Discussão

Lojas digitais estão fechando, e isso é um problema

Saiba por que esse canal é tão importante na preservação e distribuição de experiências de entretenimento.


Se você é jovem, já deve estar mais que acostumado com a comodidade de poder comprar jogos em formato digital na loja da sua plataforma preferida. Consoles, PC e smartphones dispõem de uma oferta de títulos para download que cresce diariamente em suas lojas virtuais, e essa revolução na forma como games são distribuídos foi um dos principais fatores que contribuíram para um verdadeiro boom no consumo deste tipo de produto no início deste século.

Entretanto, com o passar do tempo, estamos vendo como essa comodidade está começando a causar prejuízos para o consumidor, por meio do fechamento definitivo destes canais, impedindo que tenhamos acesso a títulos de forma mais fácil, cômoda, ou unicamente desta maneira. Nesta matéria, vamos discutir a importância de manter essas lojas disponíveis, já que muitos desenvolvedores passaram a depender diretamente deste meio como única forma de distribuir seus jogos para os consumidores.

Antigamente era bem assim

Na segunda metade da década de 1990, eu ganhei de meus pais meu primeiro computador. Devia ter uns 10 ou 11 anos de idade e, como toda criança naquela época, uma das coisas que eu mais queria fazer com ele era jogar videogame. Sendo assim, comecei a me aventurar em um terreno até então desconhecido para mim, procurando maneiras de como saciar essa vontade de me divertir com aquela máquina.
Espaço na prateleira valia mais que espaço no HD
Naquela época, no Brasil, havia poucas formas de se comprar jogos para o PC, mas duas delas eram as mais convenientes, dependendo do seu poder aquisitivo: em lojas especializadas que importavam diretamente de outros países, em geral dos Estados Unidos, ou em bancas de jornais, que vendiam revistas com CD-ROMs recheados de demonstrações e, às vezes, um ou outro jogo completo.
Quem se lembra da revista CD Expert?
A grande revolução na forma como jogos para PC passaram a ser distribuídos e comercializados teve como protagonista a Valve, com o lançamento do Steam em setembro de 2003. A plataforma começou de forma modesta como uma alternativa para os jogadores que queriam comprar jogos em formato digital para jogar no PC, ou seja, a principal mídia em que os jogos eram distribuídos ainda era a física, mas as publicadoras poderiam fornecer como alternativa a opção de comprar o mesmo jogo em formato digital. Com o passar dos anos, o Steam se firmou como a principal loja virtual do segmento.

Com a popularização da internet em banda larga, possibilitando a navegação e transmissão de dados de forma mais estável e em velocidades maiores, a comodidade de comprar jogos dessa forma começou a se tornar um padrão, e o modelo começou a ser usado pelas principais empresas de games em seus consoles. A primeira a utilizar uma loja digital para comercializar jogos para um console foi a Microsoft, com o lançamento da Xbox Games Store em novembro de 2005 para a distribuição e venda de jogos, demonstrações, e até música e vídeos para o Xbox 360. A loja foi descontinuada em outubro de 2017, dando lugar à Microsoft Store, que passou a atender o PC e os consoles Xbox em um só ambiente.

Um ano depois, em novembro de 2006, foi a vez da Sony lançar a PlayStation Store. A loja tinha a mesma finalidade da concorrente e atendia inicialmente os usuários do PlayStation 3, mas a partir de 2008 também passou a comercializar jogos de PSP. Na mesma época, a Nintendo lançou o Wii Shop Channel, a loja exclusiva para o Wii, mas diferente das duas primeiras, a loja oferecia um catálogo diferenciado, contando com games que só estavam disponíveis ali, os chamados WiiWare, além de jogos de sistemas mais antigos, como NES, SNES, Mega Drive e PC Engine, que integravam um catálogo chamado de Virtual Console.
Página inicial da PlayStation Store em 2006
Foi uma época cheia de experiências, de erros e de acertos. Comprar créditos era algo confuso, pois ao invés de valores, os créditos eram representados por pontos. A qualidade dos servidores ainda era aquém da desejada, fazendo um download durar mais tempo do que o esperado. Os DLCs eram demonizados pela prática abusiva de lançar um jogo incompleto de propósito só para lucrar mais, pouco tempo depois, vendendo conteúdo extra. Enfim, era um novo comportamento que começava a ser cultivado na cultura gamer mundial, e as lojas digitais começaram a ganhar espaço no mercado e na preferência dos consumidores.

