Remake, remaster ou reboot: qual a melhor opção para relançar jogos antigos? – Parte 1

Vamos discutir sobre estas práticas cada vez mais comuns no mundo dos games.


Além de jogos inéditos, sejam eles de novas franquias ou continuações de séries já conhecidas, o mercado dos games também conta com muitos relançamentos. Dentre as várias formas de produção, os nomes remake, remaster ou reboot são os mais conhecidos. Será que algum deles é melhor do que os outros? Quais são as características principais de cada um deles?


Vamos discutir sobre tudo sobre isso em uma matéria de duas partes, começando por algumas definições gerais e exemplos concretos. Depois, iremos analisar alguns dos melhores e piores relançamentos da indústria, de modo a podermos entender melhor cada uma das opções e suas possibilidades. Prepare-se para uma verdadeira viagem no mundo dos games, pois a matéria irá abordar títulos de várias gerações, franquias e consoles diferentes.

Antes de qualquer coisa, algumas definições

Na primeira parte da matéria vamos conferir algumas definições e conceitos gerais. Afinal, é importante frisar que existe alguma confusão entre os jogadores sobre quais as diferenças entre as três opções. Seja pela similaridade das palavras ou por terem origem estrangeira, elas acabam muitas vezes sendo tratadas de maneira equivocada. Na realidade, até mesmo empresas e sites utilizam os termos como sinônimos ou de forma errônea.
Ratchet & Clank (PS4) não é bem o que muitos acreditam que ele seja
Logo, é preciso definir claramente o que cada uma significa. Para isso, vamos nos ater aos significados das palavras; ou seja, o que cada termo define em seu conceito original e é usado de forma mais frequente. Desta maneira, evitamos possíveis interpretações erradas sobre o assunto. Para ilustrar cada uma delas, também vamos citar alguns jogos de exemplo. A ideia aqui não é entrar em uma discussão técnica, mas trazer as informações de forma suficientemente correta e compreensiva.

Remake: “recriar”

Vamos começar com o termo mais popular nos últimos tempos: remake. Ele significa “refazer”, ou seja, recriar algo que já existe a partir do zero. No mercado dos games, ele envolve reconstruir um título, normalmente antigo, utilizando uma produção de ponta e, eventualmente, adicionar elementos e mecânicas modernas para o pacote. 

Um remake proporciona liberdade para a produtora relançar um jogo, visto que ele pode tanto ser bastante semelhante ao original, quanto alterar vários pontos na sua proposta. Claro que a mudança não pode ser absoluta, pois senão o título pode cair na categoria de reboot (mais sobre ela em seguida). A questão geralmente envolve bom senso em manter o que é apreciado e melhorar o que ficou devendo, sem alterar a ideia básica do game.
Remakes são boas oportunidades de modernizar jogos antigos bons
Um exemplo fiel às suas raízes é SpongeBob SquarePants: Battle for Bikini Bottom – Rehydrated (Multi). Com exceção dos visuais modernos e algumas novidades bem pontuais, o game de 2020 é exatamente igual a sua versão de 2003. Crash Team Racing Nitro-Fueled (Multi) e Alex Kidd in Miracle World DX (Multi) são outros representantes do grupo dos remakes, embora com algumas novidades extras além das novas e caprichadas produções.

Representando o outro lado da balança, temos Final Fantasy VII Remake (PS4). Enquanto o original, ainda que com várias novidades para a época, era um RPG clássico, a versão de 2020 é focada na ação com combates intensos. Ou seja, bem diferente do que foi apresentado em 1997, pois agora temos um jogo dinâmico que exige habilidade e precisão nos movimentos, indo além da estratégia e do planejamento tradicionais por turnos.

Remaster: “regravar”

Passando para o próximo termo, temos o chamado remaster, ou remasterização. O termo original vem da área de produção acústica e significa, de forma simplificada, obter uma nova cópia (master) de um conteúdo já produzido, uma “regravação”. Neste processo, o material original recebe um tratamento para ser melhorado ao ser copiado, de forma que ele possa se tornar o “novo original”.

Logo, voltando para o mundo dos games, remasters são novas versões de um título já existente, mas sem necessariamente alterar o original. Ou seja, ele tem apenas pequenas modificações na estrutura do jogo em si, em sua grande maioria relacionadas a elementos como aumento de resolução, melhorias na jogabilidade, texturas e qualidade de áudio, e integração de DLCs.
Quando a produção já é muito boa, uma remasterização pode ser suficiente
Dada à proposta de, basicamente, atualizar um jogo já lançado, as remasterizações normalmente ocorrem em títulos mais modernos ou de grande sucesso. Afinal, caso os gráficos sejam muito defasados, por exemplo, seria preciso refazer o game para torná-lo compatível e competitivo com os lançamentos atuais. Obviamente, algumas exceções conseguem quebrar esse conceito por razões variadas, incluindo saudosismo ou redução de custos.

