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Análise: Pathway (PC) traz estratégia e aventura no deserto

Controle grupos de aventureiros por jornadas que combinam RPG, administração de recursos e combate tático.


Jogar Pathway me fez sentir que eu estava dentro de um daqueles filmes de aventura da década de 1990. Na companhia de diferentes personagens, exploramos uma imensa região desértica no norte da África repleta de ruínas, tumbas, vilas e outros mistérios em um jogo que mescla vários conceitos, como RPG e administração. Esses detalhes, em combinação com uma ambientação charmosa e muito conteúdo, me incentivaram a explorar o mundo de Pathway várias vezes.

Desbravando um deserto perigoso

Pathway é um jogo de várias histórias. Em cada uma das cinco campanhas, montamos um grupo de heróis que precisa realizar algum objetivo, como salvar um amigo capturado ou impedir que vilões coloquem as mãos em poderosos artefatos antigos. Todas as aventuras se passam na década de 1930, em uma África do Norte tomada por soldados nazistas, fanáticos de cultos estranhos e muitos outros mistérios.

As campanhas são representadas na forma de um mapa com vários pontos de parada, e o objetivo é sempre chegar a algum local distante. Cada um dos espaços conta com um evento capaz de influenciar a jornada: tumbas e obeliscos que podem ser explorados em busca de tesouros, acampamentos nazistas perigosos, vilas com mercados em que podemos comprar itens, e mais. Boa parte dos eventos é selecionada de maneira aleatória, o que faz com que as jornadas sejam sempre diferentes.


O deserto é um local difícil de explorar e com poucos recursos, logo é essencial estratégia e planejamento para conseguir chegar aos objetivos. Cada movimento no mapa consome combustível do veículo, e ficar sem gasolina significa andar na areia, o que drena a vida dos personagens. Sendo assim, precisamos pensar com cuidado as rotas para tentar conseguir combustível pelo caminho. Bandagens, munição e outros itens de sobrevivência também são escassos, logo conseguir administrar os recursos é crucial para sobreviver.

Ser derrotado em Pathway tem consequências pequenas, pois os itens, dinheiro e experiência são mantidos entre as várias tentativas de vencer as campanhas. O único revés é que os personagens nocauteados não podem ser utilizados na próxima aventura (a não ser que você pague os caríssimos cuidados médicos). Com isso, as jornadas subsequentes ficam um pouco mais fáceis, afinal já as iniciamos com alguns recursos. Mas não se engane: mesmo com essa progressão, completar os desafios de Pathway não é tarefa fácil. De qualquer maneira, é possível aumentar ou diminuir livremente a dificuldade.


Atirando e se escondendo no combate

Às vezes encontramos grupos de soldados nazistas, zumbis e fanáticos que precisam ser derrotados em combate. As batalhas de Pathway são por turnos e acontecem em cenários divididos por uma grade. Nos turnos, cada herói pode realizar duas ações em qualquer ordem, como atacar, mover ou ativar habilidades especiais. Utilizar armas de fogo é a principal forma de ataque e os estágios contam com paredes, barricadas e outros objetos que servem como proteção. Logo, para se dar bem nas batalhas, é importante ficar atento ao posicionamento dos personagens.

A posição dos heróis também é importante para conseguir enxergar os inimigos: os oponentes não aparecem nos mapas quando eles estão muito distantes ou atrás de obstáculos. Isso nos força a não ficar sempre escondido atrás de alguma barreira de proteção, afinal é impossível derrotar oponentes que você não consegue ver. A questão é que o jogo não comunica essa mecânica em nenhum momento, eu mesmo achei que acontecia alguma espécie de bug quando os inimigos simplesmente desapareciam. Além disso, falta clareza sobre o seu funcionamento — acredito que a adição de um elemento visual para indicar o campo de visão deixaria os combates mais precisos.


A variedade de estratégias vem dos talentos dos personagens, pois cada um deles consegue utilizar equipamentos específicos. Jackson, por exemplo, consegue usar fuzis, sendo uma boa opção para ataques a média distância. Já Brunhilda é uma mulher bruta capaz de dar muito dano com facas, além de resistir melhor às investidas inimigas por ter muita vida. Omar é versátil e usa vários tipos de armas, porém seus atributos de defesa e esquiva são menores. Baron é um sniper especializado em atirar de muito longe, contudo seu dano contra soldados nazista é reduzido por ser alemão. Há 16 personagens para descobrir em Pathway, o que traz muitas opções de estratégia.

