Jogamos

Never Alone (Multi) é uma sensível aventura pela cultura Iñupiat

O jogo da Upper One Games convida os jogadores a conhecerem a vida no Alaska e participar de uma aventura singela e bonita.

Você consegue imaginar como é acordar em um lugar muito frio, sair de casa e enxergar mais de cem tons de branco? Como é enfrentar nevascas violentas e sobreviver em meio a um dos lugares possivelmente mais inóspitos do mundo? Como é, enfim, viver junto a um grupo de pessoas com perspectivas completamente diferentes da sua? Não, assim como eu, você não consegue, mas graças a Never Alone (Kisima Innitchuna) podemos entrar em contato, mesmo que rapidamente, com a vida e a cultura de um povo que vive lá no Alaska, e com uma boa dose de sensibilidade aprender um pouco com eles. O simpático título produzido pela Upper One Games é um belo meio de se contar uma história da cultura Iñupiat, e, ao mesmo tempo, um jogo competente.


Certa vez, houve uma nevasca tão forte que as pessoas da vila tiveram que se esconder nas casas. Presos e impossibilitados de caçar, a fome começou a se tornar um problema. Uma pequena garota, Nuna, resolveu então sair de casa e descobrir a origem de tal nevasca que insistia em não terminar. Esse é o acontecimento que dá início ao jogo, bem como uma lenda do povo Iñupiat. A Upper One Games é a primeira companhia de jogos eletrônicos cujos donos são indígenas. Sua proposta é justamente realizar games ao lado do povo nativo do Alaska. Mais de 40 contadores de história e "elders" contribuíram com o desenvolvimento do jogo. Ao longo dele, não só tal lenda nos é contada, como podemos entrar em contato com a mitologia e a cultura desse povo.
Em certos momentos a história é contada com um estilo influenciado pelas imagens da cultura Iñupiat

A menina e a raposa

Logo no início do jogo, a menina Nuna conhece seu fiel companheiro: uma raposa do ártico. Além de realmente ser um animal típico da região, foi uma bela sacada colocar o animalzinho no título: ele é um personagem controlável com características e habilidades diferentes das da garota, de forma que eles se complementam para ultrapassar os desafios, e ainda por cima é uma raposinha do ártico, o nível de fofura e simpatia chega às alturas, dando um aspecto mais agradável e emocional ao jogo.

Enquanto a raposa pula mais longe e consegue escalar alguns trechos, Nuna consegue puxar caixas e utilizar a Bola (arma de arremesso). O animal, no entanto, se vale de uma mecânica ainda mais importante: ele consegue interagir com os espíritos. Apenas controlando ele é possível “acordá-los” e movê-los para que Nuna possa prosseguir. É necessário trocar constantemente de personagem para vencer os desafios, ou até mesmo jogar em dupla, o que é possível e um ponto positivo para o título.
Os dois companheiros de jornada.
Todavia, em alguns momentos os controles podem frustrar a jogatina, principalmente nas fases mais rápidas, quando precisamos interagir com espíritos, escalar certos lugares, e a resposta não é tão boa, levando até a reiniciar certos trechos porque você não encaixou no exato lugar pra poder escalar. Outro ponto que atrapalhou minha experiência com o jogo é a linearidade de seu design. Em 95% do game existe apenas uma maneira de se passar pelos estágios. Não existem caminhos alternativos, e nem maneira distintas de superar desafios e obstáculos.

Entretanto, a forma como interagimos com os espíritos dos animais e da natureza é bem interessante, e agrega um frescor ao título, além de ser importante do ponto de vista narrativo e visual, dada a relação com a cultura dos Iñupiat. As partes de plataforma são bem trabalhadas e nunca duram o suficiente para se tornarem repetitivas. Se em um momento lidamos com superfícies que não mudam, logo estaremos em cima de blocos de gelo que se partem, de partes em que deslizamos, nadando em águas geladas e por aí vai. E encarar neve, muita neve.
Os espíritos só conseguem ajudar quando a raposa está próxima a eles.
Importância de conhecer novas culturas
Ainda que por algum motivo alguém ache que conhecer, ou ate mesmo pesquisar, outras culturas seja algo inútil, tenha certeza que não é. Claude Lévi-Strauss, um famoso antropólogo, certa vez afirmou em uma entrevista o quão necessário é tentarmos conhecer outras formas de viver, se relacionar e pensar, novas maneiras para encararmos os desafios da nossa própria sociedade. Do alto de nossa tecnologia e evolução, ainda não sabemos como lidar com a natureza, como nos relacionar com os animais, como nos relacionar de forma saudável entre nós mesmos, etc.

