Blast from the Past

R-Type (Arcade): o desafiador início de uma das franquias mais importantes dos jogos de navinha

Enfrente o império Bydo no clássico jogo da navinha da Irem.

Um dos gêneros mais prevalentes durante os anos 1980 foi o shoot 'em up, ou como é conhecido por aqui, jogos de navinha. Presente desde o início da indústria, os shmups (como também são conhecidos) evoluíram ano após ano, introduzindo novas mecânicas e ângulos de câmera como rolagem horizontal, lateral e isométrica, entre outras características únicas.


A Irem, uma das produtoras mais presentes no ramo de arcades da época, resolveu apostar no gênero em 1987 com o lançamento de R-Type, jogo de nave com forte influência em obras de ficção científica do período e um dos mais importantes para a fundamentação desse estilo de jogo.

A ameaça do império Bydo

A premissa de R-Type é bastante simples, como a maioria dos jogos da época. Ambientado em meados do século XXII, controlamos a nave R-9A "Arrowhead", uma pequena e poderosa nave encarregada de lutar contra as forças do império Bydo, que ameaça a paz do universo.

O jogo se difere um pouco dos outros shmups em seu ritmo, sendo mais lento e estratégico. A quantidade de tiros e inimigos simultâneos na tela é considerável, e qualquer descuido resulta em morte imediata, como esperado de um jogo de fliperama. A ênfase na dificuldade de R-Type é uma das características mais notáveis, já que a memorização é um fator crucial para ter um desempenho sólido sem perder muitas vidas. A penalidade por ser abatido não está apenas na perda de melhorias, mas também no retorno a um checkpoint.

Para nos ajudar, contamos com um orbe auxiliar chamado Force, que é um elemento central em todos os jogos principais da franquia. Ele pode agir de forma independente ou ser acoplado à nave frontalmente ou na parte traseira. Além de servir como um escudo que destrói inimigos e projéteis menores, manusear o Force estrategicamente é essencial para enfrentar os desafios. Com seu uso, é possível eliminar linhas inimigas e derrotar chefes com mais facilidade, devido aos seus diversos ângulos de tiro.


As melhorias coletáveis durante a jogatina são:
  • Red Crystal: um tiro que vai formando diversos arcos em sua trajetória. É a arma mais reconhecível da série e a mais poderosa, apesar de exigir certa exposição do jogador;
  • Blue Crystal: lasers que atiram em três direções, sendo dois disparos diagonais e um para frente. É a arma mais versátil e balanceada do jogo;
  • Yellow Crystal: arma bastante situacional, já que ela atira duas esferas de energia verticalmente que, ao atingirem o solo, varrem o terreno;
  • Round Bit: pequenas esferas que ficam acima e abaixo da nave, servindo como recurso defensivo. Assim como o Force, destrói inimigos fracos;
  • Homing Missile: mísseis teleguiados que são disparados em uma frequência lenta, mas o suficiente para auxiliar o tiro padrão da Arrowhead.
Além desses aprimoramentos, R-Type introduz um tiro carregado que também se tornou uma marca registrada da franquia. Ao segurar o botão de disparo, um projétil maior varre tudo pela frente, causando danos consideráveis às ameaças mais resistentes. Claro, esse recurso também introduz um elemento de risco e recompensa, pois não é possível contar com o tiro padrão durante o carregamento.

A evolução técnica que acompanhou os jogos de fliperama de 1985 em diante foi impressionante, e R-Type é uma dessas produções de destaque. Os sprites são consideravelmente maiores do que o convencional da época, os chefes possuem tamanhos imponentes, e a tela fica repleta de tiros e obstáculos constantemente.

Um dos aspectos mais legais do jogo está no design dos monstros e fases, claramente inspirado nas obras de H. R. Giger, que criou o icônico xenomorfo da série Alien. Os ambientes, formados por elementos que mesclam o biológico com o mecânico de forma um tanto grotesca em muitos momentos, fazem parte não apenas deste jogo, mas de toda a franquia.

Quanto à trilha sonora, composta por Masato Ishizaki, é considerada uma das mais lendárias da Irem. Variando entre melodias heróicas, como o clássico tema da primeira fase — que foi remixado exaustivamente nos jogos subsequentes — e composições opressoras, como a do terceiro nível, as faixas combinam perfeitamente com a temática espacial do título.

