Jogamos

Análise: Star Ocean: The Divine Force (Multi) traz mais liberdade à série de RPGs sci-fi da tri-Ace

O novo jogo da franquia Star Ocean capricha em uma gameplay agradável.

Também conhecido como Star Ocean 6 no Japão, Star Ocean: The Divine Force é o mais novo jogo da série de RPGs de ação sci-fi desenvolvida pela tri-Ace em parceria com a publicadora Square Enix. Seis anos após o último título da franquia, Star Ocean: Integrity and Faithlessness (PS4), temos um jogo que explora de forma competente o legado de Star Ocean, com uma proposta engajante de gameplay.

Misturando sci-fi e fantasia

Assim como em Star Ocean: The Second Story (PS), The Divine Force conta com uma história dividida entre dois protagonistas. De um lado, temos Raymond Lawrence, filho do grande presidente da companhia Lawrence Logistics e capitão da Ydas, uma nave de transporte intergaláctico e venda de mercadorias. Do outro, Laeticia Aucerius, princesa do reino de Aucerius no planeta subdesenvolvido de Aster IV.

Cabe ao jogador escolher qual dessas perspectivas ele prefere assumir no jogo, o que altera as cenas que podem ser vistas. Desde seus primórdios, Star Ocean prima pela mistura entre elementos de fantasia e ficção científica, e de certa forma é possível associar os personagens a essas duas vertentes. O encontro entre esses gêneros é também um choque de perspectivas, com Raymond advindo de um planeta em que a tecnologia é avançada a ponto de ter androides que se comportam praticamente como humanos.

Apesar da escolha, vale destacar que a história de ambos os personagens segue, grosso modo, uma estrutura similar. Inicialmente, Raymond é atacado por uma nave da Federação Pangaláctica de forma súbita, e forçado a pousar no distante planeta Aster IV. Laeticia, por sua vez, está preocupada com a relação cada vez mais desgastada entre o seu reino e o Império Vey’l.

No fim das contas, tanto a perspectiva de microcosmo de Aster IV quanto a visão política das forças pangalácticas se misturam. Porém, os focos dos eventos mudam para dar mais riqueza de detalhes à ambientação com a qual esses personagens estão mais acostumados. Nesse sentido, escolher Raymond implica em ver mais detalhes de sci-fi desde o início, enquanto a jornada de Laeticia se aprofunda em conspirações ligadas à conjuntura política e militar do seu planeta especificamente.

Conforme a trama avança, mais personagens com diversos backgrounds entram na equipe, sendo dois deles opcionais e exclusivamente controláveis na história de cada protagonista. Todos os aliados são curiosos e carismáticos, sendo a sua relação com a trama geral e com os outros membros da equipe desenvolvida de forma razoável. Em especial, o tradicional sistema de Private Action permite conhecê-los mais a fundo de forma opcional, e até mesmo alguns personagens secundários possuem suas próprias subtramas que vale a pena conhecer.

De forma geral, a narrativa é sólida, e consegue trabalhar bem a combinação de fantasia e ficção científica. Em particular, chama a atenção a discussão sobre o impacto da tecnologia em nossas vidas e as várias nuances disso em uma perspectiva relativamente simplista de evolução. Infelizmente, a obra não consegue desenvolver isso de forma tão interessante, batendo apenas em pontos que já são lugar-comum em obras sci-fi.

Também é importante destacar que a condução da narrativa conta com problemas nítidos, como algumas transições e entradas abruptas de cenas e detalhes da trama que acabam até se contradizendo. No que tange o seu elemento mais interessante de discussão sobre tecnologia, a obra acaba caindo em uma estrutura cíclica, que exagera um pouco na exposição e ainda assim falha em dar clareza e peso para o que é apresentado.

Houve também uma economia de recursos e nenhuma cutscene propriamente dita, sendo utilizadas sempre cenas e animações in-engine (ou seja, com os modelos do próprio jogo). Dependendo do jogo, isso não é um grande problema, mas Divine Force deixa transparecer que determinadas cenas foram simplificadas por questões orçamentárias.