Importante, útil e eficaz

As lojas digitais são um importante canal de interação direta com o consumidor. Uma das principais comodidades ao optar por comprar nelas é que o produto que você quer está disponível a qualquer hora e dia da semana e com um estoque praticamente infinito. Você pode simplesmente chegar num feriado de Natal, às duas da madrugada, e comprar seu game preferido sem filas, sem gastar gasolina, sem nem precisar tirar seu confortável pijama ou mesmo sair da sua cama. Dependendo do tamanho, em poucos minutos ele já é baixado e instalado, esperando apenas que você pegue seu controle e dê o play.

Há quem ainda prefira adquirir seu jogo preferido na tradicional mídia física, e nada contra isso. Mas a comodidade é um preço extra que muitos gostam de pagar e, nesse caso, nem chega a custar mais caro. A pandemia de Covid-19 em 2020 mostrou o quão importante as lojas digitais foram para suprir a demanda por entretenimento durante o isolamento social. No período, o número de brasileiros que jogavam videogame chegou a 72% da população. Foi um dos maiores números já registrados desde então.
O setor de games cresceu 150% durante a pandemia. Fonte: R7
Hoje essas mesmas lojas contam com ferramentas que auxiliam o consumidor na hora de escolher e monitorar os jogos de seu interesse, com opções de pré-venda e listas de desejos para ficar de olho no preço daquele game que você está esperando chegar num precinho legal para finalmente comprá-lo. O Steam, especificamente, conta com um agregador próprio de opiniões de jogadores da rede para ajudar quem ainda tem dúvida sobre a qualidade de um determinado título, o que pode ajudar na tomada de decisão na hora de desembolsar alguns trocados.

Além disso, Sony e Microsoft até apostam em modelos que dependem totalmente dessas lojas para funcionar. É o caso do PlayStation 5 Digital Edition e do Xbox Series S, que não dispõem de um drive óptico e só podem fazer uso de games em formato digital, deixando esse canal como única alternativa para comprar jogos.
Em 2022 temos dois consoles que dependem exclusivamente de lojas digitais para funcionar.

As complicações quando esse canal é encerrado

O fechamento de uma loja digital é facilmente comparado com o de uma loja física. Imagine que aquela lanchonete que você adora frequentar no fim de semana tenha anunciado que vai encerrar as atividades no fim do mês. Independente do preço, você gosta de ir lá pois gosta muito do atendimento e dos produtos, no caso, os lanches. Você nunca mais vai poder comer aquele pão na chapa que só era feito do jeito que você gosta lá. É quase a mesma sensação quando falamos de uma loja digital.

Um dos principais méritos das lojas digitais foi a popularização dos jogos criados por estúdios independentes. O cenário indie ganhou uma grande força graças a facilidade em distribuir seus jogos por meio deste canal. Muitos desenvolvedores não têm condições de bancar uma parceria com uma publicadora grande, como uma Capcom ou Bandai Namco da vida, que dispõem de uma equipe de marketing, distribuição e logística inviáveis para um estúdio que, muitas vezes, é composto por um pequeno grupo de pessoas em um escritório minúsculo situado em uma cidade de interior. O fechamento dessas lojas implica, muitas vezes, na perda desse canal que liga diretamente o estúdio ao jogador.
Jogos independentes tem um papel importante no mercado e dependem muito das lojas digitais para que cheguem até os consumidores.
Mas um dos maiores problemas com o fechamento dessas lojas diz respeito ao catálogo único que é oferecido nelas. A exemplo podemos citar o Wii Shop Channel do Wii, que foi oficialmente encerrado em 30 de janeiro de 2019. Se você pegar um Wii e tentar entrar na loja hoje, não vai encontrar nada para comprar, ficando limitado apenas a baixar novamente qualquer conteúdo que tenha adquirido na loja antes do fechamento.

Esse triste destino está prestes a acontecer com o Wii U e o 3DS. A Nintendo já anunciou que as lojas para estas duas plataformas cessarão a venda de jogos e qualquer outro conteúdo daqui pouco mais de um ano, em março de 2023. E se tratando de Brasil, tirar essa opção dos jogadores é um tremendo prejuízo, visto que os itens da Nintendo costumam ser super inflacionados pelo mercado de usados. Os jogos para estes sistemas, por serem difíceis de se comprar por aqui, são super valorizados e chegam a custar mais do que originalmente valiam à época de seu lançamento, muitas vezes, por puro capricho.
A Nintendo eShop do Wii U e 3DS vai cessar as vendas de conteúdo em março de 2023.
A Sony, em março do ano passado, anunciou que daria o mesmo destino para as lojas do PS3, PSP e PS Vita em 2021, mas acabou repensando a situação e optou por rever essa decisão, mantendo abertas as lojas do PS3 e Vita. A PlayStation Store do PSP foi encerrada em 2 de julho de 2021 e assim como nos casos acima, conteúdos adquiridos poderão ser baixados novamente por quem já comprou. O motivo pode estar ligado aos rumores de um serviço semelhante ao Xbox Game Pass da Microsoft que ganha força com o passar do tempo.

