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Análise: Story of Seasons - Pioneers of Olive Town (PC) cativa, mas não se destaca como poderia

Tentando se revitalizar, clássico simulador da vida bucólica aposta no crafting, mas peca em algumas das características essenciais da série.


Existe um problema ao escrever sobre qualquer uma das novas entradas da série Story of Seasons desde, pelo menos, 2016, visto que a tonalidade é quase sempre a mesma, composta de explicações a respeito de como a franquia mudou de nome (o antigo Harvest Moon, no caso) e de comparações diretas ao famigerado Stardew Valley (Multi), que teoricamente traz a mesma proposta, mas de uma maneira extremamente expansiva.

Pois bem, depois do remake de recepção morna que foi o Story of Seasons: Friends of Mineral Town (Multi), a Marvelous trouxe o primeiro game da série, então completamente inédito no Switch, para o PC: Story of Seasons: Pioneers of Olive Town.

De volta à vida bucólica

A história começa com o herói indo parar na chamada Olive Town após uma longa viagem com sua motocicleta, que logo pede arrego após ter rodado tanto sem descanso. No papel do protagonista, nós somos recepcionados pelo prefeito Victor, que logo relembra que o personagem principal é neto de um dos fundadores daquele local. Assim, somos apresentados ao espaço onde ficava o latifúndio do nosso avô e cabe a nós fazer aquele local prosperar novamente enquanto colaboramos na revitalização da própria cidade, cuja economia tem no turismo como uma das principais fontes de renda.

Tendo isso em vista, o esqueleto do game traz todos os elementos tradicionais possíveis para um simulador desse estilo. Para fazer com que nosso sítio prospere, é necessário cultivar plantações e cuidar dos animais para que eles tragam lucro, rendendo matérias-primas como lã, leite e ovos.  O relacionamento que estabelecemos com os cidadãos de Olive Town também é importante, sendo possível até mesmo se relacionar romanticamente com alguns moradores até nos casarmos, desde que tenhamos feito as expansões necessárias em nossa fazenda. 




Dividido por estações do ano, o calendário também é importante para o entendimento da estrutura cíclica de Story of Seasons (vide o nome), visto que a variação de jogabilidade se baseia justamente em como podemos cultivar hortaliças diversas de acordo com o clima. Pontualmente, há também os festivais do vilarejo, nos quais podemos interagir com os outros habitantes e participar de minigames diversos que trazem um respiro para o nosso cotidiano de latifundiário.

Uma das principais características de Pioneers of Olive Town, contudo, é como o jogo se baseia intensivamente em seu sistema de crafting para a revitalização da fazenda. Começando com um terreno baldio, cabe ao jogador começar a acumular recursos como pedras, lenha, tijolo e cimento para reconstruir o estábulo e o galinheiro, além de abrir novos territórios da propriedade e criar máquinas que facilitarão nosso cotidiano, como as processadoras de matéria-prima (que transformam leite em iogurte, por exemplo) e as bombas que purificam e drenam a água dos açudes.




Tendo isso em vista, a customização da nossa fazenda alcança níveis realmente absurdos para a franquia. O crafting é um elemento até que recorrente desde, pelo menos, Harvest Moon: A New Beginning (3DS), de 2012, e Pioneers decidiu centralizar boa parte de si nesse recurso, principalmente porque a vida bucólica já apresentava alguns sinais de desgaste, principalmente após a narrativa expansiva de Stardew Valley.

A extensão do terreno que temos após as duas expansões da fazenda colabora bastante para que a criatividade do jogador floresça. Para se ter uma ideia, cheguei a pesquisar alguns layouts pela internet para encontrar boas configurações e fiquei extremamente surpreso com a qualidade do material produzido pelos jogadores, com verdadeiros latifúndios que impressionariam até mesmo a bancada ruralista mato-grossense da Câmara dos Deputados. O crafting ainda traz consigo alguns recursos incríveis de otimização da jogabilidade, principalmente no late game, como é o caso do aspersor (sprinkler), que faz com que plantação se regue praticamente sozinha, economizando muito tempo e stamina que podem ser melhor usados em outras tarefas do cotidiano. 




Em contrapartida, o desenho da própria Olive Town chega a ser decepcionante, de tão pouco inspirado. No intuito de otimizar o fator de praticidade, a cidade não passa de uma construção ao lado da outra, sem qualquer planejamento de design de fases e corrobora uma quebra de imersão de uma marca conhecida justamente por sua atmosfera singular. Isso sem falar que a área verde, tão presente em vários jogos da franquia, é estupidamente insossa, resumindo-se a um laguinho nos fundos da aldeia. A relação que conseguimos estabelecer com o mapa se restringe, no máximo, às tarefas de revitalização que vez ou outra são solicitadas pelo prefeito. 

