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Análise: Lost Judgment (Multi) é um intrigante retorno que faz jus ao legado da série Yakuza

Takayuki Yagami retorna nessa sequência que consegue corrigir quase todos os problemas dos antecessores ao mesmo tempo em que tropeça nas novidades.

Yakuza: Like a Dragon (Multi), a sétima entrada da cada vez mais popular série de simulação caricatural da máfia japonesa, chegou para abalar todos os paradigmas da franquia Yakuza. Promovendo uma reestruturação completa de jogabilidade, o título protagonizado por Ichiban Kasuga abandonou a estrutura de beat’em up que ajudou a consolidar a IP e abraçou a ideia de se tornar um autêntico JRPG. 


Essa revitalização foi bastante oportunista para Judgment (Multi), um spin-off lançado em 2019, ainda antes de Like a Dragon, e que carregava o mesmo estilo de gameplay frenético da marca principal até aquele momento. Assim, com o derradeiro lançamento de sua sequência, Lost Judgment (Multi), Takayuki Yagami, o herói de ambos os jogos, se torna uma espécie de sucessor moral que carrega o espírito da porradaria de Kazuma Kiryu deixou para trás ao abdicar o posto de protagonista. Aliás, adiantamos: ela ficou em boas mãos.



Uma história sobre vingança, punição, bullying e porradaria — não necessariamente nessa ordem

Enquanto Yakuza, como o nome bem denuncia, geralmente tem como foco central as atividades praticadas pela famigerada máfia japonesa, Judgment está do outro lado da balança da justiça: Yagami é um ex-advogado que atua como investigador particular junto do ex-yakuza Masaharu Kaito no bairro de Kamurocho (uma reconstrução ficcional do bairro de Kabukichou). Tanto no original quanto na sequência, a dupla acaba se enveredando por uma trama muito mais complexa do que originalmente se previa. 

Em Lost Judgment, tudo começa com um simples pedido de auxílio em uma investigação de um caso de bullying que foi solicitado por uma escola em Isezaki Ijincho, inspirado em Isezakichou, em Yokohama. Paralelamente, um corpo em estado de decomposição é descoberto em uma construção abandonada na mesma cidade. O pior: o indivíduo que reclama a autoria do crime, na verdade, tinha acabado de ser condenado por assédio sexual cometido a quilômetros de tal cadáver. Assim, cabe a Yagami desenrolar o fio deste mistério que implica um homem cometendo dois crimes diferentes em dois lugares diferentes ao mesmo tempo. A história vai se complicando cada vez mais quando fica claro que o caso de bullying que ele foi chamado para resolver está, na verdade, interligado com tais ocorrências.




A questão é que Ehara, o acusado pelo abuso, tinha um filho que cometeu suicídio justamente por causa de bullying. A justiça japonesa, que ele tanto acreditava quando pertencia à força de polícia, se mostrou ineficaz em esclarecer a situação, jogando o caso para baixo do tapete. Decepcionado com a situação, ele foi cooptado e convencido a orquestrar uma complexa vingança a fim de desmoralizar o sistema judiciário do Japão — e cabe a Yagami desmascarar não só Ehara, mas também as outras forças envolvidas, principalmente porque a crise também diz respeito à agência de advocacia pela qual ele costumava atuar quando exercia a profissão. 

Desta forma, a aventura se divide em três palcos principais: Kamurocho, Ijincho e o Colégio Seiryo, onde o detetive precisou se infiltrar para conseguir coletar as pistas com maior facilidade. Como seria muito esquisito um adulto de quase quarenta anos ficar circulando pelo local em meio a tantos adolescentes, ele conseguiu uma vaga como consultor do clube de mistério, por onde uma linha de narrativa secundária acaba se desenrolando em volta do declínio moral e psicológico dos estudantes, visto que tudo parece obra de uma misteriosa entidade. 




O “Professor”, como é chamado, opera um site na dark web no qual os jovens acabam sendo estimulados a seguir pelo mau caminho. No intuito de trazer de volta aqueles que foram corrompidos, Yagami precisa se infiltrar nos diversos clubes estudantis e resgatar a honra e o bom nome do colégio e dos adolescentes. Esse tipo de corrupção vai desde casos em que as jovens se tornam sugar babies, que são imoralmente bancadas por homens mais velhos, a financiamentos ilegais para o clube de robótica. 

