Meus jogos favoritos de 2022 — Vítor M. Costa

Os redatores do GameBlast falam sobre os títulos que mais curtiram entre os lançamentos deste ano.


Este foi um ano de muitas promessas para o ano seguinte (2023), mas também um período de grandes lançamentos, como Elden Ring, talvez o jogo mais impactante da indústria de videogames desde The Legend of Zelda: Breath of the Wild. Além disso, vimos uma porção de propostas alternativas que elevaram a mídia dos videogames a outro patamar, sobretudo em termos de design narrativo, no que podemos lembrar de lançamentos como Immortality.


Para mim, foi um prazer acompanhar este ano incrível tanto como crítico quanto como jogador, e hoje trago uma lista com meus jogos favoritos considerando justamente a dupla posição em que me encontro (crítico e jogador). Caso queira mais detalhes sobre eles, minhas respectivas críticas estão em hyperlink nos respectivos tópicos. A listagem segue a ordem cronológica de publicação de minhas análises.

Para poder ter um pouquinho mais de espaço para justificar a seleção, optei por destacar apenas oito títulos entre os mais de 50 que joguei este ano. A escolha obedece a três critérios: ter sido lançado este ano (ou ser um jogo contínuo com grandes atualizações vigentes); ter uma qualidade excepcional em minha análise (com nota 9+/10); ter um valor pessoal extra para mim por alguma razão.

NORCO

O ano começou muito bem para mim com um dos jogos mais bem escritos que eu já conheci. O jogo de estreia do estúdio Geography of Robots foi uma grata surpresa para alguém como eu, que tem Disco Elysium entre seus jogos favoritos da vida. NORCO, assim como Citizen Sleeper e Roadwarden, mostrou-me que o indie de 2019 fez escola nos gêneros de RPG e de adventure com sua proposta de design simplificado de mecânicas com grande foco em um storytelling de baixo orçamento, mas artisticamente bem inspirado, imersivo e profundo.

Além do quão bom esse jogo é naquilo que se propõe, o título também se mostrou extremamente adequado para o período em que vivemos, tocando em questões do capitalismo tardio e em tópicos socioambientais relacionados à indústria petroquímica, ambos de grave relevância para este século e muito debatidos durante 2022. Sua abordagem passa também por uma ambientação de realismo fantástico com uma bela e sombria pixel art que se tornou uma das minhas referências no estilo a partir de então.

The Stanley Parable: Ultra Deluxe

Algo que eu não esperava era poder analisar um dos jogos mais interessantes que já joguei. Quando foi lançado pela primeira vez, The Stanley Parable foi uma das primeiras obras que me mostraram o potencial da indústria indie, e desde então acredito que seja a ponta de lança do que há de mais promissor em videogames. Mas, para minha surpresa, ele ainda tinha mais a me dizer. Esta versão expandida desenvolvida pela Crows Crows Crows mostra o potencial do design narrativo nos videogames em muitos aspectos, como em gameplay emergente, não linearidade, metanarrativa, metalinguagem e mais.

Acima de tudo, a expansão Ultra Deluxe me desafiou como nenhum outro game em meus parâmetros de análise de storytelling. Afinal, um dos tópicos do jogo envolve o questionamento sobre a crítica de jogos e sobre o que é um “bom jogo”. Como crítico de videogames, considero este o jogo mais importante para minha formação, ao lado do clássico ICO, de Fumito Ueda, sem o qual eu não estaria hoje escrevendo este texto.

Citizen Sleeper

Eu não esperava que sairia um jogo tão bem escrito quanto NORCO tão cedo, mas estava enganado. O novo jogo da Jump Over the Age era um pouco menos ambicioso visualmente, mas tinha um texto ainda mais interessante em abordagem social, e sua conexão entre gameplay e design narrativo é ao mesmo tempo minimalista e coerente. Como o jogo anterior do mesmo autor, In Other Waters, também Citizen Sleeper foi publicado por Fellow Traveller. Desde então estou de olho nos outros projetos dessa distribuidora de jogos focados em experiências narrativas.

Citizen Sleeper também se destacou pela profundidade de soft science fiction. Eu adoro livros de ficção científica com tópicos sociais, como os livros de Isaac Asimov. Além disso, enquanto filósofo, eu fiquei muito contente de o jogo ter tido bastante perspicácia com conceitos da filosofia do pós-humanismo. Graças a esse game também descobri Heterotopias, uma revista sobre arquitetura e videogames do criador de Citizen Sleeper, Gareth Damian Martin. Comprei todos os seus volumes, exceto o último, e já se tornou uma das iniciativas mais interessantes que conheço para estudar videogames.