Uma pequena máquina e um grande impacto na gameplay

Assim como seus antecessores, Star Ocean: The Divine Force é um RPG de ação em que o jogador pode controlar uma equipe de personagens e alternar entre eles durante o combate. Seguindo os aprendizados de Integrity and Faithlessness (SO5), o novo jogo opta por batalhas que acontecem no próprio mapa, sem a necessidade de transpor os personagens para um ambiente próprio para lutar contra os inimigos. Ao mesmo tempo, a equipe voltou a ter um tamanho mais equilibrado de quatro personagens, no lugar dos sete de SO5.

Em comparação com os jogos anteriores da franquia, The Divine Force consegue ser mais ágil, e eliminou o delay entre “executar um comando” e “atacar”. Tradicionalmente, a série utilizava um controle comparável ao tradicional semiautomático da franquia Tales of, mas agora ele é mais direto e intuitivo, como é esperado de um RPG de ação moderno.

Em vez de sistemas de MP para usar ataques especiais ou mágicos, temos uma barra de AP que recarrega quando o jogador para de atacar. Todo e qualquer golpe consome alguma quantidade dessa barra, e é ela que determina a viabilidade dos combos. No início, temos apenas cinco pontos de AP, mas esse número é aumentado sempre que conseguimos realizar um Blindside, uma façanha de combate em que desviamos da zona de visão do inimigo.

Para poder fazer isso, o jogador precisa contar com a ajuda de um pequeno robô chamado D.U.M.A., que carrega os personagens para os céus e permite desvios ágeis. Ele também possui uma barra própria, a VA, que é consumida toda vez que voamos com a sua ajuda em combate. Cabe ao jogador montar os seus próprios combos para os três botões de ataque, desviar no tempo preciso para recuperar um pouco de VA, e saber usar o D.U.M.A. bem para deixar os inimigos vulneráveis aos ataques e incapazes de retaliar graças ao Blindside. Isso se aplica até mesmo para vários inimigos poderosos e chefes, valorizando o esforço do jogador em dominar os seus timings.

Apesar de poder parecer apenas um gimmick pequeno, o D.U.M.A. é um elemento de grande peso para o jogo, adicionando uma grande maleabilidade ao combate. Saber utilizá-lo nos momentos-chave faz uma enorme diferença na dificuldade e ajuda a deixar o sistema ainda mais dinâmico e diferenciado em relação a outros RPGs de ação.

Não apenas isso, mas ele também é utilizado na exploração das áreas. Star Ocean: The Divine Force apresenta mapas grandes, e o pequeno robozinho faz o papel fundamental de carregar o jogador como uma rajada direcionada de um jetpack. Com isso, os mapas ganham uma excelente dimensão de verticalidade, como acontece em Ys IX: Monstrum Nox. Escalar os telhados das casas, vasculhar pequeninas ilhas celestiais e se movimentar rapidamente de um ponto a outro são apenas alguns dos impactos do D.U.M.A. na exploração.

Viajar rapidamente de um ponto a outro permite ataques-surpresa nos inimigos, aumentando a quantidade de pontos de experiência obtidos em combate. O D.U.M.A. também conta com um radar para tesouros, e é possível encontrar cristais roxos no mapa que podem ser usados para comprar upgrades para o robô.

Os personagens também contam com várias formas de upgrade, incluindo a aquisição de novos equipamentos, assim como novas habilidades em um sistema similar a um Sphere Grid (Final Fantasy X) simplificado e individual. Os mesmos pontos que permitem comprar poderes passivos, ativos e bonificações nas estatísticas dos aliados também podem ser usados para aumentar o nível dessas habilidades, aumentando a sua eficácia. Por exemplo, eu pessoalmente dei preferência a rapidamente desbloquear um Auto-Healing de nível 10 (máximo) para poder reduzir um pouco a dependência de personagens focados em cura.

