Meus jogos favoritos de 2021 — João Pedro Boaventura

Os redatores do GameBlast falam sobre os títulos que mais curtiram entre os lançamentos deste ano.


É aquela história de sempre: estou aqui para listar alguns dos meus jogos favoritos de 2021, seguindo a série de posts com as preferências dos redatores do GameBlast. Alguns nem são lançamentos de fato, tratando-se apenas de malabarismos argumentativos ou reedições tardias para o mercado ocidental e/ou para o console em que joguei. Bom, sem mais delongas, segue minha lista particular sem uma ordem definida — lembrando que podemos ter alguns favoritos, mas também ter a completa noção de que estão muito longe de serem os melhores (e vice-versa).

Scarlet Nexus

Eu gosto demais de títulos que sabem ser jogos, pura e simplesmente. Scarlet Nexus (Multi) não tenta ser uma experiência sóbria e complexa, trazendo trinta e cinco mil lições de moral diferentes e tentando alcançar um patamar artístico bizarro sem sequer oferecer alguma experiência sólida de jogabilidade. 

O game é super gostoso de jogar e, a despeito de alguns momentos em que a história parece não avançar, eu gosto de como ele tem estilo.  Ainda, vejo-o com um belo frescor para a indústria, com IPs cada vez menos criativas e com a intenção simples de divertir em vez de impactar ou emocionar. Os indies até tentam, mas nada se compara ao suporte de uma marca poderosa no meio como uma Bandai Namco da vida. 

Aliás, eu racho o bico de como o marketing foi bom ao ponto de criar o termo brainpunk. Esse negócio não existia antes de Scarlet Nexus, mas o material de RP fingiu que era já um conceito consolidado e todas as buscas a seu respeito direcionam justamente ao jogo. É brilhante. 



Legion TD 2

A estrutura de Legion TD 2 (PC) se resume a montar builds de monstros que podem ser comprados a cada turno alternado das ondas de inimigos que tentam passar das sentinelas que o jogador posiciona para proteger o rei. A sacada está na maneira como cada “time” pode ser montado de forma aleatória, dependendo do modo de jogo selecionado previamente, o que traz uma variedade considerável para as partidas.

O que me pegou de jeito, entretanto, é que o primeiro Legion TD, na verdade, é um mapa personalizado do Warcraft III (PC) que eu costumava jogar há mais de uma década, na minha época de ensino médio. A questão é que eu fiquei surpreso em ver que produziram, depois de tanto tempo, uma sequência individual para Steam de forma similar ao que fizeram com o Dota (cuja origem foi a mesma). Aliás, tem muitos outros mapas do Warcraft que sustentam títulos próprios sozinhos, viu?



No More Heroes 3

Eu não acho No More Heroes 3 (Switch) o melhor do ano, nem sequer o melhor No More Heroes, mas ainda é divertido demais. Em termos de variedade do combate, é o melhor da série. As skills do Death Drive foram bem implementadas porque entenderam que o mesmo recurso no Travis Strikes Again (Multi) era muito disperso, com tantos chips e a maioria bem inútil e/ou pouco prática. 

Por outro lado, a história e a estrutura geral do jogo deixam a desejar. Abdicar das fases individuais para que Santa Destroy e os territórios à sua volta fossem o palco do desenvolvimento do game não funcionou bem. A história me pareceu um pouco fora do tom, especialmente se a compararmos com a dos dois primeiros títulos numerados da série, mas tem seus momentos. O aspecto gráfico também é consideravelmente rústico, com bordas serrilhadas, iluminação plastificada e texturas estouradas. 

Independentemente disso, eu achei que, depois de tanto tempo desde Desperate Struggle (Wii), No More Heroes 3 foi uma baita experiência. Foi delicioso rever os personagens e me divertir com certas minúcias que fazem uma produção da Grasshopper Manufacture ser uma produção da Grasshopper Manufacture, como eram as sequências de debate sobre o Takashi Miike. NMH3 não promove nenhum fascínio como se esperava, mas ainda consegue fazer jus ao seu nome. Em tempo: coloco minha mão no fogo e, embora eu duvide com veemência de uma sequência (ao menos em um futuro próximo), a julgar pela história, um DLC é o que falta para fechar algumas pontas e dar o nosso último adeus a Travis Touchdown.