Nier: Automata - The End of YoRHa Edition

A cada ano que passa, o Nintendo Switch tem me impressionado com o que ele é capaz de fazer, e NieR: Automata foi capaz de mais uma vez ampliar meus horizontes sobre a capacidade desse híbrido de suportar jogos em grande escala com uma qualidade visual que não deixa a desejar em relação ao PS4. Além disso, não se trata apenas de um jogo bonito, mas um de meus jogos favoritos da vida, especialmente pela forma criativa e profunda como aborda existencialismo e humanismo enquanto brinca com as convenções dos videogames.

Outra razão para este jogo estar aqui nesta lista são seus desenvolvedores. Este título me permitiu fazer uma entrevista com YOKO TARO, Yosuke Saito e Keiichi Okabe. Sou um grande admirador do trabalho desses desenvolvedores, e atualmente considero YOKO-san o maior auteur de videogames na indústria tradicional. Essa foi a maior honra que eu tive em minha recente empreitada de crítico e ensaísta de games. No mais, foi um grande prazer revisitar NieR: Automata. Definitivamente não faltam razões para ele estar nesta lista e também entre meus jogos favoritos da vida.

Tactics Ogre: Reborn

E falando em jogos favoritos da vida, não poderia faltar um jogo que é um forte candidato a ser meu top 1 da vida. Em Tactics Ogre, ao meu ver, sua proposta beira a perfeição naquilo que se propôs nas condições em que foi originalmente feito, e esta versão Reborn mostra não só quão bem o título envelheceu, mas também o esforço de Yasumi Matsuno (meu diretor favorito em videogames) de lapidar ainda mais esta joia nos tópicos de balanceamento, qualidade de vida e imersão de voice acting que faltavam.

Tactics Ogre: Reborn foi o primeiro jogo para o qual dei nota máxima! Se você é fã de RPG tático, definitivamente precisa dar uma chance a este título, que é provavelmente o melhor jogo já feito nesse gênero, em termos de desafio, complexidade, balanceamento e profundidade. Para completar, este jogo possui ilustrações lindíssimas, algumas das melhores músicas que conheço em ritmo de marcha e é muito bem escrito enquanto trama política, com uma fantasia comedida e inspirações em guerras reais que o fazem crível e sombrio.

Immortality

Além de amante de livros, também tenho me aproximado mais do cinema, e principalmente de filmes de arthouse ou “cinema de arte”, como alguns chamam. Immortality me impressionou nesse sentido, enquanto filme e enquanto jogo, estando na fronteira entre os dois. O novo título dirigido por Sam Barlow definitivamente elevou a categoria de “filme interativo” a outro patamar. Além disso, minha análise para este jogo é uma das mais diferentes, justamente por sua peculiaridade cinematográfica.

Immortality usa do potencial metanarrativo em videogames como poucos (sendo um desses poucos comparáveis o já mencionado The Stanley Parable). A trama explora questões sobre a natureza da arte na relação entre obra, criador e espectador/jogador. Se você gosta de cinema ou de experimentalismo narrativo, esta é uma indicação obrigatória.

Pentiment

Outra indicação obrigatória para amantes de storytelling é Pentiment, que se tornou minha referência de um bom jogo de ficção histórica. Além de filósofo, também tenho formação como historiador, e sempre estive descontente com ficções históricas em games. Raros são os que fazem um trabalho razoável nesse assunto, e geralmente são de estratégia — talvez uma das razões para eu gostar desse gênero desde sempre.

O novo jogo da Obsidian, sob a direção de Josh Sawyer, fez um trabalho incrível de curadoria do século XVI e ampliou minhas expectativas para o futuro da ficção histórica em videogames. Sobretudo, gostei de como justifica como nenhum outro jogo a experiência de leitura, dando uma enorme profundidade a essa mecânica tão simples, e abordando vários assuntos em uma trama que condensa um dos períodos de transição mais ricos da história humana, com tantas transformações políticas, sociais e culturais que levam da Idade Média ao que se convencionou chamar de Período Moderno.

