Blast Test

Impressões: Despot’s Game (PC) combina batalhas automáticas e roguelike em uma competição brutal

Lidere humanos indefesos e use armas inusitadas para enfrentar inúmeras ameaças neste título indie.


Em Despot’s Game, indivíduos tentam sobreviver aos perigos de um programa mortal e macabro. O curioso é que os participantes agem por conta própria, e a tarefa do jogador é equipá-los e organizá-los. Este título indie combina roguelike com mecânicas de batalha automática para criar uma experiência estratégica tensa e interessante. Lançado em Acesso Antecipado, o jogo oferece uma base bem sólida, mas ainda carece de balanceamento e conteúdo.

Em um programa mortal

Um pequeno grupo de pessoas acorda completamente sem memórias em uma estranha construção. Explorando um pouco, elas logo se vêem ameaçadas por robôs agressivos, criaturas ferozes e vários outros perigos mortais. Para tentar sobreviver, esses indivíduos juntam as suas forças e usam armas espalhadas pelas salas para se defender. Eles acabam descobrindo que estão dentro de um show macabro controlado por uma figura nefasta chamada d’Spot, que vai fazer de tudo para deixar as coisas bem interessantes (e sangrentas).


A situação é complicada, mas por sorte a equipe conta com a ajuda do jogador, que atua como mentor. Pelo caminho, nós escolhemos as salas que devem ser visitadas, compramos equipamentos para nossos personagens e organizamos a formação do grupo. Tudo precisa ser pensado com cuidado, pois os mapas são labirínticos e o dinheiro e a comida são limitados — a má administração de recursos resulta em derrota.

Na hora do combate, nosso pequeno bando age por conta própria em batalhas automatizadas. O tipo de arma determina o comportamento de cada unidade: espadachins golpeiam os inimigos diretamente, portadores de escudos defendem o time, médicos procuram curar aliados, pistoleiros e magos acertam oponentes de longe, e assim por diante. Sendo assim, montamos a estratégia indiretamente de acordo com as escolhas feitas no decorrer do caminho.


Diante de tantos perigos, a aniquilação é praticamente inevitável, mas não há problema, pois outros humanos indefesos estão disponíveis para participar do programa. Despot’s Game é um roguelike, o que significa recomeçar do zero após perder uma tentativa. Conforme jogamos, novos recursos são desbloqueados, como modificadores de início de partida e novas habilidades. Há também um aspecto multiplayer: os times dos vencedores se enfrentam automaticamente para montar um placar mundial.

O tema “programa mortal” é tenso, mas a atmosfera é leve. O visual em pixel art é charmoso e as batalhas prendem a atenção com grupos de pessoas enfrentando inimigos imensos. O humor é uma constante e com elementos divertidos: geladeiras, pretzels gigantes, sabres de luz e várias outras maluquices são algumas das armas do jogo. O texto em português também é bem-humorado e encontrei referências curiosas, como humanos que se chamavam Sérgio Tesla, Amiko de Rívia e Kira Kenshin.

Montando estratégias indiretamente

Não controlar diretamente os combates pode parecer sem graça, mas Despot’s Game é uma experiência tática mais profunda do que aparenta. Para chegar longe, é essencial pensar com cuidado para montar um time balanceado que seja capaz de derrotar os inimigos, o que raramente é uma tarefa fácil por causa da escassez de opções e do fator aleatoriedade.

Algumas ferramentas nos permitem enfrentar melhor as probabilidades. Habilidades úteis são liberadas ao equiparmos vários humanos com diferentes itens da mesma classe. Por exemplo: três personagens com escudos diversos podem fazer uma provocação especial que atrai a atenção de todos os inimigos; espadachins com armas diferentes ganham um ataque giratório poderoso; ao recrutar três ou mais pistoleiros distintos, às vezes a velocidade de todo o grupo é aumentada. Efeitos poderosos e novas habilidades são desbloqueadas conforme a diversidade de equipamentos aumenta.