Na prática, todas essas atividades paralelas acerca do Professor são as chamadas School Stories e são compostas basicamente de minigames próprios, como corridas de skate, batalha de robôs, jogo rítmico para o clube de dança, clube de fotografia e outros. Elas vão sendo desbloqueadas à medida que o jogador completa e avança nas já disponíveis, melhorando quatro atributos distintos (teamwork, focus, guts e appeal). 



Brincando de detetive 

Uma das principais características da IP é a maneira como ela tem uma jogabilidade incrivelmente diversa. Situando-se em uma espécie de mundo aberto — no caso, Kamurocho, Ijincho e a escola —, o jogador pode se envolver em uma infinidade incrível de atividades extras e missões paralelas disponíveis e que servem como um respiro dos momentos quase constantes de porradaria contra os inimigos que insistem em impedir que Yagami faça suas descobertas.

Nos combates, além das duas posturas diferentes — a da Garça, eficaz contra grupos de oponentes, e a do Tigre, eficiente contra inimigos individuais — Yagami desenvolveu um estilo próprio que ele chamou de Cobra, que traz como enfoque um estilo reativo e focado em contra-ataques. Tal modalidade é especialmente útil contra inimigos armados e quando se está com pouca vida, quando investidas agressivas normalmente seriam inconsequentes e resultando na derrota do jogador. 




As técnicas também foram bastante simplificadas em relação ao antecessor, sendo que algumas delas que envolvem os quicktime events foram reduzidas em prol de simplificar a jogabilidade e equilibrar a inclusão da nova postura. Pontualmente, também é possível desbloquear técnicas especiais que diversificam as ações nos conflitos e ainda há o Ex Boost, um power up em que Yagami fica mais forte, mais rápido e consegue executar uma gama maior de movimentos avassaladores contra os inimigos. 

Outro ponto, possivelmente incorporado dos elementos de RPG de Like a Dragon, é a possibilidade de acoplar em Yagami equipamentos que fornecem bônus passivos, como aumento da defesa ou diminuição do tempo de certos status. Entretanto, o aprimoramento que tais itens trazem é pouco compensatório, provavelmente como uma maneira de evitar que o personagem se torne desproporcionalmente desequilibrado em comparação aos seus inimigos. Dessa forma, a impressão que fica é que a nova característica foi aquém ao que ela realmente poderia entregar, visto que dá para prosseguir por todo o game sem se preocupar com ela. 




Um dos sistemas que chegou quase todo reformulado, muito provavelmente após o feedback recebido em relação ao jogo anterior, é o de stealth. O modo foi expandido e, em vez de apenas seguir alguém na espreita, ele envolve algumas mecânicas que lembram vagamente as de Assassin’s Creed, como se esgueirar por certos lugares sem ser visto, usando bombas e fumaça e moedas para chamar a atenção dos vigias ao ponto de Yagami poder até mesmo nocauteá-los. Pontualmente, tais sessões também exigem uso de parkour, igualmente usado para entrar em construções de maneiras alternativas. Enquanto o stealth em si foi pouco utilizado e não fez tanta falta, os momentos de parkour poderiam ser maiores e ocorrer com maior frequência, embora bem que merecessem melhor regulação no intuito de se tornarem mais ágeis e menos rudimentares.

Falando em agilidade, o sistema de perseguição também está de volta. Nele, Yagami geralmente corre por um percurso on rails (em trilhos, o que normalmente significa que o jogador não tem controle pelo caminho percorrido) em que precisa alcançar algum fugitivo. Enquanto no primeiro era necessário simplesmente diminuir a distância e esquivar dos obstáculos até chegar no alvo, aqui existe uma espécie de um medidor de vida — ou melhor, de energia. Quando ela chega ao fim, o nosso objetivo acaba parando para descansar e é aí que entra o bote para pegá-lo. É claro que existem mecanismos para facilitar: alguns dos obstáculos podem ser chutados em direção ao alvo, colaborando no consumo da barra de saúde. 




A melhor das implementações, no entanto, é a possibilidade de percorrer Ijincho de skate, uma vez que foi sentida a dificuldade que era percorrer o mapa a pé, especialmente por Ijincho ser três vezes maior do que Kamurocho. Ainda, não basta ser útil, ele também é incrivelmente divertido e rendeu dois minigames atrelados às School Stories, o park, com as rampas e corrimões, cujas manobras rendem pontos, e o de corrida. 

