se encontrando novamente.

Revisão: Juliana Piombo dos Santos


Um “arqueólogo de games” que adora falar das gemas ocultas do mundo dos jogos, tem o PS3 como console favorito e ama um bom hack and slash. Mesmo apreciando os jogos modernos, não dispensa uma boa velharia obscura do tempo que videogame era movido à lenha. Segue o pai.
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