Os aventureiros recebem experiência ao sobreviver aos perigos do mundo, o que permite alterar algumas de suas características. Além de poder aumentar certos atributos físicos, também podemos ensinar novos talentos que alteram de maneira significativa os heróis. Brunhilda só sabe usar facas, mas ao subir de nível pode aprender a manejar uma escopeta, o que a torna mais versátil; Jackson pode usar armaduras mais pesadas; Omar entende como lançar granadas; e assim por diante. O legal é que os heróis também ganham características de personalidade, o que abre opções de interação nos eventos das campanhas.


Os deslumbres e complicações das aventuras

O detalhe mais legal de Pathway é a impressão de estar de fato participando de uma expedição perigosa por um deserto deslumbrante. Isso é alcançado com a ambientação excelente, construída por meio do visual, música e elementos de interface. Os menus de inventários e personagens parecem mapas, fichas e cadernos de anotação exaustivamente utilizados, com clipes segurando fotos e partes de papel. O visual utiliza pixel art charmoso que remete à era 16-bits, com efeitos de iluminação realistas trazem identidade ao mundo. Por fim, uma trilha sonora com composições que remetem a filmes de aventura complementa a ótima construção de mundo de Pathway.

A sensação de desbravamento se mantém durante as campanhas, mesmo que elas tenham alguns problemas. É divertido participar de eventos curiosos, como investigar um estranho monólito negro, explorar catacumbas (com direito a tradicional fuga de uma pedra gigante e tudo mais) e resgatar reféns. No entanto, as jornadas são meio limitadas: em sua essência elas são basicamente iguais, o que muda mesmo é o tamanho do mapa e o tema de boa parte dos acontecimentos. Para piorar, muitos dos eventos menores são insignificantes ou se repetem, o que trouxe a sensação de que as campanhas eram bem parecidas.

O conceito de administração de recursos é interessante, mas sinto que faltou um pouco de desenvolvimento nesse aspecto. Os mapas são grandes e com vários pontos de evento e, na teoria, você tentaria explorar diferentes rotas. No entanto, na prática o melhor é sempre tentar ir pelo caminho mais curto. Isso pois a gasolina é extremamente limitada e a maioria dos tipos de eventos é oculta, o que elimina o aspecto tático — para que gastar combustível para desviar da rota para talvez acabar num evento inútil ou com revés? Acredito que seria mais interessante mostrar os tipos de alguns eventos para trazer mais estratégia à exploração. Mas, mesmo assim, é um desafio e tanto conseguir chegar no final das campanhas, principalmente a partir da terceira. Quanto mais longa a campanha, mais o aspecto de administração de recursos fica aparente, e me diverti bastante tentando sobreviver e encontrar novos personagens ou itens.

Já o combate parece bem básico e fácil, porém as coisas ficam bem complicadas a partir da terceira campanha: a quantidade de inimigos aumenta e tudo fica mais difícil. Fui forçado a pensar com cuidado como montar minha equipe e o que usar como equipamento, além de atenção redobrada com o posicionamento durante as batalhas. Infelizmente a variedade de inimigos é pequena, o que permite repetir certas táticas com sucesso. Outra questão que incomoda são algumas mecânicas de combate, que não são explicadas em canto algum, como a questão do campo de visão e a possibilidade de se esconder atrás de uma parede e atacar mesmo assim.


Uma jornada fascinante

Pathway me conquistou com sua ótima ambientação, que remete aos filmes de aventura e exploração da década de 1990. O jogo usa elementos de adventures, RPG e administração de recursos para criar uma experiência intrigante, seja resolvendo eventos no deserto, seja no combate tático. Um visual em pixel art com iluminação dinâmica e uma trilha sonora com tom aventureiro contribuem para fortalecer a ambientação nostálgica. De negativo, existem problemas nas mecânicas e no balanceamento de certos elementos que atrapalham a experiência e trazem um pouco de repetitividade. No fim, Pathway se revela um jogo muito criativo e capaz de agradar aqueles atrás de estratégia.

Prós

  • Conceito principal ímpar que mistura administração de recursos, elementos de RPG e aspectos aleatórios;
  • Muitos personagens diferentes para encontrar e controlar;
  • Ambientação e visual bem produzidos;
  • Boa quantidade de itens e personagens desbloqueáveis.

Contras

  • Combate com variedade reduzida de inimigos pode ser repetitivo;
  • Campanhas estruturalmente idênticas e com eventos muito similares;
  • Algumas mecânicas mal explicadas ou com problemas de clareza.
Pathway — PC — Nota: 8.0
Revisão: Diogo Mendes
Análise produzida com cópia digital cedida pela Chucklefish


é brasiliense e gosta de explorar games obscuros e pouco conhecidos. Fã de Yoko Shimomura, Yuzo Koshiro e Masashi Hamauzu, é apreciador de boardgames, game music, fotografia e livros. Além de mostrar seus cliques no Flickr, tem também um blog onde escreve sobre inúmeros assuntos e também pode ser encontrado no Twitter.

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