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Análise: The Signifier: Director's Cut (PC) adiciona conteúdo à campanha, mas ainda sofre com antigos problemas

Reviva a investigação do doutor Frederick Russell com novas opções de diálogo, trechos extras na campanha e gráficos melhorados nesta edição especial.



Lançado originalmente em 2020, The Signifier chegou com a proposta de trazer uma experiência diferenciada quando falamos de jogos focados em dramas interativos. Com uma forte influência de elementos de psicanálise e ficção científica, o título realmente conseguiu criar expectativas por conta de uma mecânica de exploração baseada em dimensões diferentes do subconsciente humano. Contudo, o produto final sofreu por problemas técnicos e roteiro subdesenvolvido. Cerca de seis meses depois, o estúdio Raw Fury lança a Director’s Cut, trazendo conteúdo extra relevante e melhorias bem-vindas.

Investigação psicanalítica

O núcleo principal da campanha de The Signifier continua o mesmo. Na pele do doutor e especialista em inteligência artificial Frederick Russell, devemos investigar a morte de Johanna Kast, vice-presidente de uma mega corporação focada em desenvolvimento tecnológico e IA.

As condições da cena do crime dão a entender que se trata de um caso de suicídio, porém, um membro da TSB (Escritório de Proteção a Tecnologia) chamado Tom nos incentiva a investigar a situação mais a fundo com a tecnologia desenvolvida por Russell, o Dreamwalker. Por meio dele podemos visitar momentos relevantes na memória recuperada de alguém e descobrir elementos que jamais seriam revelados por vias normais.




Ao mergulhar a fundo em momentos diferentes da vida de Johanna, é possível descobrir que a sua morte está interligada a outros acontecimentos, e ligar as peças desse quebra-cabeça é a saída para desvendar o mistério. A trama também se desenrola no mundo real ao visitar locais de interesse e interrogar pessoas que tiveram contato com a vítima em algum momento de sua vida. Enquanto isso, Russell também demonstra ter assuntos pessoais a serem resolvidos, principalmente no que diz respeito a sua filha, Laura.

Por ser fã de filmes e séries envolvendo investigação, minha expectativa era alta pela proposta diferenciada do enredo. Inicialmente a trama consegue se manter interessante e as memórias extras da versão do diretor ajudam a completar espaços que ficaram vagos na edição básica. Contudo, a sensação que tive ainda foi de algo limitado por recursos financeiros no desenvolvimento ou uma escolha errada na direção do jogo. O enredo em si possui muito potencial e, conforme descobrimos novas pistas, novos questionamentos vão surgindo, mas grande parte deles se perde em um final inconclusivo.

A teoria do espelho de Jacques Lacan foi uma das referências no jogo 


Explorando a mente humana

Ao emular os acontecimentos vividos pela vítima, o jogo nos dá a possibilidade de alternar entre duas realidades:
  • Objetiva: relacionada aos cinco sentidos, reconstruindo os cenários o mais próximo possível das percepções realistas de cada lembrança vivida.
  • Subjetiva: ligada e influenciada pelas sensações e sentimentos que a pessoa estava sentindo no instante da memória. Nesse estado as formas são mais abstratas e surreais, trazendo cenários mais distorcidos e conexões improváveis entre locais diferentes.
Cada memória preenche uma linha de tempo na vida de Johanna e nela teremos uma progressão individual daquele acontecimento que vai se expandindo conforme descobertas e quebra-cabeças são resolvidos. Intercalar entre os dois estados é fundamental para prosseguir, pois, dependendo da situação, a experiência afetiva da nossa investigada terá sido mais acentuada e vice-versa, revelando informações adicionais em comparação a outra realidade ou até mesmo novos trajetos antes inacessíveis.

Loop infinito ou memórias sequenciadas?

Em alguns casos encontramos fragmentos de memória que funcionam como peças. Ao analisá-las podemos verificar uma pequena linha do tempo e ao avançar ou retroceder cronologicamente, identificamos em qual momento da memória geral elas se encaixam.