Os incontáveis recontos de R-Type

R-Type foi lançado para uma gama de sistemas no decorrer dos anos. Além das versões para computadores da época, como Amstrad CPC, Commodore 64 e ZX Spectrum, alguns consoles notáveis também tiveram a oportunidade de enfrentar a invasão Bydo.

A versão de Master System era o principal contato dos brasileiros com R-Type. Desenvolvida pela Compile, especializada no gênero na época, é uma adaptação que apresenta notáveis mudanças, como o som adaptado para o limitado chip PSG da plataforma e sprites menores. No entanto, ela reproduz com fidelidade toda a experiência do fliperama para o console de 8-bits da Sega, mesmo com ocorrências consideráveis de flickering (efeito “pisca-pisca” de sprites) para exibir tantas informações ao mesmo tempo. Este port inclui uma fase secreta extra exclusiva que nunca foi revisitada em relançamentos futuros.

A versão mais fiel da época foi a do PC Engine (ou Turbografx-16, se preferir). Não apenas todos os elementos gráficos e cores são fiéis ao original, mas também os enormes chefes são reproduzidos sem a necessidade de usar o cenário como recurso para eles. Além disso, o chip sonoro do console da NEC encaixou-se perfeitamente com as composições de Ishizaki, soando até melhor em alguns casos.


No entanto, essa edição teve um custo considerável em seu lançamento japonês. Como o PC Engine utilizava cartões como mídia de armazenamento, a tecnologia para permitir um espaço maior era custosa ao ponto de preferirem dividir o título em dois, com quatro fases separadas entre eles. Com a versão ocidental lançada alguns anos depois, cartões de maior capacidade foram fabricados para comportar toda a ação na íntegra.

Posteriormente, o acessório de disco do PC Engine recebeu outra versão, desta vez com músicas rearranjadas — de forma um tanto peculiar, pesando no estilo techno —, mas essencialmente sendo o mesmo jogo.

A única plataforma da Nintendo a receber uma versão de R-Type por muitos anos foi o Game Boy, com uma adaptação modesta que cortou algumas fases e músicas. Já o Game Boy Color recebeu uma edição de luxo, adicionando alguns níveis do segundo jogo além das esperadas cores, mas os cortes permaneceram.

O primeiro PlayStation foi o lar da renascença da Irem no final dos anos 1990, graças a uma coletânea chamada R-Types que incluiu o primeiro e segundo títulos de forma praticamente perfeita, exceto por adaptações de resolução. Devido à boa recepção desses clássicos no console de 32-bits, a desenvolvedora lançou R-Type Delta, um dos melhores jogos de navinha da década.

R-Types lida de duas formas com interface em relação à resolução do PS1: uma é deixando-a transparente, enquanto a outra usa de rolagem vertical da área de jogo para deixar as informações opacas na tela.
Por fim, um remake foi lançado para Xbox 360 e PlayStation 3, intitulado R-Type Dimensions. O jogo reúne as duas primeiras obras e adiciona uma nova dimensão sobre elas, apresentando gráficos em 3D e trilha sonora remixada. No entanto, ao toque de um botão, o visual pode ser trocado para o clássico 2D, adaptado para tela wide e com jogabilidade praticamente perfeita. É a melhor forma de experimentar o fliperama em casa nos dias de hoje e também está disponível para PS4, Switch e PC, além das plataformas Xbox modernas via retrocompatibilidade.

O início de uma era

Um dos grandes sucessos da Irem nos anos 1980, R-Type ainda se mantém como um título especial, com características que influenciam muitas obras até hoje. O início da franquia rendeu muitos frutos que estão presentes até hoje, mesmo com diversos problemas enfrentados pela desenvolvedora com o passar dos anos. Mesmo com a filosofia de gameplay de tentativa e erro possa ser visto como um fruto de seu tempo, passar pelos perrengues é indiscutivelmente satisfatório.


Revisão: Vitor Tibério

Estudante de enfermagem de 23 anos, acompanha esse mundo dos joguinhos desde criança. Fã de jogos de luta, games mais arcade, arqueólogo de velharias e viuva póstuma da Sega, mas não abandona experiências mais atuais. Acompanha ferozmente a mídia de podcasts, dublagem e ouvinte assíduo de VGM. Pode ser encontrado como @AlecFull e semelhantes por aí.
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