Dentre os vários exemplos de títulos mais recentes com remasterizações, podemos citar The Last of Us: Remastered (PS4) e Halo: The Master Chief Collection (PC/XBO). O primeiro recebeu melhorias pontuais na produção graças à proximidade do lançamento no PS3; já o segundo exigiu mais trabalho, pois ele reúne games de três gerações diferentes do Xbox. Apesar das melhorias, ambos são versões construídas diretamente sobre as originais, sendo, portanto, remasters.
Alguns remasters trazem mudanças, mas sempre de forma bem modesta
Mais alguns exemplos de remasterizações incluem Crysis Remastered (Multi), The Legend of Zelda: Wind Waker HD (WiiU) e Final Fantasy VII (Multi), sendo que o último recebeu novas versões após o lançamento em 1997. Vale lembrar que o primeiro e o terceiro são mais fiéis aos originais, enquanto o segundo trouxe algumas modificações pontuais. Todos receberam melhorias técnicas como aumento de resolução e texturas melhoradas, mas preservaram sua estrutura e apresentação originais.

Reboot: “reinício”

Finalmente, chegamos ao último termo: reboot. Neste caso, temos um conceito um pouco mais complexo: de certa forma, podemos dizer que é uma espécie de remake mais completo, sem precisar se prender necessariamente a ideias ou mecânicas dos títulos originais. A tradução mais literal seria “reinício”, o que remete a um novo começo para a produção em questão e não somente a recriação de um título.
Um reboot pode ditar um rumo inédito para franquias tradicionais
Termo bastante comum no cinema e nas séries, no mundo dos games esse recomeço é normalmente aplicado a jogos que perderam relevância ou se tornaram antiquados. Por exemplo, Resident Evil VII (Multi) recuperou a sua franquia, enquanto God of War (PS4) expandiu o universo de Kratos. Um reboot não necessariamente apaga tudo o que já existia; eventualmente, ele apenas muda a direção que a franquia seguia até então e estabelece novos elementos e caminhos.

Por isso Ratchet & Clank (PS4), de 2016, apesar de reconhecido como remake do original de 2002, é um reboot: ele manteve as raízes de ação e plataforma, assim como os personagens principais, mas teve mudanças significativas na narrativa e jogabilidade. Já Tomb Raider (Multi), de 2013, manteve poucas das premissas básicas, com várias alterações profundas na fórmula vista até então.
Por vezes, "rebootar" uma série é essencial para torná-la relevante novamente
O jogo foi ousado ao oferecer uma narrativa robusta, focada na origem de Lara Croft, com uma caracterização inédita para a personagem. Outro reboot que merece destaque é Prince of Persia: The Sands of Time (Multi), que chegou em 2003 para remodelar completamente a franquia e levá-la ao sucesso. São muitos os exemplos disponíveis, incluindo alguns que foram “cancelados”, como DmC: Devil May Cry (Multi), que foi posteriormente ignorado com a chegada de Devil May Cry 5 (Multi).

Uma escolha difícil?

Em teoria, as definições dessas palavras e as ideias que elas representam são relativamente claras. Na prática, alguns games são lançados ou anunciados sem deixarem claras quais são as suas propostas. Mais do que uma questão semântica, chamar um remaster de um remake pode ser enganoso aos jogadores mais desavisados ou que não conheçam a obra original. Ainda pior: a escolha por fazer um remake, remaster ou reboot pode comprometer ou favorecer um futuro lançamento.

Afinal, a nostalgia pode prejudicar julgamentos iniciais de um anúncio, uma abordagem errada pode levar um lançamento ao fracasso, enquanto uma correta ao sucesso. Deixemos essa discussão para a segunda parte do texto, pois o tema é vasto, polêmico e depende bastante do gosto pessoal para cada game e das opções disponíveis para seu relançamento. Há, inclusive, uma quarta opção para relançar um jogo mais antigo: ports.

Original do inglês, esse termo é usado na área de informática quando um software é transferido de uma máquina para outra. A ideia no mundo dos games é a mesma, pois um título “portado” é adaptado diretamente do console original para outro, com mudanças bem pontuais (ou mesmo nenhuma). Eles eventualmente podem ser confundidos com remasters, embora aqui não exista grande foco em melhorias.
Alguns clássicos dispensam a necessidade de mudanças ou atualizações
Resident Evil 4 Wii Edition e Mario Kart 8 Deluxe (Switch) são bons exemplos de ports, pois basicamente adicionaram conteúdos DLC aos jogos originais e foram relançados em novos consoles. Nesse contexto, o recurso chamado retrocompatibilidade elimina a necessidade de qualquer retrabalho. Ao utilizar recursos de emulação, incluindo softwares e hardwares específicos, é possível executar jogos antigos diretamente nos dispositivos modernos.

Felizmente, basta uma pesquisa mais atenta a sites especializados para descobrir a ideia por trás do retorno daquele título e avaliar se aquele relançamento vale a pena ou se é melhor ficar com o original. Logo, dadas essas considerações iniciais, finalmente chegamos ao cerne deste texto: qual das propostas é a melhor para trazer um jogo novamente ao mercado? A discussão começará na segunda parte da matéria, então até lá e até breve!
E você, leitor? Gostou da primeira parte da matéria? Faltou algum exemplo durante essas definições iniciais? Ou elas deveriam ser diferentes? Deixe a sua opinião.
Revisão: Heloísa D'Assumpção Ballaminut

é produtor de conteúdo sobre games desde julho de 2016 e um grande fã da décima arte, embora não tenha muito tempo disponível para ela. Seus games favoritos (que formam uma longa lista) incluem: KH, Borderlands, Guitar Hero, Zelda, Crash, FIFA, CoD, Pokémon, MvC, Yu-Gi-Oh, Resident Evil, Bayonetta, Persona, Burnout e Ratchet & Clank. @MatheusSO02


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