Infelizmente, gostaria de destacar também que encontrei uma variedade de bugs próximo da reta final do jogo. Em particular, enfrentei alguns inimigos que tentavam fugir para fora da área de batalha e ficavam presos nas paredes indefinidamente. Além disso, ao me afastar apenas um pouco da área dos inimigos, observei encerramentos prematuros de combate. Esses problemas parecem ter relação com as localidades serem mais restritas em comparação com os campos amplos de outros mapas, e são apenas detalhes pequenos que não afetam significativamente a experiência. Também senti falta de um sistema de log para rever as falas do jogo.

Um mundo novo com tons de familiaridade

Além de tudo o que mencionei, gostaria de destacar que as áreas exploráveis chamam bastante a atenção por conta de seu visual. Embora os ambientes humanos mais rústicos do início do jogo possam não ser tão chamativos, os campos abertos em que é possível encontrar monstros são deslumbrantes, assim como os céus de Aster IV com suas luas enormes.

Áreas com cristais gigantes e estruturas fisicamente improváveis reforçam a sensação de estarmos em um outro planeta, um lugar muito distante e alienígena. A mesma coisa pode ser dita sobre o céu, que reforça a sensação de um fantástico mundo novo que ainda precisamos desbravar.

Ao mesmo tempo, a trilha sonora composta por Motoi Sakuraba ajuda a dar uma certa sensação de familiaridade e aconchego. O compositor esteve presente em todos os jogos da franquia, mantendo uma envolvente e consistente sensação de épico de aventura espacial. As trilhas de combate em particular são impetuosas e reforçam o dinamismo da gameplay.

Outro elemento que deve trazer um pouco de nostalgia aos fãs da desenvolvedora é o minigame chamado Es’owa, pois nele é possível usar figuras baseadas em obras anteriores da tri-Ace, como Valkyrie Profile e Radiata Stories. Esses bonecos também servem de acessórios equipáveis com efeitos variados. Pessoalmente, achei esse jogo opcional bastante desbalanceado, não conseguindo oferecer um equilíbrio estratégico que me deixasse fissurado em testar outras possibilidades.

De volta ao oceano de estrelas

Star Ocean: The Divine Force é uma excelente adição à franquia, dando ao seu gameplay novos ares. Apesar de seus problemas, a trama consegue manter um tom consistentemente sério nos eventos principais, e as relações entre os personagens são bem estabelecidas. Fica a torcida para que próximos jogos possam expandir o que deu certo neste, e explorar ainda mais a fundo elementos do universo de Star Ocean.

Prós

  • Sistema D.U.M.A. é uma excelente adição para explorar as áreas e ter mais maleabilidade no combate;
  • Combate fluido e instigante, que valoriza combos, esquivas e o bom uso do D.U.M.A.;
  • Boa parte das áreas exploráveis são campos bastante abertos, e chamam a atenção com elementos visuais que reforçam a sua natureza alienígena;
  • Trilha sonora de alta qualidade, composta por Motoi Sakuraba.

Contras

  • Alguns pontos da trama parecem ter transições abruptas;
  • Alguns detalhes da história são forçados e até se contradizem;
  • Economia de recursos faz com que as cenas de história tenham uma sensação de estranheza;
  • Reta final com ambientes mais fechados acaba sofrendo com pequenos bugs;
  • Ausência de log.

Star Ocean: The Divine Force — PC/PS4/PS5 — Nota: 8.0
Versão utilizada para análise: PC

Revisão: Raquel Nascimento Everton
Análise produzida com cópia digital cedida pela Square Enix


é formado em Comunicação Social pela UFMG e costumava trabalhar numa equipe de desenvolvimento de jogos. Obcecado por jogos japoneses, é raro que ele não tenha em mãos um videogame portátil, sua principal paixão desde a infância.
Este texto não representa a opinião do GameBlast. Somos uma comunidade de gamers aberta às visões e experiências de cada autor. Escrevemos sob a licença Creative Commons BY-SA 3.0 - você pode usar e compartilhar este conteúdo desde que credite o autor e veículo original.


Disqus
Facebook
Google