P.S.: Também joguei as novas versões para PC tanto do primeiro No More Heroes quanto do Desperate Struggle. A recomendação é que, embora sejam excelentes jogos, é para fugir de ambos os ports.



Yakuza: Like a Dragon

Aqui vai entrar um verdadeiro malabarismo argumentativo porque, embora tenha sido lançado nos Estados Unidos no final de 2020, Yakuza: Like a Dragon (Multi) teve a sua localização disponibilizada apenas neste ano, fazendo com que 2021 possa ser considerado o lançamento brasileiro do título. 

Digo isso também porque se trata de um jogo que realmente merece ser lembrado, tanto pela sua qualidade singular como um JRPG que quebra paradigmas ao mesmo tempo em que consegue ser extremamente tradicional, quanto pela localização feita para o nosso país, valorizando o trabalho incrível realizado pelos profissionais envolvidos. 

Yakuza: Like a Dragon trouxe um excelente respiro para a franquia e Ichiban Kasuga é um protagonista maravilhoso que caminha a passos largos para construir seu próprio legado na série. Além disso, a jogabilidade está no ponto e traz um sistema de combate envolvente e consistente. Trata-se do melhor RPG de 2021, que se mostrou capaz de fazer frente, sem nada a dever e sem medo algum, a outros vários representantes do gênero, como Shin Megami Tensei V (Switch), Tales of Arise (Multi) e Bravely Default 2 (Switch/PC).



New Pokémon Snap

Passei quase vinte anos batendo na tecla que Pokémon Snap (N64) merecia uma sequência por ainda ter muitíssimo potencial inexplorado para o formato, uma vez que a própria marca Pokémon se desenvolveu a ponto de que qualquer novo título seria uma espécie de evolução natural. Pois bem, a espera finalmente terminou e o que se tem aqui é um produto que conseguiu entender o que fez do original ser tão especial.

Acho que o fato de New Pokémon Snap (Switch) ter sido desenvolvido pela Bandai Namco contou pontos demais nisso, uma vez que ela já tinha feito um ótimo trabalho com Pokkén Tournament (Wii U/Switch) anteriormente. É preciso que outras empresas consigam acesso à licença da marca (sem virar zona) porque elas sempre costumam trazer uma visão bem menos viciada do que aqueles já imersos na franquia (cof, cof, Game Freak cof, cof). 

A inclusão de caminhos alternativos e sistema de dia/noite para as rotas e a possibilidade de se fotografar diferentes variações das interações entre os Pokémon foram pitadas de gênio que conseguiram estender a campanha sem artificialidade ao mesmo tempo em que satisfez como uma sequência enxuta, mas com novidades no ponto certo. Gostei demais e foi um dos poucos jogos que conseguiram me motivar para correr atrás dos 100%. 



Tales of Arise

Tales of Arise (Multi) não traz realmente absolutamente nada de novo para o seu gênero. O que torna o RPG da Bandai Namco tão diferenciado é o fato de conseguir fazer o feijão e arroz de uma forma extremamente bem-feita. Sem reinventar a roda, ele é um título muito gostoso de jogar (ao menos até a reta final, quando o enredo começa a se arrastar artificialmente um pouco) e traz uma série de elementos clássicos e básicos de uma forma exímia e competente. 

Eu digo isso porque, enquanto jogava, ele me remeteu fortemente aos Final Fantasy da época em que a franquia ainda era divertida — contando Final Fantasy VI (SNES) para trás —, uma vez que a IP da Square Enix é cada vez mais sombra do que ela já foi algum dia, sendo que os lançamentos recentes são cada vez menos dignos do nome que a franquia ostenta. Tales of Arise, por sua vez, nos traz um mundo de fantasia até que padrão, mas ainda extremamente agradável dentro de uma zona de conforto para o estilo, e modernizado no ponto certo. 

Em resumo, Tales of Arise carrega uma atmosfera de Final Fantasy melhor do que qualquer Final Fantasy moderno. Com essa manifestação de rancor completamente gratuita, vamos seguir para meu próximo favorito.



NieR Replicant ver.1.22474487139...

O tratamento que a Square Enix deu para o NieR Replicant (Multi) é exatamente o que todo jogo antigo merece quando é trazido para uma nova geração, algo que não é apenas uma remasterização, mas não chega a ser exatamente um remake completo, ficando em um meio-termo que o próprio Yoko Taro descreveu como “version upgrade”, uma espécie de revitalização. 

