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Análise: Wolfstride (PC) é um surpreendente RPG brasileiro de luta de mechas com muito estilo e personalidade

Um estiloso e criativo mangá jogável.

Wolfstride
é um curioso RPG brasileiro estratégico de luta de robôs gigantes, mas possui elementos tão variados que fica difícil classificá-lo em um gênero. O game design é extremamente original, e cheio de loucuras criativas das quais não devem nada a designers famosos como Yoko Taro ou Suda 51. Mais que um jogo estratégico sobre lutas de robôs, é uma aventura sobre lealdade e amizade com muita criatividade e humor.

A herança dos ex-criminosos

Wolfstride conta a história de três parceiros de crime que herdam um robô de combate chamado Cowboy, que a princípio é só um amontoado de sucata, mas parece ter algo especial. Precisando levantar um dinheiro, o trio resolve montar uma equipe no esporte mais popular do mundo, as lutas de mechas gigantes.

Shade é um ex-yakuza que atua como o faz-tudo da equipe. É ele quem consegue os recursos para comprar peças, treinar o piloto e fazer negócios com os outros NPCs da cidade. Malandro, mas de bom coração, ele procura resolver os problemas das pessoas que encontra em suas andanças. Além disso, faz um omelete sensacional. 

Knife Leopard é o piloto, um rapaz extremamente entusiasmado que adora o Cowboy. Ele é super otimista e empolgado pelas lutas, e está aqui mais pela diversão do que pelo dinheiro. É incansável e sempre disposto a treinar, mas não tem muita noção do perigo.

Duque, o cão, é o rabugento mecânico da equipe. Ele não é muito bom em mecânica, mas pelo menos faz o serviço de graça. O hangar é seu território, onde passa a maior parte do tempo, quando não está no bar. Ele precisa desesperadamente conseguir dinheiro para sua mãe.

Um esporte de combate

O gameplay desse RPG é dividido em duas fases: os combates e o gerenciamento. As lutas são a atividade principal, com maior ação e também a parte mais divertida do jogo. O combate acontece em uma espécie de jogo de tabuleiro unidimensional, com sete casas na horizontal. A ação acontece por turnos, em que o jogador pode movimentar-se, atacar, adotar uma postura defensiva ou fazer reparos. O número de ações é determinado pela sua quantidade de MP (pontos de movimento) e AP (pontos de ação). Esses atributos podem ser modificados trocando as peças do mecha.

Algumas casas da arena dão pontos de vantagem ou desvantagem para quem estiver sobre elas, implicando que a posição dos robôs é parte importante da estratégia. Os lutadores têm uma limitação de movimentos por turno e podem empurrar o oponente gastando um ponto de movimento extra. Alguns ataques também podem empurrar o oponente para longe, e tudo isso deve ser levado em conta. Aquele que encurralar seu oponente na última casa da arena recebe um bônus massivo de dano. O sistema mostra-se surpreendentemente complexo e divertido, apesar da aparência simples. 

Os robôs podem ser atingidos em quatro partes: cabeça, peitoral, braço direito e braço esquerdo. O nocaute acontece quando destruímos o peitoral do adversário. Pode parecer que a melhor estratégia seja sempre mirar nessa área, mas muitas vezes é melhor mirar em outras partes, menos blindadas, para desabilitar funções importantes do oponente, sendo cada uma delas responsável por uma função.

A cabeça é responsável pelo sistema de mira (sem ela não podemos escolher em que lugar do oponente vamos bater) e os braços são os responsáveis pelos ataques e defesas. Em uma das lutas, contra um lutador especialista em combate corpo-a-corpo, eu destruí primeiro os frágeis braços do oponente, impossibilitando-o de atacar e se defender. Se focasse no peitoral, muito mais blindado, teria sido aniquilado.

Além da estratégia durante o combate, há uma parte de gerenciamento, na qual escolhemos as melhores peças para montar o robô e as melhores habilidades para equipar o piloto. Mudar as combinações levando em conta as características do próximo oponente dá realmente aquela sensação de preparação que vemos em esportes de combate, o que é muito legal, além de adicionar uma camada estratégica de gerenciamento muito interessante.