O lado detetive de Lost Judgment é mais evidente se comparado ao seu antecessor. Afinal, isso passa diretamente pelo fato de que uma das principais características desse tipo de investigador é a possibilidade de utilizar gadgets diversos, não disponíveis no primeiro game. Assim, em adição ao retorno do drone de investigação (e que pode ser utilizado para participar de corridas pelo distrito), Yagami conta com um receptor de sinal e um amplificador sonoro, além de um gracioso cãozinho farejador. Novamente, é um jeito de trazer variedade às sequências de “investigue o local do crime”, que também eram simplórias e, quiçá, maçantes. 



Voltar à escola é realmente tão tedioso quanto pode soar

De um modo geral, Lost Judgment tende a acertar demais onde errou no primeiro game, principalmente no que diz respeito ao ritmo tanto da narrativa quanto de jogabilidade. Entretanto, o calcanhar de Aquiles nesse aspecto recai justamente em uma das principais novidades e um de seus destaques: o colégio Seiryo. 

Embora ele traga um leque considerável de missões paralelas que se entrelaçam, bem como os minigames atrelados a elas, o mapa do colégio em si não vai além de um grande elefante branco que só serve para espalhar as School Stories de maneira espacial. Isso não seria exatamente um problema se a escola não fosse um mapa completamente à parte de Ijincho, sendo que, para entrar nela, é necessário passar por mais uma tela de carregamento (que estão melhores se comparadas às do jogo anterior, mas uma tela de loading ainda é uma tela de loading). 




Considerando que várias das atividades só são liberadas quando você completa as já disponíveis, a impressão que fica é que toda essa linha narrativa paralela mais serve para travar a progressão do que de fato imergir nela. A evolução dos quatro atributos de relacionamento com os alunos é lenta e desinteressante e a sensação que provoca em nós, jogadores, é que estamos velhos demais para nos envolver com esse dramalhão adolescente bobo.

Além disso, na prática, as School Stories não são diferentes das missões paralelas comuns na IP, só que com a temática colegial. Tais sub stories normalmente apareciam aleatoriamente no mapa e podiam ser aceitas a qualquer momento em que estivessem disponíveis, mas no caso de Lost Judgment, elas precisam ser desbloqueadas ao fuçar os trending topics nas redes sociais e escutar as conversas dos transeuntes. 




Ao mesmo tempo em que tal estrutura, novamente, transmite uma impressão de extensão artificial, uma espécie de tentativa de trazer realismo, mas que acaba prejudicando o fator de gameplay, ela também funciona positivamente para aqueles que têm alguma espécie de fixação por completar toda e qualquer missão paralela que esteja disponível antes de prosseguir na campanha principal — falando por experiência. Afinal, se você precisa desbloquear alguma missão, ela não está exatamente disponível, não é? Assim, ela também não segura esse tipo de jogador, que consegue prosseguir de um jeito mais direto. Independentemente disso, ainda se trata de um bloqueio bastante incômodo de conteúdo.

Outro aspecto controverso e que, por bem, recebeu menos destaque em Lost Judgment é o sistema de namoro. No primeiro game, Yagami poderia ter várias namoradas em paralelo, cada uma correspondendo a uma espécie de enredo diferente cuja estrutura era similar ao de um dating sim. Nesta sequência, a mecânica ficou praticamente restrita ao DLC, sendo que o único interesse amoroso presente na versão base é Emily Mochizuki — e que também está atrelada às School Stories, mas não se preocupe: ela não é uma das estudantes.




Tocando nesse ponto e trazendo um parêntese aqui, chega a ser um pouco chocante ver Yagami tendo que encher de porrada — e não só uma vez — um bando de adolescentes. É claro que a turma à qual eles pertencem não é exatamente flor que se cheire, só que essa abordagem controversa se estende à própria história, que toma algumas decisões questionáveis em relação à maneira como trata certos temas espinhosos da sociedade não só japonesa, mas de todo o mundo civilizado moderno. 

Bom, como um todo, essa alternância entre três mapas principais, somada ao fato de ser necessário desbloquear as atividades paralelas, passa uma impressão superficial de que Lost Judgment é um jogo vazio, visto que são menos tarefas e missões espalhadas em territórios amplos. A sensação de vazio já era presente em Yakuza: Like a Dragon, pelo simples fato de que Ijincho é mais espaçosa por si só — e menos visualmente poluída —, acabou se estendendo. 




Um adendo: Kamurocho ficou claramente escanteada no que diz respeito à quantidade de conteúdo presente. Considerando quem acabou de jogar Like a Dragon, essa preferência de Ijincho acabou ficando bastante saturada, perdendo a oportunidade de alternar de maneira bem mais equilibrada em comparação ao resultado final. 