Embora o original tenha recebido uma recepção bem morna (seja na imprensa, seja em vendas), é notável como houve a preocupação de consertar os defeitos que ele tinha, revitalizando seu sistema de batalha, além de reorquestrar a trilha sonora e reformar os gráficos para que se adequassem às novas plataformas. Além disso, foi uma boa sacada utilizar a versão que tinha ficado restrita ao Japão — no Ocidente, o protagonista era o paizão brucutu em vez do irmão cuidadoso —, com a preocupação de trazer uma experiência diferenciada até para quem já tinha jogado o original no Ocidente — isso sem falar do final extra. 

É uma verdadeira aula para certa empresa aí de logo vermelho que tem mania de vender material antigaço a preço cheio sem mexer em absolutamente nada nele só porque a dita cuja sabe que os fãs vão comprar sem questionar.



Menções honrosas e expectativas para 2022

Ao contrário de 2020, não acredito que eu tenha muitas menções honrosas para as outras coisas que joguei em 2021. O que mais chega perto de merecer tal honraria é o Pokémon Brilliant Diamond & Shining Pearl (Switch) —, mais por um sentimento de nostalgia tóxica do que qualquer outra coisa. Dá para ver que o pessoal da Ilca se esforçou dentro do seu limite, mas uma penca de decisões criativas ou limitações técnicas por parte dos desenvolvedores ainda minou o que poderia ser uma experiência bem mais gratificante.

Outro que me tomou um tempão este ano (bem mais do que deveria) foi Pokémon Unite (Switch/Mobile). A simplicidade e agilidade do game me cativaram ao mesmo tempo. Só parei de jogar porque perdi a paciência com o jogador médio que aparentemente não entendeu que a vitória funciona na base de pontuação, não em quem nocauteava mais os oponentes. 

Também me diverti com Story of Seasons: Pioneers of Olive Town (tanto no Switch quanto no PC) e com Lost Judgment (Multi). Ambos são muito bons, mas minhas impressões podem ser vistas com mais calma nas respectivas análises que fiz de cada um. No caso do Lost Judgment, ainda fico no aguardo do DLC do Kaito previsto para o ano que vem. O mesmo se aplica ao Fatal Frame: Maiden of Black Water (Multi), que me entreteve mais como um produto de terror japonês do que como um game, de fato. 




Olhando em retrospecto, eu tinha expectativa em quatro lançamentos para este ano que passou. Dois deles figuraram na minha lista — No More Heroes 3 e Nier Replicant — enquanto um recebeu uma menção honrosa, o Story of Seasons: Pioneers of Olive Town. Embora não tenham correspondido à expectativa incalculável que eu tinha colocado neles, ainda me renderam jogatinas verdadeiramente sólidas e divertidas. O quarto foi Disgaea 6: Defiance of Destiny (Switch) que, na minha opinião, se tratou de um fracasso retumbante em todos os aspectos possíveis, facilmente a minha maior decepção em 2021, principalmente após o brilhante Disgaea 5: Alliance of Vengeance (Multi). 

Dos títulos de 2021 que não cheguei a jogar este ano e que eu ainda pretendo coloco Ender Lilies: Quietus of the Knights (Multi) e o Voice of Cards: The Isle Dragon Roars (Multi). Se eu tiver a oportunidade de pegar bem baratinho, quero ver se arrumaram o sistema de combate horroroso do original na sequência NEO: The World Ends With You (Multi). Para o ano que vem, estou fissuradíssimo em The King of Fighters XV (Multi) e Digimon Survive (se é que esse jogo vai sair algum dia). Ah, o fato de ter descoberto que aquele Stranger of Paradise: Final Fantasy Origin (Multi) é basicamente um remake do primeiro FF me despertou um interesse repentino. Enfim, também estou de olho no Pokémon Legends: Arceus (Switch), mas é porque eu tenho um problema e reluto em admiti-lo. 
E você, leitor, o que espera para 2022 no mundo dos games?

Revisão: Juliana Paiva Zapparoli


É jornalista formado pelo Mackenzie e pós-graduado em teoria da comunicação (como se isso significasse alguma coisa) pela Cásper Líbero. Tem um blog particular onde escreve um monte de groselha e também é autor de Comunicação Eletrônica, (mais um) livro que aborda história dos games, mas sob a perspectiva da cultura e da comunicação.


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