Aliás, o cumprimento de tarefas pontuais é um dos elementos do game, visto que a prefeitura costumeiramente disponibiliza alguns pedidos dos cidadãos do vilarejo que podem ser cumpridos por nós. Um sistema de conquistas interno também foi implementado e gera outras recompensas. Ele, por vezes, também está ligado a um sistema de evolução próximo ao de RPG, uma vez que ganhamos experiência à medida que vamos realizando tarefas de vários tipos, como mineração e pesca, por exemplo, além do cuidado com animais e plantas. Evoluir nesses atributos nos rende novas habilidades que, aos poucos, trazem mais diversidade e agilidade para o título. A sensação de custo, trabalho e recompensa existe em Pioneers of Olive Town, já que nós vemos todo o nosso trabalho árduo render recompensas úteis e justas. 




Um dos calcanhares de Aquiles do game, ao lado da cidade sem graça, é justamente quem mora nela. Os personagens são muito “oito ou oitenta”, sendo alguns muito interessantes enquanto outros são sem carisma.  Algo que certamente prejudica muito a impressão que o jogador tem deles é a ausência dos retratos que normalmente apareceriam quando conversamos com eles no dia a dia. Para compensar isso, foi incluído um recurso chamado chat camera, que aproxima a câmera do rosto do interlocutor, mas ainda não é a mesma coisa. A falta de carisma, inclusive, se soma à forma mecânica como todos os personagens foram programados, com um comportamento pouco diverso e até previsível. A rotina de todos é ditada pelo ostracismo e pela falta de interação entre eles próprios. 

Outro aspecto negativo é a maneira como as máquinas processadoras de matéria prima centralizam demais o progresso do game. Embora elas sejam um elemento recorrente, chama a atenção como elas demoram demais em cada sessão de trabalho e, pior, resultam em produtos individuais. Por exemplo, os lingotes de metal para aprimorar as ferramentas e dar prosseguimento ao crafting de vários itens só podem ser obtidos quando o jogo acumula pelo menos cinco minérios brutos e os coloca na máquina, que demorará pelo menos duas horas (para o mais básico de ferro, metais mais preciosos, como o ouro, demora ainda mais) para gerar uma única barra de metal. É possível colocar mais máquinas para otimizar esse processo, mas é frustrante que essa atividade não possa ser feita em massa de uma maneira mais ágil. 




O sistema de armazenamento também funciona da mesma maneira. Cada baú tem um limite de slots em que podemos guardar itens diversos, mas a quantidade de itens no jogo faz com que todos os baús que criamos no mundo jamais sejam suficientes. O fato de não ser possível contar com algum sistema de armazenamento dentro de casa que não seja a geladeira (também com um número muito baixo de slots, ressalta-se) incomoda bastante, é pouco prático. 

De um modo geral, o principal mérito de Pioneers of Olive Town é a maneira como a fazenda funciona de forma individual por conta da capacidade de personalização e toda a extensão física que temos para colocar nossas ideias em prática. É uma pena que o resto do mundo do jogo não tenha conseguido acompanhar. Talvez, se tivesse seguido a linha de A New Beginning, que permite a customização da própria cidade além da fazenda, este Story of Seasons poderia contar com um brilho mais intenso, mas ele se mantém tímido por parecer que fez o trabalho pela metade.



DLC: decepcionante, lacônico e capenga

Algo intensamente divulgado pela XSeed é o Season Pass de Pioneers of Olive Town, responsável por trazer material extra ao jogo e, teoricamente, expandir a experiência bucólica que ele tenta nos proporcionar. Sendo curto e grosso, a nossa recomendação direta é simplesmente não se preocupar com isso. Trazendo novos cenários e personagens, o conteúdo adicional implementado simplesmente não compensa, visto que as novas áreas são muito sem graça e sem quaisquer atrativos, enquanto os personagens, mesmo que trazidos de iterações anteriores da série, parecem ter sido contaminados com a falta de carisma dos da versão base do game.

