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Análise: A Tale of Paper (PS4) redige uma doce história com rasuras na estrutura jogável

Siga a bela e triste história de Line em uma aventura atmosférica com quebra-cabeças.

Desenvolvido e publicado pela Open House Games para PlayStation 4, A Tale of Paper é uma aventura emocional de uma figura de papel que usa origamis para realizar o sonho de seu criador. O título foi o vencedor da sétima edição do PlayStation Talents Awards promovido pela Sony Interactive Entertainment da Espanha em 2018 e apresenta uma proposta de plataforma em 2.5D interessante e muito emblemática.

Uma rara e pequena doce história

Em A Tale of Paper acompanhamos Line, um menino de papel que ganha vida por meio de uma luz mágica inesperada e que acorda em uma casa desconhecida e bagunçada. Tudo que a triste e inexpressiva figura sabe até então é que ela deve percorrer um árduo caminho para realizar o sonho de seu criador, que durante a campanha vai sendo retratado de maneira abstrata, pois não apresenta nenhum tipo de diálogo e apenas se completa nos créditos finais. Ainda assim, você só entenderá a essência da narrativa quando encontrar alguns origamis escondidos pelas áreas que, por sua vez, desbloqueiam uma espécie de prelúdio com imagens explicativas.

Durante esta aventura de autoconhecimento, Line é capaz de comover o jogador com empatia e esperança, e mesmo que sua luz não seja suficiente para se expandir dentro da escuridão que habita aquele mundo, o garoto transborda delicadeza para aquecer nossos corações. Infelizmente, a experiência acaba não oferecendo muitos outros significados e isso a deixa à mercê da superficialidade narrativa; no geral, ela é curta o bastante para emocionar e contar uma bela história, mas ainda assim poderia fazer e esclarecer mais.

Combinada à sua narrativa, A Tale of Paper apresenta uma atmosfera minimalista em 2.5D impecável com um estilo de arte sombrio, muito inspirado em jogos como Little Nightmares (Multi) e Limbo (Multi). É uma linda pintura que ganha vida por meio de cores neutras e iluminação radiante, pois quando Line passa por locais mais escuros, cogumelos brilhantes são acesos, tornando o visual muito atraente e contemplativo. Embora algumas áreas estejam escuras demais, quase impossibilitando a visão do jogador, tanto o visual quanto a música ambiente do título são extraordinários e perfeitos. É uma típica atmosfera criada para extrair as mais complexas emoções.


Utilizando origamis em uma estrutura jogável imperfeita

Enquanto ajuda Line, você deverá passar por diferentes ambientes, desde esgotos até telhados de residências, a fim de chegar ao seu destino. Para isso, o personagem pode pular e correr, mas também é capaz de se transformar em formas variadas de origamis, que fornecem habilidades distintas para atravessar os cenários. Você pode ser um sapo para pular mais alto, uma bola de papel amassada para passar por tubos, planar como avião de papel e muito mais.

As mecânicas de origamis são interessantes e divertidas de se usar, e às vezes é necessário alternar entre uma e outra para superar os desafios. Elas vão sendo desbloqueadas ao longo da campanha por meio de páginas de livros que você encontra e, à medida que avança pelas plataformas e pelos quebra-cabeças, novas tarefas vão surgindo, como acionar alavancas, pressionar botões e administrar seu tempo. Inimigos como aspiradores de pó inteligentes e aranhas famintas também tentarão impedir seu progresso, por isso é preciso usar os origamis para superá-los.

Na teoria, A Tale of Paper parece preservar uma jogabilidade sólida e satisfatória para jogos de plataforma, em que o analógico do DualShock 4 é utilizado para movimentar Line e os botões esquerdos para alternar entre as mecânicas de origamis. No entanto, na prática o que vemos é um controle travado e imprevisível o bastante para frustrar.

Logo no início da aventura, tive que atravessar vários andares de uma casa por escadas quebradas; alguns degraus estavam mais próximos, outros mais afastados. Nos mais próximos era possível saltar com a forma normal de Line; já nos mais afastados era necessário a forma de origami de sapo.

No entanto, quando você utiliza esta habilidade, pode saltar, mas não consegue se movimentar; por isso, é preciso ir até a borda da primeira plataforma normalmente para só então se transformar e saltar. O problema é que quando você tenta movimentar o personagem vagarosamente até a borda, ele parece ficar preso ao chão e não sair do lugar. Muitos desses travamentos desnecessários aconteceram durante minha jornada e alguns deles custaram a vida de Line, principalmente quando um aspirados picotava o rapaz.

Outra situação semelhante é quando você precisa passar por plataformas estreitas, onde os saltos devem ser precisos o suficiente para não cair. No meio da campanha, tive que pular em uma viga de canos de metal com o origami de sapo, e dois problemas aconteceram: a viga era muito estreita e a câmera ficava posicionada atrás de outra plataforma em um local obsoleto, atrapalhando a visão. Eu simplesmente não tinha noção do posicionamento do personagem e de como pular de maneira correta para alcançar a viga, e quando estava nela, precisava andar rapidamente para que o personagem não travasse do nada.

Mecanicamente falando, a física de A Tale of Paper é extremamente problemática e quase impede o jogador de progredir em alguns cenários. Ela foi desenhada para ser fácil, mas a jogabilidade muitas vezes atrasa a progressão, tornando a experiência bem fragmentada.

Apesar dos impasses, o jogo da Open House Games ainda é charmoso e conta com algumas características interessantes como as ótimas mecânicas de origamis e a doce história. Além disso, o título também apresenta breves quebra-cabeças para resolver, mas que no final das contas são fáceis demais e não apresentam nenhum desafio real. Existe um puzzle de montar desenhos de acordo com uma imagem superior maior, mas ela é muito previsível: você aperta um botão para virar uma parte do desenho como precisa e logo depois aciona uma alavanca para concluir.

Razoavelmente magnífico

A Tale of Paper explora as profundezas e significados da vida humana de maneira sutil através de uma história doce e cheia de amor com um personagem empático e apaixonante que se vê na forma de origamis para apresentar uma mecânica criativa e original. A atmosfera e a trilha sonora minimalista expandem a narrativa para um paraíso visual deslumbrante, e embora seja breve e superficial, esta viagem de papel ainda é satisfatória. Infelizmente as rasuras expostas em sua estrutura jogável são quase incorrigíveis e colocam o título em uma situação adversa. É uma jornada simples, sem muitos desafios e com uma física problemática, mas que tem o poder de levar luz em meio à escuridão.

Prós

  • História abstrata e doce;
  • Excelente atmosfera minimalista;
  • Trilha sonora formidável;
  • Mecânicas de origami interessantes.

Contras

  • A física do jogo é problemática;
  • Puzzles pouco desafiadores;
  • Curta duração.
A Tale of Paper - PS4 - Nota: 6.0
Revisão: Davi Sousa
Análise produzida com cópia digital cedida pela Open House Games

é apreciador de games com conceito artístico minimalista e narrativas de significado profundo. No GameBlast escreve notícias, análises, crônicas e especiais; no tempo livre produz roteiros autorais de séries e filmes.


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