Outro recurso importante está nas mutações, que alteram o comportamento de algumas classes. Uma delas permite que curandeiros executem primeiros socorros à distância, o que é valioso para mantê-los longe dos perigos. Outra modificação aumenta a força e velocidade de personagens sem armas, tornando-os menos inúteis. Há também metamorfoses globais, como uma melhoria que recupera parte da vida dos sobreviventes de combates.

A maior dificuldade nas partidas é conseguir gerenciar os recursos. Com as fichas recebidas ao vencer as batalhas podemos comprar humanos, equipamentos e melhorias, assim como ativar certos dispositivos no labirinto. Também precisamos ficar de olho na comida, que é consumida ao se mover pelas salas. Deixar unidades com fome é perigoso, pois suas características se enfraquecem acentuadamente. Nunca há dinheiro e alimento suficientes, o que nos força a pensar com cuidado nas várias opções — e, em último caso, é possível sacrificar uma pessoa para receber comida.


Em labirintos de dificuldade excruciante

Despot’s Game é bem difícil e sofri para conseguir avançar. Nas primeiras partidas eu fui destruído rapidamente, pois ainda não sabia muito bem como montar um time balanceado ou escolher mutações relevantes. Com insistência e experimentação, consegui chegar mais longe, principalmente ao explorar as habilidades das classes e administrar melhor meus poucos recursos. Ainda estou longe de alcançar o fim, porém aprendo um pouco a cada derrota.

O alto desafio está no cerne da experiência e eu respeito essa decisão, mas sinto que o título ainda tem muito a melhorar. É bem comum um grupo grande de humanos ser completamente aniquilado por um único inimigo, e não podemos fazer nada a não ser assistir. As batalhas automáticas funcionam, porém alguns problemas incomodam, como a IA errática — cansei de ver meus curandeiros morrendo ao atacar oponentes em vez de cuidar dos aliados. Acredito que a inclusão de algumas opções, como a possibilidade de escolher diferentes táticas para as classes, deixariam o jogo mais palatável.


Outra questão é o desbalanceamento. Frequentemente encontramos oponentes extremamente poderosos que acabam com facilidade com um grupo bem-montado. Nas minhas tentativas, também foi frequente ter problemas na economia, como lojas com opções caríssimas. Esses detalhes, em conjunto com a incapacidade de influenciar mais os combates, trazem frustração. Há um modo fácil, porém ele só é um pouco menos punitivo. Muitos jogadores estão reclamando da dificuldade no fórum do Steam e os desenvolvedores prometem mudanças para o futuro, mas a intenção é manter o alto desafio.

Por fim, como roguelike, Despot’s Game tem pouca variedade. As áreas são basicamente iguais e os mapas são bem básicos e similares, mesmo com a geração procedural. Além disso, a diversidade de itens, mutações e inimigos é bem reduzida, bastando algumas partidas para a repetição surgir. Há um ou outro evento aleatório, mas eles não são suficientes para acabar com a sensação de mais do mesmo. A quantidade reduzida de conteúdo é natural, afinal o jogo acabou de entrar em Acesso Antecipado, e torço para que no futuro isso seja resolvido.



Uma competição que pode melhorar

Despot’s Game traz uma experiência criativa e única com seu combate indireto. Pode parecer tedioso não comandar diretamente as unidades, mas há muitas opções táticas para influenciar o andamento dos embates. Além disso, a atmosfera bem-humorada e com ótimas referências deixa as partidas envolventes.

A jornada dos humanos indefesos é pensada para ser bem difícil, bastando algumas poucas decisões ruins para sofrermos uma derrota. Ainda assim, alguns elementos deixam a dificuldade brutal demais, como combates desbalanceados e uma IA que age de forma estranha. No fim, Despot’s Game já apresenta uma ideia interessante e funcional, só é necessário amadurecer mais para alcançar seu verdadeiro potencial.

Revisão: Davi Sousa
Texto de impressões produzido com cópia digital cedida pela tinyBuild

é brasiliense e gosta de explorar games indie e títulos obscuros. Fã de Yoko Shimomura, Yuzo Koshiro e Masashi Hamauzu, é apreciador de roguelikes, game music, fotografia e livros. Pode ser encontrado no seu blog pessoal e nas redes sociais por meio do nick FaruSantos.


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