A ferramenta que ajuda a manter a história viva

Uma discussão recorrente sobre a importância de se manter essas lojas ativas é algo semelhante ao que houve com relação à música: a preservação do legado. Um exemplo prático é o famoso Spotify, uma das mais populares plataformas de áudio digital do planeta. Se você quiser ouvir o icônico álbum Thriller, de Michael Jackson, lançado em 1982, basta baixar o aplicativo, buscar o álbum e dar o play. Melhor ainda! Basta dar play logo abaixo.

Agora, digamos que você queira jogar Super Mario World, um dos mais notórios jogos da biblioteca do Super Nintendo, um clássico de um console que não existe mais no mercado. Como você faz? Hoje é possível fazer isso por meio do serviço Nintendo Switch Online. Pagando uma assinatura, você tem acesso a ele pelo Switch. Legal!

Mas você não é uma pessoa tão comum. Você tem gostos mais específicos para jogos e lembrou de um jogo para Wii que você viu na casa de um amigo, pesquisou hoje, e descobriu que ele era exclusivo do console, porém, só estava disponível no Wii Shop Channel. O que você faz? Bom, o caminho mais comentado para resolver essa situação geralmente leva para o da pirataria, e isso é um problema extra causado pela falta de disponibilidade legal de um jogo.

Outro problema que costuma ocorrer com a indisponibilidade de jogos em lojas digitais é a exacerbada inflação gerada pela disponibilidade que passa a se tornar limitada. Um exemplo até recente aconteceu com o limitadíssimo Super Mario 3D All-Stars, coletânea com três jogos do Super Mario lançada para Switch em comemoração ao 35º aniversário do personagem. A estratégia da Nintendo em tornar a venda, tanto em formato físico quanto digital, limitada fez com que a busca pela versão física do pacote se tornasse uma verdadeira febre do ouro.
A Nintendo causou uma verdadeira Corrida do Ouro em 2021 com a disponibilidade limitada de Super Mario 3D All-Stars (Switch)
Com as vendas da coletânea encerradas em 31 de março de 2021, quem tinha algum interesse em obter uma cópia do jogo foi surpreendido — ou não — por cópias sendo vendidas por valores acima dos US$1.000. Hoje, felizmente, já é possível encontrá-lo a preços mais aceitáveis, mas com cópias limitadas soltas por aí, nada impede que uma cópia dele chegue a custar novamente o preço de alguns barris de petróleo.

A falta de um meio para obter esses jogos de forma legal, acessível, e até barata, é por meio dessas lojas, além do aspecto da preservação do material. Eu nunca tive um PlayStation, o da primeira geração, mas quando comprei um PS3 em 2014, uma das coisas que eu tive o prazer de fazer foi comprar jogos desta plataforma na PlayStation Store para jogar no meu console. Títulos que custaram muito pouco e que se quisesse obter uma cópia oficial ia precisar desembolsar alguns bons reais, além de precisar de um PlayStation também. Isso, claro, se eu não quiser navegar nas águas da emulação.

Os consumidores estão criando um novo comportamento com as lojas digitais e isso colabora para que sempre haja uma pressão para mantê-las vivas, como aconteceu com o anúncio do fechamento da loja do PS3. Infelizmente, mesmo sob críticas, a Nintendo não vai voltar atrás na decisão sobre as lojas do 3DS e Wii U, portanto, alguns títulos disponíveis somente por meio destes canais não poderão mais ser adquiridos por futuras gerações de jogadores.

Por favor, não feche!

Um pedido humilde, mas sincero. Foi graças a essas lojas que tivemos uma nova experiência sobre como ter acesso a jogos novos, diferentes e até inesquecíveis. Um canal que moldou uma geração e que redefiniu a forma como consumimos videogames, de forma ágil, simples, prática e dinâmica. E num mundo que não para de evoluir digitalmente, qual será o próximo passo?
Deixe nos comentários sua opinião sobre a importância das lojas digitais na forma como você adquire seus jogos. Que experiências você já teve em que a existência desse meio permitiu que você se tornasse o gamer que é hoje? Boa jogatina para você!
Revisão: Heloísa D'Assumpção Ballaminut

Fã de Castlevania, Tetris e jogos de tabuleiro. Entusiasta da era 16-bit e joga PlayStation 2 até hoje. Jogador casual de muitos e hardcore em poucos. Adora quando as partidas acabam em discórdia e fogo no parquinho. Nas redes sociais é conhecido como @XelaoHerege


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