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Análise: Knights and Bikes (PC/PS4) é uma charmosa aventura moldada pela criatividade infantil

Procure um tesouro escondido neste título indie de ótima ambientação produzido por desenvolvedores que trabalharam em jogos como LittleBigPlanet e Tearaway.


A infância é um momento marcado por diversão, onde um simples passeio pode se tornar uma aventura épica com o poder da imaginação e da criatividade. Knights and Bikes explora esse conceito na forma de um charmoso jogo de ação e puzzle em que duas garotas desbravam uma ilha em busca de um tesouro. O título cativa com ambientação caprichada e ótimo visual, por mais que algumas mecânicas simples demais ofuscam um pouco seu brilho.

Caça ao tesouro

Demelza é uma garota que vive tranquilamente na ilha turística de Penfurzy. Um dia, uma menina chamada Nessa desce do barco que traz suprimentos para o local. Eventualmente as duas crianças se conhecem e depois de alguns pequenos conflitos elas se tornam amigas. Com a companhia do ganso de estimação de Demelza, as duas fundam o “Clube de Bicicleta Rebelde de Penfurzy”, que tem como objetivo explorar a ilha pedalando em busca de um tesouro escondido — a fortuna seria utilizada para pagar as dívidas do pai de Demelza. Sendo assim, as garotas saem em uma jornada que se revela mais complicada do que parece.


Em Knights and Bikes acompanhamos as garotas em uma aventura de ação e exploração. Há claro foco no cooperativo, com cada jogador controlando uma das meninas no multiplayer local ou online, sendo o computador controla a outra personagem no modo para um único jogador. Pelo caminho, a dupla encontra inúmeros perigos, enigmas e puzzles — logo no início da história, elas liberam uma maldição que passa a assolar os habitantes e objetos da ilha.

Coordenação é essencial para conseguir avançar na aventura, pois cada uma das garotas possui habilidades diferentes. Demelza pisa em botões com a ajuda de suas galochas, destrói objetos com desentupidores explosivos e usa uma luva especial para controlar inimigos e atravessar locais com armadilhas no chão. Já Nessa lança frisbees para atacar monstros, usa balões cheios de água para apagar fogo e dissipa névoa maligna com a ajuda de seu aparelho de som. É perfeitamente possível aproveitar o jogo sozinho, pois o computador faz as ações necessárias nos momentos certos.


Muitos dos puzzles exigem que as garotas trabalhem em conjunto. Em um trecho, por exemplo, Demelza precisa ficar parada em cima de um painel para fazer uma alavanca surgir, e logo em seguida Nessa atira um frisbee no dispositivo para ativá-lo. Já em outra parte, Nessa apaga chamas com balões cheios de água para que Demelza possa usar sua luva espectral para atravessar grades. Os puzzles, em sua maioria, são bem simples e intuitivos. A principal recompensa dos desafios são badulaques, como figurinhas e minhocas, que podem ser utilizadas para comprar modificações visuais para as bicicletas das garotas — me pergunto que tipo de vendedor é esse que aceita essas tranqueiras como pagamento.


Uma amizade pautada em brincadeira e diversão

O que eu mais gostei em Knights and Bikes foi a sua ambientação divertida. De fato parece que estamos observando o mundo com o olhar de crianças: ao correr as meninas gritam sem motivo, de tempos em tempos as garotas inventam competições bobas (coisas como “quem chega primeiro ali naquela colina”), o "dinheiro" é composto de tralhas encontradas pelo caminho (figurinhas, insetos, broches, tampinhas de garrafas), é possível tocar a campainha das casas e fazer trotes, e muito mais. É muito legal também como as garotas inventam histórias malucas sobre as pessoas e lugares que elas encontram pelo caminho — a imaginação é representada por meio de rabiscos imaginários desenhados em cima das coisas.