Eventualmente nos deparamos com anomalias na realidade subjetiva que atuam como mecanismos de defesa, comportando-se de maneira agressiva ou desviando nossa atenção do objetivo em questão. Elas possuem formas grotescas que, aliado com uma trilha sonora sombria, confere um clima de tensão e mistério à experiência. É preciso atenção ao contexto para identificar como lidar com cada anormalidade reservada pelas memórias de Johanna.

A jogabilidade de The Signifier é seu ponto mais alto. Viajar entre os estados da mente da vítima, completando os fragmentos da memória dela enquanto novas pistas são reveladas, é um prato cheio para quem curte uma boa investigação. Por sorte, quando estamos perdidos podemos pedir a opinião da Evee, a IA desenvolvida por Russell e responsável por operar o Dreamwalker.

Tem criatura que parece ter saído direto do Labirinto de Fauno

Enquanto cruzamos as evidências com as pessoas e cenários na “vida real”, encontramos diversos documentos e reportagens que explanam o caso de Johanna e outros que se aprofundam no tema dos avanços tecnológicos e da psicanálise. É uma boa maneira de se inteirar desses assuntos que, apesar de distantes das vias acadêmicas normais, despertam muito interesse.

As conversas com outros NPCs trazem muitas opções de diálogos, apesar de terem um tom diferente entre si O desfecho a curto prazo costuma ser o mesmo, com um leve impacto no final do jogo, o que infelizmente traz um ar de linearidade muito forte à experiência e diminuiu a curiosidade ao optar por um posicionamento diferenciado.

Bugs na IA

A versão inicial de The Signifier sofria de uma série de problemas que prejudicaram o desempenho e a satisfação do jogador. Felizmente não presenciei nenhum desses bugs indesejáveis, com exceção de duas situações. A primeira foi com os textos que, em dado momentos, apareceram sobrepostos, impedindo sua compreensão. Reiniciar o meu último ponto de salvamento foi suficiente para resolvê-lo.




Já o segundo bug estava relacionado à sincronização da legenda nos diálogos. Esse incomodou bastante e tem potencial real de prejudicar a experiência de quem tem dificuldades para compreender diálogos em inglês. Em se tratando de desempenho, ao ver vídeos e transmissões da edição padrão, foi perceptível melhorias na definição de textura e na iluminação dos cenários. Por se tratar de um jogo indie, é evidente que ele não conta com gráficos de ponta, mas ainda assim é capaz de proporcionar alguns momentos muito bonitos, mesmo quando falamos de visuais abstratos.




Ainda precisa de mais updates

O esforço da Raw Fury em trazer uma edição mais robusta em The Signifier: Director 's Cut é louvável e necessário, contudo, ela ainda é insuficiente para colocar o seu jogo no patamar competitivo de outros títulos do gênero. Mesmo adicionando novos trechos e mais dois finais na campanha, que ajudam a preencher as lacunas deixadas pela versão original, a sensação que fica ainda é de insatisfação com tantas pontas soltas deixadas.




A conclusão acontece de forma muito abrupta e não é capaz de responder a todas as questões ou, ao menos, a parte delas, ao ponto de nos deixar satisfeitos enquanto uma sequência ou DLC é produzida. Eu espero que os desenvolvedores consigam dar continuidade à história e refinar ainda mais a jogabilidade, pois a ideia é original e demonstra potencial para se equiparar a grandes produções.

Prós

  • Uso inédito de conceitos da psicanálise;
  • Adição de novas memórias e finais;
  • Atmosfera imersiva durante a exploração das memórias;
  • Melhora nas texturas e na iluminação.

Contras

  • Excesso de linearidade em um título que promove diversidade nos desfechos;
  • Enredo inconclusivo, deixando muitas pontas soltas desnecessárias;
  • Dessincronização das legendas.
The Signifier – PC – Nota: 7.0
Revisão: Ives Boitano
Análise produzida com cópia digital cedida pela Raw Fury

Escreve para o GameBlast sob a licença Creative Commons BY-SA 3.0. Você pode usar e compartilhar este conteúdo desde que credite o autor e veículo original.


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