Ainda comparando com Like a Dragon, é um pouco decepcionante que Lost Judgment não tenha sido localizado para o português, especificamente porque a aventura protagonizada por Ichiban ficou incrível no nosso idioma, com um trabalho magistral de tradução. Sim, é compreensível que o game não tenha recebido tal tratamento no Brasil justamente por ser de menor proporção e uma produção relativamente simples se comparada a alguma entrada da linha principal, mas nada impede que esse questionamento seja feito, especialmente se ele servir como referência para trabalhos futuros. 



É como assistir a um seriado policial

Tecnicamente falando, Lost Judgment roda muito melhor do que o primeiro game (ao menos no PlayStation 4, cuja versão foi utilizada para a produção desta análise). As travadinhas ocasionais são menos incomuns, a taxa de quadros se mostrou estável e as telas de carregamento, como já comentado, parecem ser levemente mais ágeis. Novamente, o estilo gráfico é igual desde o começo da série na oitava geração de consoles. Ele é bem bonito e até impressiona quem é recém-chegado à franquia, mas não traz nada realmente diferenciado e chega até a saturar rápido. 

O maior mérito estético está na identidade visual do game, trazendo um pouco de paranoia narrativa ao mesmo tempo em que remete aos doramas, particularmente por conta do visual fotorrealista utilizado. A atmosfera de thrillers policiais, de mistério e de suspense, também é bastante interessante e consegue se desvincular de uma forma bem contrastante da galhofa que é Yakuza, principalmente por seus temas mais densos.

Há algumas utilidades práticas de interface que se mostraram úteis, como a possibilidade de apertar o botão de pause em uma cutscene para reler os diálogos que já passaram. O mesmo se aplica às próprias cinemáticas, que podem ser acessadas e revistas a partir da tela de introdução. Por fim, há o The Gauntlet, também disponível pelo menu principal, e consiste em várias missões com dificuldade elevada e sob condições específicas para aqueles que estejam atrás de maiores desafios, além de um modo de dois jogadores para vários minijogos de Arcade e de Master System.



Derivativo? Sim. Esforçado? Também. Valeu a pena? Com certeza.

Lost Judgment é um game competentemente interessante. Com uma história bastante intrigante e que cutuca (nem sempre com sucesso) várias das feridas da sociedade japonesa moderna, ele consegue corrigir a maioria dos defeitos do primeiro título ao passo que simultaneamente traz novidades, estas com seus próprios e inéditos problemas. Essa situação é corriqueira no mercado e constantemente vista em franquias que se mostram em constante evolução: encontram soluções para seus empecilhos ao mesmo tempo em que tentam ousar sem medo de errar. 

Ademais, trata-se de um produto de excelência técnica e com a qualidade sublime tão característica do estúdio Ryu Ga Gotoku, responsável pela marca. Não se trata de nenhuma obra-prima, só que ainda carrega muito estilo, identidade própria — sempre à sombra da série principal, mas fazendo esforço para conseguir se desvincular — e, o mais importante: é incrivelmente divertido. 

Prós

  • Jogabilidade diversa em mecânicas;
  • Sistema de combate ainda mais fluido e dinâmico;
  • Consegue ser uma evolução natural do primeiro game, corrigindo vários dos defeitos;
  • Atuações de primeira linha;
  • Adição do skate muito bem-vinda;
  • Bem-otimizado tecnicamente.

Contras

  • Colégio Seiryo é um elefante branco;
  • Tempo de duração estendido artificialmente;
  • Necessidade de desbloquear a maioria das missões;
  • Decisões questionáveis ao abordar certos temas considerados tabu;
  • Falta de equilíbrio entre Ijincho, Kamurocho e o Colégio Seiryo;
  • Novidades são rudimentares ou mal implementadas.
Lost Judgment — PS4/PS5/XBO/XSX — Nota: 8.0
Versão utilizada para análise: PlayStation 4
Revisão: Juliana Paiva Zapparoli
Análise produzida com cópia digital cedida pela Sega

É jornalista formado pelo Mackenzie e pós-graduado em teoria da comunicação (como se isso significasse alguma coisa) pela Cásper Líbero. Tem um blog particular onde escreve um monte de groselha e também é autor de Comunicação Eletrônica, (mais um) livro que aborda história dos games, mas sob a perspectiva da cultura e da comunicação.


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