É gritante como o potencial foi claramente desperdiçado por essas áreas extras aqui trazidas. Em resumo, a única adição prática são os novos candidatos a casamento trazidos a cada expansão, além de novas roupas e dois arcos de história extremamente rasos e sem graça. Faltou aproveitar mais a existência desses novos locais, que poderiam contar com a possibilidade de construir ou comprar uma espécie de base para passar a noite (em Friends of Mineral Town, por exemplo, construir um cottage é possível tanto na área verde quanto na praia) ou ao menos incluir direito o foraging, que é o ato de coletar recursos da natureza. 




Esses três locais, a Twilight Isle, o Terracota Oasis e a Windsept Falls, são puro espaço de armazenamento jogado fora, visto que nada complementam, seja em gameplay, seja na questão narrativa e imersiva do título. Não trazem uma loja que seja, não trazem uma mecânica inédita diferenciada, absolutamente nada. O custo-benefício desse Season Sass é nulo, chega a ser ultrajante.

Finalmente um port de PC que valha a pena

Por fim, é interessante chamar a atenção para a qualidade deste port para o PC. Após sucessivas traduções de plataforma muito malsucedidas feitas pela Marvelous — particularmente falando, tive a infelicidade de testar as versões de No More Heroes para PC (tanto o primeiro quanto a sequência, Desperate Struggle), bem como o pseudo-remake de Akiba’s Trip no PlayStation 4 — é possível dizer que finalmente deram uma dentro. 




Já tendo testado a edição de Switch do game, afirmo com toda a certeza que Pioneers of Olive Town roda no PC com muito mais fluidez e segurança do que em sua plataforma original, que sofre com quedas de frames e longas taxas de carregamento. Essa performance me leva a crer que talvez a versão base seja justamente a de PC, enquanto a de Switch seja a adaptação que simplesmente foi lançada antes por quaisquer motivos de que sejam. É bizarro que o jogo apresente tantos problemas no console da Nintendo sendo desenvolvido originalmente visando-o como plataforma principal. 

Aliás, não dá para entender como o Switch pena em rodar um jogo tão simples como este, seja ele port ou não. A despeito de muitos elementos no cenário, o console da Nintendo já mostrou que aguenta títulos muito mais encorpados e com visuais mais complexos do que essa estética característica que fede a mobile. Não que a escolha dessa identidade visual seja um demérito, principalmente porque ela está anos-luz à frente dos Buddy Poke do remake de Friends of Mineral Town. 




O único questionamento que fica está na maneira como os controles do teclado foram um pouco mal mapeados, mas acredito até que o jogador esteja saindo no lucro, visto que No More Heroes, por exemplo, nem suporte ao teclado teve. 

Menos fazenda, mais construção

No balanço final, Story of Seasons: Pioneers of Olive Town está um pouco longe de atingir sua plenitude como protagonista de um gênero, mas segue no caminho certo. Em termos técnicos, seu maior mérito está no gameplay, especialmente por conta dos elementos de crafting, embora ainda tenha se prejudicado demais na ambientação, narrativa e atmosfera de jogo. 




Ainda assim, a comparação quase sempre constante com Stardew Valley é cansativa, batida e até descabida. Historicamente, Harvest Moon e Story of Seasons sempre foram mais contidos, ao contrário do popular simulador indie 2D. A ideia é justamente ser mais amigável e menos intimidador por conta das toneladas de conteúdo em constante expansão. Contudo, talvez seja uma boa ideia se a Marvelous decidisse parar de se sustentar na força da marca sozinha para começar a trabalhar em títulos mais orgânicos e que transmitam menos uma sensação de caça-níqueis feitos a toque de caixa, que apregoam uma impressão de jogo mobile cujo único intuito é o manter a franquia “viva”.

Prós:

  • Encorpado sistema de crafting;
  • Personalização da fazenda;
  • Sistema de missões diárias e de conquistas internas bem implementado;
  • Evolução das habilidades dos personagens funciona de forma orgânica e convincente;
  • Port bastante competente.

Contras 

  • Mapa de Olive Town carece de planejamento e de diversidade exploratória;
  • Maior parte dos personagens não tem carisma algum;
  • Algumas decisões artísticas bastante questionáveis (como ausência dos retratos dos personagens).
Story of Seasons: Pioneers of Olive Town — PC — Nota: 7.5
Revisão: Thais Santos
Análise produzida com cópia digital cedida pela XSEED Games

É jornalista formado pelo Mackenzie e pós-graduado em teoria da comunicação (como se isso significasse alguma coisa) pela Cásper Líbero. Tem um blog particular onde escreve um monte de groselha e também é autor de Comunicação Eletrônica, (mais um) livro que aborda história dos games, mas sob a perspectiva da cultura e da comunicação.


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