É tanta neve que quase sentimos solidão

O aspecto visual do jogo casa muito bem com a história que está querendo contar. Não só por reconstruir cenários do ártico, mas sobretudo pela sensação do vento, da nevasca, de perigo e solidão que consegue passar. Nevasca, inclusive, utilizada para estilizar os gráficos e esconder possíveis problemas em cenários que acabam parecendo mais bonitos. O vento, por sua parte, é importante para certas sessões do jogo, visto que dependendo de sua direção os heróis podem aumentar a distância de seu pulo. Perigo que vem na forma de alguns adversários espalhados pelo jogo como animais e seres míticos.
Corre que o urso pega!
O título tem um bom ritmo, somos apresentados a diferentes espíritos e desafios aos poucos, que são misturados para ir diferenciando os estágios paulatinamente, até momentos em que é necessário passar rapidamente por um determinado trecho. Tal fluxo se dá em uma sinergia boa com a narrativa, visto que os pequenos encontros, e sobretudo o grande mistério da nevasca, instigam a prosseguir. A música do jogo é bem tímida, e na maioria dos momentos permanece ausente, justamente para dar a sensação que aquele é um lugar inóspito, ou pelo menos foi assim que captei esse aspecto.

E quando a gente está quase se sentido completamente sozinho naquele local adverso, encontramos uma coruja. Elas são os colecionáveis do jogo, e habilitam pequenos vídeos contando sobre diversos aspectos da cultura Iñupiat, com participação direta dos embaixadores culturais. É bem fácil e linear encontrar a maioria delas, mas algumas poucas estão fora do caminho principal da aventura. Os vídeos podem ser acessados logo que os encontramos, o que até poderia quebrar um pouco o fluxo da narrativa (e talvez até tenha quebrado para outros jogadores), mas as informações, imagens e histórias contidas neles sempre possuem ligação com o momento em que estamos do jogo. Não só isso, são belas intervenções com função de educar e aproximar o jogador da cultura retratada.

Nanook of the North
Para quem gostou da temática e quer saber mais sobre os povos do norte gelado do mundo, recomendo o filme Nanook of the North, de 1922. O filme, que não é nem documentário e nem ficção, mas as duas coisas ao mesmo tempo, acompanha a vida de Nanook e vai mostrando um pouco da vida de seu povo Inuk, que não é o mesmo grupo mostrado pelo jogo Never Alone, mas que vive em locais próximos e compartilha alguns traços culturais.

Nunca sozinhos

Never Alone é um título diferente que vale a pena ser jogado. É simpático e bonito visualmente, funciona, ainda que não se destaque, do ponto de vista dos levels e desafios, instiga pela história, educa e faz pensar através dos cultural insights. Dá para fináliza-lo em uma sentada, o jogo dura de 3 a 4 horas, e isso até pode ser visto por alguns como um problema, mas mesmo que o título não tenha lá muito fator replay, a experiência que proporciona é sólida e recompensadora, ficando na memória por um bom tempo.
Alguns espíritos preferem aprontar com a dupla ao invés de dar uma ajuda.
Nuna não está, e nunca estará sozinha. Não só porque é acompanhada pela raposa, mas também por todos os animais e a própria natureza. Porque faz parte de uma comunidade que vive conjuntamente, respeitando e relembrando seus ancestrais assim como qualquer tipo de vida, visto que ela é algo sagrado por surgir no meio do gelo. Ela também nos convida para esta história, para talvez aprendermos que também não precisamos estar sozinhos. Basta termos humildade para entender que fazemos parte de um mundo maior que nosso próprio umbigo, que nossa espécie não é a única que vive aqui e que somos parte da natureza.

Prós

  • Proposta diferente de utilizar os games para falar de outras culturas
  • Simpatia e competência na execução dos levels e personagens
  • Visual e narrativa bem construídos e imersivos
  • Cultural Insights
  • Possibilidade de se jogar individualmente ou em dupla

Contras

  • Em certos momentos os controles atrapalham
  • Alguns desafios são muito simples
  • É bastante linear em termos de design, mecânicas e desafios
Never Alone — PS4, Xbox One, PC — Upper One Games — Nota: 7.5
Versão utilizada para a análise: PS4.

Revisão: Alberto Canen
Capa: Daniel Serezane
Pedro Vicente é um homem sem qualidades. Para se esquecer das décadas de fracassos de sua vida real, resolveu passar parte do seu dia jogando. Iniciado nos games por Adventures e JRPGs, hoje em dia joga de tudo. Gosta muito de escrever sobre jogos, mas só dá nota 10 para games em que você pode dar Suplex em um trem.

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