Final Fantasy XIV: Endwalker

Por fim, termino esta lista com um jogo que me acompanhou em todos os meses de 2022, do primeiro ao último, considerando que pretendo publicar minha análise dele na última semana deste ano. Apesar de a expansão Endwalker ter saído no final de 2021, ela foi ampliada consideravelmente com atualizações no decorrer de 2022. Comecei desde o level 1 nessa longa jornada e estou quase pronto para dar meu veredito; devido às suas premiações, à aclamação de outros críticos e por estar nesta lista, você já pode ter certeza de que é algo que merece sua atenção.

Pessoalmente falando, também este título me tocou por reacender minha paixão por uma de minhas franquias favoritas da vida, a série Final Fantasy. Se você também é fã dessa série, definitivamente precisa jogar FFXIV. Sem sombra de dúvidas, é um de seus melhores títulos, e brilha sobretudo em direção de arte, batalhas contra chefes e em uma das melhores narrativas de Final Fantasy. Yoshi-P e seu time me fizeram ficar de olho também no ano que vem, não só para atualizações deste MMORPG, mas também por Final Fantasy XVI, que está sob seus cuidados.



Menções honrosas e expectativas para 2023

Devido aos critérios restritivos de minha lista, alguns jogos dos quais gostei muito (mas não analisei) ficaram de fora, como Stray, outros foram excepcionais em minha análise, como o port de Persona 5 Royal, mas não me marcaram pessoalmente, e alguns foram bem interessantes e surpreendentes, mas com algumas falhas significativas e/ou são remasterizações modestas, como Romancing SaGa -Minstrel Song- Remastered, Milky Way Prince - The Vampire Star e Chrono Cross: The Radical Dreamers Edition. Gostaria de mencioná-los ao menos pelo quão marcantes foram.

Também quero deixar como menções honrosas o indie Lost Eidolons, da Ocean Drive Studio, que é um de meus RPGs táticos favoritos do ano. E devo mencionar os lançamentos do Team Asano, um dos meus times favoritos na Square Enix: Triangle Strategy, Live A Live, Octopath Traveler: Champions of the Continent e Various Daylife. Tive a oportunidade de analisar todos os seus jogos de 2022 e também entrevistei seus produtores. Por fim, deixo uma menção a Elden Ring, que é o jogo do ano que está no topo da minha lista para continuar em 2023. Até hoje não o terminei, mas não tenho dúvidas de sua qualidade, principalmente pelo quanto eu adoro o estilo de design de Hidetaka Miyazaki.

Nenhum dos jogos da minha lista de favoritos de 2022 eu poderia prever em 2021, com exceção de Final Fantasy XIV: Endwalker, que havia sido lançado no final do ano passado. Assim, acima de tudo espero ser igualmente surpreendido em 2023, sobretudo no cenário independente. Até onde posso antever, o The Game Awards 2022 conseguiu me mostrar o potencial de Viewfinder. A Sad Owl Studios parece estar com um bom jogo de puzzle em mãos. E eu tenho grande expectativa para mais RPGs táticos, como Redemption Reapers. Seguindo a tendência deste ano, adoraria ver um remaster ou remake de Final Fantasy Tactics dirigido por Yasumi Matsuno, além de um remake HD2D de Bahamut Lagoon feito pelo Team Asano.

Falando em Team Asano, meu ano começará com grande expectativa para Dragon Quest III HD2D Edition. Esse é um de meus jogos favoritos da série e quero muito rejogá-lo e avaliá-lo enquanto não temos mais notícias de Dragon Quest XII. Como já dito, também tenho alta expectativa para Final Fantasy XVI e, entre os jogos AAA, eu acrescentaria Baldur’s Gate 3, da Larian Studios, que pode se tornar o melhor CRPG já feito em estilo tradicional. Por fim, sigo com a esperança anual de que Fumito Ueda anuncie seu próximo game e que seja tão maravilhoso quanto ICO, Shadow of the Colossus e The Last Guardian.

Revisão: Ives Boitano

Doutorando em Filosofia que passa seu tempo livre com piano, livros, PC e portáteis. No Twitter, também é conhecido como Vivi. Interessa-se especialmente por narrativas de ficção científica, realismo mágico e alta fantasia política, e aprecia mecânicas de puzzle, stealth, estratégia e RPG. Seu histórico de análises pode ser conferido no OpenCritic e suas reflexões sobre RPG e game design encontram-se na SUPERJUMP (textos em inglês), bem como no Podcast do Vivi e em seu canal no YouTube.
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