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Análise: Overland (Multi) — tensão, estratégia e frustração durante o apocalipse

Tente sobreviver em um mundo tomado por monstros neste jogo que é um pouco brutal demais.


Um mundo devastado tomado por criaturas bizarras é o cenário de Overland. Neste título indie, acompanhamos um grupo de sobreviventes que tenta encontrar um local seguro em meio ao caos em uma mistura de puzzle, estratégia e sobrevivência. Há algumas ideias e mecânicas interessantes, porém sistemas obtusos, andamento imprevisível e dificuldade muito acentuada atrapalham a experiência.

Uma difícil viagem por um país destruído

Os Estados Unidos (e possivelmente todo o mundo) foi devastado por estranhos monstros que caçam os humanos e se orientam pelo som. Em Overland, guiamos algumas poucas pessoas a fim de tentar sobreviver. De posse de um carro, o grupo parte da Costa Leste e tem como objetivo chegar à Costa Oeste do país, onde supostamente há um lugar seguro.

A jornada é dividida em estágios, que lembram pequenas miniaturas. Neles, o objetivo é procurar recursos, como combustível para o carro, armas rudimentares e kits de primeiros socorros, enquanto evitamos os monstros. O cenário é dividido em uma grade de espaços e o andamento é por turnos: cada personagem pode executar uma quantidade limitada de movimentos por vez. As criaturas são atraídas pelo som, logo precisamos pensar com cuidado as consequências de cada ação — vasculhar uma caçamba de lixo, por exemplo, faz muito barulho e pode ser perigoso. É possível atacar e matar os bichos, mas é uma solução paliativa, pois novos monstros aparecem constantemente. Sendo assim, o ideal mesmo é vasculhar rapidamente os cenários e seguir em frente.


Gerenciar recursos é crucial para a sobrevivência no mundo de Overland e muitas limitações deixam a tarefa mais complicada. Cada personagem pode carregar um único item (ou dois caso ele tenha uma mochila), já os veículos têm espaço variável (os menores comportam um único objeto, enquanto caminhonetes e carros maiores conseguem guardar mais recursos). Por causa disso, precisamos avaliar constantemente o que levar conosco, afinal é simplesmente impossível carregar tudo o que encontramos.

Entre as fases podemos escolher o próximo destino em um mapa. Cada ponto dá uma dica do tipo de evento que provavelmente encontraremos no lugar: novos sobreviventes, combustível, recursos, pontos de troca e mais. O detalhe é que cada localidade exige um custo diferente de gasolina para ser alcançada, o que traz um aspecto estratégico na escolha do próximo destino — ficar sem combustível significa seguir a pé, o que é praticamente garantia de morte.


Overland apresenta características de roguelike para oferecer partidas distintas. A cada nova tentativa, encontramos personagens, eventos e mapas aleatórios. Além disso, quando o grupo é aniquilado, todos os itens são perdidos e precisamos recomeçar a jornada com um novo conjunto de sobreviventes. A única progressão entre as partidas é a possibilidade de iniciar uma nova aventura a partir de uma área mais avançada do mapa, mas para isso é necessário alcançá-la primeiro.

Apreensão e estratégia em uma jornada pela sobrevivência

Sobreviver em um mundo pós-apocalíptico tomado por monstros grotescos não deve ser fácil e Overland consegue representar isso com uma constante sensação de tensão. As mecânicas básicas são simples de entender, no entanto a real dificuldade está em conseguir sair ileso das situações complexas e gerenciar poucos recursos de maneira eficiente.

Cada fase funciona como um pequeno puzzle, sendo possível completá-las por meio de várias abordagens distintas. Em uma área, por exemplo, mandei um cachorro do meu grupo para uma parte mais afastada do cenário para atrair os monstros enquanto o restante da equipe vasculhava containers em busca de itens. Já em outra situação, estava cercado por criaturas no escuro, logo preferi usar o carro para atropelar os monstros menores para poder fugir. Às vezes é mais prudente não arriscar muito e simplesmente seguir em frente.


Com o avançar da aventura, novos perigos aparecem, como diferentes tipos de monstros, obstáculos e até mesmo humanos interessados em roubar meu carro, o que me fez repensar constantemente as estratégias. A jornada é repleta de decisões difíceis e foram várias as vezes em que precisei fazer sacrifícios para conseguir seguir em frente — itens valiosos ou até mesmo pessoas tiveram que ficar para trás como distração para os monstros.

Confesso que em um primeiro momento eu estava achando o jogo bem fácil, pois consegui passar das fases com tranquilidade e com o tanque de combustível do carro sempre cheio. Por causa disso, comecei a ser ousado e decidi explorar locais mais distantes... foi uma péssima ideia. Os destinos não tinham os recursos que eu esperava e chegou um momento que eu fiquei sem gasolina, logo fui forçado a explorar um lugar perigoso para tentar achar combustível. Meu grupo foi cercado por inúmeras criaturas, elas destruíram meu carro e tentei fugir à pé — um a um meus sobreviventes foram mortos. Foi nesse momento que eu entendi a real dificuldade de Overland.