Vivendo de bicos

Nos intervalos entre as batalhas, jogamos a parte do gerenciamento, em que é possível fazer diversas atividades, como visitar certas áreas da cidade e interagir com NPCs, ouvindo seus problemas e resolvendo-os. Muitos desses problemas abrem sidequests, como fazer um exorcismo em uma garota, consertar a jukebox do bar ou fazer um omelete pra equipe.

Outras atividades envolvem trabalhos, que Shade pode fazer para levantar uma grana com o intuito de comprar upgrades para bancar peças para o robô e treinamento para o piloto. Esses trabalhos estão mais para bicos, como fazer entregas de bicicleta, dar banho em gatos ou cavar entulho no lixão. Na prática, esses bicos são minigames curtos que recompensam o jogador com dinheiro e itens. Também há outras formas de obter dinheiro, como por exemplo, investir em um fliperama à beira da falência para obter retorno com os lucros.


O maior problema de Wolfstride é seu ritmo. Algumas vezes precisamos comprar uma melhoria para o robô e isso implicará em muito grind nos minigames, o que depois de um tempo torna-se chato e repetitivo. Prepare-se também para ler muito texto - muito mesmo! As histórias dos NPCs são legais, contadas em diálogos misteriosos e divertidos, mas é muita coisa para se ler entre as lutas, o que quebra bastante o andamento da aventura. 

O jogador fica ansioso pela próxima batalha, mas para isso acontecer é necessário passar por pequenas tarefas obrigatórias banais como buscar objetos ou falar com NPCs pela cidade, o que torna o desenrolar do jogo excessivamente lento.

Preto e branco

Wolfstride foi desenvolvido por uma equipe de brasileiros com daltonismo do estúdio Ota Imon. O visual ousado e em preto e branco lembra bastante um mangá, misturando pixel art com desenhos digitais mais elaborados, mas tudo com muita personalidade e, assim como no gameplay, faz um mix de estilos que resultou em um produto único e original.

O senso de humor permeia todo o jogo, desde os nomes engraçados das partes mecânicas do robô, passando pelos minigames e até o nome da moeda usada nesse mundo, a Real Dollars (RD$). Algumas piadinhas são especificamente voltadas para brasileiros.


A música acompanha perfeitamente cada momento do jogo, sendo empolgante nos combates, divertida nos momentos absurdos e tocante nas cenas com maior profundidade sentimental. Todos os diálogos são dublados em inglês, com excelente interpretação dos atores. O jogo possui localização para diversos idiomas, incluindo português brasileiro, idioma que eu recomendo para você não perder nenhuma das piadas.

Roda até nessa lata velha!

As especificações mínimas no Steam pedem um hardware relativamente parrudo para um indie: Windows 10, processador i5-7400 ou Ryzen 3-1200, placa de vídeo GTX 1050ti e 8GB de RAM. Já as especificações que aparecem na Epic Store são bem mais modestas: Windows 7, processador i3-8100, 4 GB de memória.

Eu consegui rodar o RPG em um notebook de 2017 que, honestamente, não é muito melhor que o velho robô de combate do nosso trio: processador i3-8100, 4GB de RAM e placa de vídeo integrada. Consegui jogar numa boa, demonstrando que as especificações na Epic Store estão mais alinhadas com a realidade.



Um socão na cara

Wolfstride chama a atenção por ser um jogo único e extremamente exótico, cheio de estilo e personalidade. Os personagens marcantes entregam momentos únicos, que são apresentados com uma ótima direção de arte em um mix de estilo retrô e mangá, embalados por uma boa trilha sonora que combina perfeitamente com o clima. Apesar de ter alguns problemas de ritmo, é um jogo extremamente divertido, especialmente nas partes de combate, e uma experiência surpreendente, digna dos jogos cheios de loucura dos melhores game designers japoneses.

Prós

  • Game design surpreendente;
  • Cheio de estilo;
  • Personagens marcantes;
  • Senso de humor afiado;
  • Roda em hardwares modestos.

Contras

  • Ritmo lento demais;
  • Grinding repetitivo nos minigames.
Wolfstride - PC - Nota: 8.0
Revisão: Felipe Fina Franco
Análise produzida com cópia digital cedida pela Raw Fury

é engenheiro eletrônico e tem uma filha fofinha que tenta morder os controles do papai. Curte jogos de luta, corrida e ação.


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