A dupla de protagonistas é cativante e adorável. Demelza é uma menina radiante e criativa, sempre inventando histórias absurdas na sua mente e se divertindo com tudo, mesmo nos momentos mais sombrios. Já Nessa tem um ar meio “garota da cidade sabichona” com suas declarações (supostamente) inteligentes, mas que basta aparecer alguma situação mais diferente para mostrar sua verdadeira face de criança. As duas desenvolvem uma amizade genuína no decorrer da jornada e é muito legal ver como elas amadurecem aos poucos por meio de diálogos muito divertidos.

Já a história tem uma premissa bem simples, no entanto ela se desenvolve de maneiras interessantes. Em um primeiro momento parece uma simples brincadeira de criança, afinal há a sensação de que elas simplesmente estão imaginando tudo. Porém, aos poucos, o real e a brincadeira parecem se misturar e fica difícil saber o que é verdade ou não — há um toque de fantasia nesse aspecto, mas nunca explorado de forma explícita. Fiquei surpreso também com alguns temas explorados: Demelza perdeu recentemente a mãe e é muito interessante ver como ela lida com a dor e com o luto, mesmo sendo tão jovem; já Nessa parece ter fugido de casa por problemas com a família.


Beleza e problemas

Knights and Bikes é um daqueles jogos que conseguem nos transportar para outro lugar com sua ambientação. A trama se passa em uma ilha britânica nos anos 1980 e é meticulosamente montada por meio de visuais pintados à mão que lembram colagens elaboradas. Todos os cenários são muito bonitos e até mesmo lugares simples, como florestas e estradas, têm charme único. Os personagens são bastante caricatos e esbanjam personalidade, em especial as protagonistas — é muito legal ver a alegria das garotas ao andar de bicicleta pelas as várias localidades da ilha. A trilha sonora pontual reforça o tom de brincadeira com composições zombeteiras repletas de sons engraçados.

Como jogo em si, sua simplicidade pode incomodar: o combate é bem básico e de dificuldade baixa, já os puzzles são bem fáceis de resolver. Além disso, a ilha é vazia, com muitas áreas vastas com praticamente nada para fazer a não ser andar até o próximo objetivo — há alguns poucos segredos, no entanto eles não são muito interessantes. Para piorar, a movimentação das garotas é lenta, mesmo correndo ou andando de bicicleta, o que torna vagarosa a movimentação entre as áreas da ilha. Aqueles que desejam algo mais elaborado ou desafiador podem se decepcionar com Knights and Bikes, contudo eu fiquei com a sensação que é um ótimo jogo para aproveitar na companhia de uma criança ou alguém que não está acostumado com jogos elaborados.


Uma envolvente história de amizade

Knights and Bikes transforma a criatividade usual de crianças em uma aventura alegre e de ótima ambientação. É muito divertido controlar uma dupla de garotas em uma caça ao tesouro repleta de combates, puzzles e situações malucas que combinam a realidade com a imaginação, principalmente na companhia de um amigo. A trama e personagens são ótimos, e aborda vários assuntos interessantes, como amadurecimento e luto, de maneira leve. O visual é excepcional, com ilustrações que lembram um desenho animado, no entanto o jogo peca com a simplicidade: os desafios são muito básicos e o mundo tem poucas atividades disponíveis. No fim, Knights and Bikes é uma experiência simples e cativante capaz de nos levar de volta para a infância, perfeita para aproveitar sozinho ou com algum amigo.

Prós

  • A dupla de personagens principais é adorável, com relação que se desenvolve por meio de muitas cenas divertidas;
  • Ótima ambientação que mistura o real e a imaginação das crianças;
  • Mecânicas de jogo simples e bem executadas;
  • Belo visual com gráficos desenhados que lembram um desenho animado.

Contras

  • Mundo vazio e com poucas atividades opcionais;
  • Movimentação lenta deixa a navegação pelos cenários cansativa;
  • Baixo desafio.
Knights and Bikes — PC/PS4 — Nota: 8.0
Versão utilizada para análise: PC
Análise produzida com cópia digital cedida pela Double Fine Presents

é brasiliense e gosta de explorar games indie e títulos obscuros. Fã de Yoko Shimomura, Yuzo Koshiro e Masashi Hamauzu, é apreciador de boardgames, game music, fotografia e livros.

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