Um visual minimalista com modelos geométricos traz um ar exótico à aventura, principalmente com seus cenários que lembram pequenas maquetes. As fases são elaboradas e têm estruturas que reforçam o caos: postos de gasolina abandonados, viadutos destruídos, campos repletos de arbustos e lixo, e mais. Curiosamente, elementos bizarros, como sucatas e objetos flutuantes corrompidos por cristais, vão aparecendo pelas localidades, tornando a jornada ainda mais inquietante. Gostei especialmente do modo fotografia, pois ele permite ver de perto os detalhes e tirar fotos da ação de ângulos dramáticos.

Muitos percalços pelo caminho

O conceito principal de Overland funciona bem, mas com o passar do tempo os vários pequenos problemas do jogo ficam aparentes. A soma de defeitos faz com que a experiência se torne desagradável e até mesmo frustrante.


O primeiro ponto que incomoda é a ausência de informações: Overland explica somente o básico de seus sistemas e o resto você precisa descobrir sozinho. Não há nada de ruim nessa abordagem, no entanto mecânicas cruciais não ficam claras, como itens que podem ser equipados nos personagens e o real custo de fôlego das ações. Para piorar, a interface é simples e confusa, o que dificulta executar algumas ações com facilidade, como o gerenciamento de itens entre os personagens. Por fim, o visual tem problemas: não há indicação clara de objetos e pontos de interesse dos cenários. Por causa disso, perdi muitos turnos por tentar vasculhar locais que não eram interativos e precisei muitas vezes usar o modo de fotografia para aproximar a câmera para ver se tinha um item no chão.

A ausência de informações cria constantemente situações de tentativa e erro. O problema é que os deslizes em Overland podem ser fatais, significando perder horas de progresso. Um exemplo claro são os inimigos: como não é fácil prever o que eles vão fazer, muitas vezes precisamos arriscar personagens valiosos para entender seus comportamentos. Isso é especialmente problemático quando aparecem novos tipos de monstros no decorrer da aventura. Claro, após algumas partidas, derrotas, e muitas horas de jogo você consegue entender como eles agem, mas mesmo assim às vezes eles fazem ações imprevisíveis. É possível perfeitamente dar informações e ser desafiador ao mesmo tempo, como bem provou Into The Breach, mas, infelizmente, o jogo se torna frustrante ao ir pelo caminho contrário.


Para piorar, Overland tem picos de dificuldade estranhos. Em um momento você passa por um estágio simples e muito tranquilo, aí logo em seguida aparece uma situação extremamente complicada e praticamente impossível de ser vencida com seu time e recursos atuais. O menor dos erros também pode ser devastador e resultar em derrota, às vezes por causa de algum movimento estranho dos inimigos. Há uma opção para recomeçar um estágio desde o início, no entanto não acho que ela é suficiente para diminuir a frustração — às vezes a situação é de fato impossível.

Por fim, mesmo sendo um roguelike, Overland não oferece muita variedade de eventos. Nas minhas inúmeras partidas eu vi fases bastante parecidas e com desafios de solução similar. Aos poucos exploramos outras regiões e novos inimigos vão sendo introduzidos, contudo a sensação de mais do mesmo não desaparece. Até existem vários elementos aleatórios para tentar trazer diversidade, como habilidades únicas para os personagens, mas não são capazes de resolver a questão.


Uma jornada interessante, mas com falhas

Overland é uma competente aventura de estratégia e sobrevivência em um mundo pós-apocalíptico. As mecânicas básicas são descomplicadas, no entanto inúmeras nuances e situações complexas conseguem transmitir uma atmosfera de urgência e tensão. Além disso, o jogo conta com ótimo visual minimalista repleto de objetos geométricos e cenários elaborados. Infelizmente vários problemas, como ausência de informações básicas, pequena diversidade de situações, dificuldade imprevisível e escolhas visuais ruins podem tornar a jornada repetitiva e frustrante. No fim, Overland tem potencial, mas no seu atual estado vai agradar mais um público mais dedicado, espero que atualizações no futuro ofereçam opções para amenizar seus problemas.

Prós

  • Mecânicas simples e funcionais focadas em sobrevivência;
  • Boa atmosfera que oferece constante sensação de tensão;
  • Visual minimalista interessante que lembra maquetes.

Contras

  • Interface simples demais e com poucas informações dificulta a tomada de decisões;
  • Ausência de informações gera situações de tentativa e erro;
  • Pouca variedade de situações;
  • Dificuldade desbalanceada.
Overland — PC/PS4/XBO/Switch/iOS — Nota: 6.5
Versão utilizada para análise: PC
Análise produzida com cópia digital cedida pela Finji

é brasiliense e gosta de explorar games indie e títulos obscuros. Fã de Yoko Shimomura, Yuzo Koshiro e Masashi Hamauzu, é apreciador de boardgames, game music, fotografia e livros. Pode ser encontrado nas redes sociais por meio do nick FaruSantos.

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