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Análise: Void Tyrant (PC) mistura sorte e cartas em um roguelike singular

Um sistema de combate inusitado é o maior destaque deste título indie.


Em Void Tyrant, um ser maligno ameaça a paz da galáxia e heróis precisam impedi-lo. Essa premissa é explorada em um RPG com sistema de combate único que mescla elementos de Blackjack e construção de baralhos, resultando em embates estratégicos com pitadas de sorte. Uma estrutura roguelite e boa quantidade de conteúdo desbloqueável nos incentivam a continuar jogando, mas alguns problemas de balanceamento e variedade limitada de situações atrapalham a experiência.

Arriscando a sorte em uma jornada pela galáxia

Para deter a ameaça sombria em Void Tyrant, os heróis precisam explorar diferentes planetas em busca de chaves especiais que os permitirão entrar na pirâmide do vilão. Naturalmente, a tarefa não será fácil: inúmeros capangas e monstros farão de tudo para impedir os guerreiros.

Na maior parte do tempo, enfrentamos inimigos em um sistema de combate inusitado que lembra Blackjack. Em cada turno, o jogador e o oponente, alternadamente, tiram cartas numeradas de um baralho. Os valores preenchem uma barra e, para atacar, é necessário terminar o turno com um número maior que o do oponente. No entanto, há um detalhe importante: o medidor tem um limite, e caso ele seja ultrapassado o participante automaticamente perde aquela rodada. Já terminar o turno com o valor exatamente no máximo faz com que o personagem execute um ataque crítico.


Sendo assim, a cada rodada precisamos avaliar constantemente o que deve ser feito. Às vezes vale a pena arriscar para conseguir um valor maior e desferir mais ataques; já em outros momentos o ideal é fazer uma jogada segura e defender os golpes do oponente. Há sorte envolvida, já que os números das cartas são aleatórios, porém existem elementos que nos permitem agir com estratégia, como uma área da barra do inimigo que automaticamente conclui a vez dele.

Fora isso, podemos também utilizar cartas ao custo de energia. Os efeitos são diversos, como incluir ataques especiais nos combos, aumentar força ou defesa, infligir estados negativos nos inimigos e até mesmo aumentar ou diminuir a barra de ação. Conforme avançamos nos planetas, o herói sobe de nível e adquire habilidades passivas. Pelo caminho também encontramos cartas e equipamentos que aumentam as opções estratégicas.


Void Tyrant é um roguelite — ou seja, perdemos todo o progresso ao morrer e precisamos recomeçar do início com um novo personagem. No entanto, com o dinheiro obtido nas partidas, podemos desbloquear recursos que aumentam as chances de vitória das partidas futuras, como reviver o herói uma única vez ou começar a jornada com equipamentos melhores. Missões opcionais e outras classes de personagens nos incentivam a continuar jogando.

Uma aventura mais estratégica do que parece

Void Tyrant me conquistou com seu combate singular repleto de risco e recompensa. No começo eu achei tudo simples demais e achava os aspectos de sorte injustos, afinal os números são aleatórios. Contudo, aos poucos eu entendi as nuances e aprendi quando arriscar ou não, e logo o jogo ficou interessante — o importante é usar a aleatoriedade e a visão de futuro como recursos de decisão.

Me surpreendi com as camadas estratégicas do jogo, principalmente ao utilizar as cartas. Por meio delas, é possível montar jogadas devastadoras, sendo empolgante enfileirar vários ataques poderosos e em seguida usar alguma habilidade para colocar a barra de ação no máximo, o que garante um golpe crítico. Com um pouco de destreza, é possível montar um baralho com várias sinergias interessantes.


As classes de heróis também mudam sensivelmente o andamento das partidas. O guerreiro tem boa força física, logo o ideal é criar grandes sequências de ataques; já o mago desfere feitiços poderosos, porém o custo de suas técnicas é alto, exigindo um uso balanceado de energia. Cada classe conta também com uma raça alternativa com atributos diferentes. Essas opções, em conjunto com as cartas, tornam divertido testar as possibilidades.

Void Tyrant tem um visual colorido bem agradável, por mais que a temática não saia muito do lugar comum de um planeta parecido com a Terra, uma nave abandonada, um mundo repleto de gelo e um lugar com um grande deserto. A trilha sonora conta com pouquíssimas faixas que se repetem constantemente a ponto de ficar irritante — chegou um momento que eu simplesmente coloquei o áudio no mudo.



O revés do azar e do acaso

As mecânicas inspiradas em Blackjack trazem imprevisibilidade aos combates, tornando-os empolgantes. No entanto, o aspecto sorte é também o maior defeito do jogo por causa do desbalanceamento. Foram inúmeras as vezes em que fui destruído por um oponente que executou ataques críticos em sequência em conjunto com várias habilidades debilitantes. Isso acontece especialmente nos chefes, mas até mesmo batalhas comuns podem ser fatais.


A dificuldade brutal não seria um problema se fossem oferecidas ferramentas para contornar esses momentos, mas não é o que acontece. Às vezes é simplesmente impossível evitar a derrota por causa de uma mão de cartas sem habilidades boas ou uma sequência de números ruins. Para piorar, só é possível defender em situações específicas, o que deixa as coisas ainda mais complicadas. É muito frustrante ser derrotado pela sorte e não pela inabilidade tática.

Por fim, outra questão negativa de Void Tyrant que aparece com o tempo é a pequena diversidade de conteúdo. As partidas são extremamente parecidas entre si, e mesmo com alguns eventos aleatórios pelo caminho, parece que estamos lutando sempre contra os mesmos inimigos. Não só isso: a quantidade de cartas e habilidades é reduzida, o que limita as opções estratégicas ao longo prazo. Por causa disso, o jogo se torna repetitivo após algumas partidas.



Uma aposta divertida, mas longe de perfeita

Void Tyrant empolga com seu combate único que combina estratégia e sorte. Tirar números aleatórios de um baralho para poder atacar parece imprevisível, mas observação, cartas e outros recursos oferecem opções táticas. Além disso, há uma boa quantidade de conteúdo para desbloquear, além de diferentes tipos de heróis.

No entanto, aspectos desbalanceados, em conjunto com elementos de acaso, trazem situações frustrantes — é desagradável ser derrotado por não ter como reagir aos ataques críticos dos inimigos. No mais, Void Tyrant é uma experiência roguelite agradável e criativa, a despeito de suas falhas.

Prós

  • Mecânica principal única que mistura aspectos de sorte, cartas e roguelike;
  • As diferentes classes e equipamentos oferecem muitas opções estratégicas;
  • Boa quantidade de conteúdo para explorar.

Contras

  • Elementos desbalanceados, em conjunto com alguns aspectos da sorte, criam momentos frustrantes;
  • Partidas parecidas demais entre si trazem sensação de repetição;
  • Música repetitiva.
Void Tyrant — PC — Nota: 7.5
Revisão: Davi Sousa
Análise produzida com cópia digital cedida pela Armor Games Studios

é brasiliense e gosta de explorar games indie e títulos obscuros. Fã de Yoko Shimomura, Yuzo Koshiro e Masashi Hamauzu, é apreciador de roguelikes, game music, fotografia e livros. Pode ser encontrado no seu blog pessoal e nas redes sociais por meio do nick FaruSantos.


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