Discussão

Por que Tibia (PC) é um dos MMO mais difíceis até hoje?

Tibia é um dos primeiros MMORPGs lançados e até hoje vicia uns e irrita outros, mas será que o seu nível de desafio supera até os jogos mais modernos?

Tibia é um MMORPG (RPG online para multidões) alemão lançado em 1997 por Stephan Börzsönyi, Ulrich Schlott e Stephan Vogler (que posteriormente fundariam a Cipsoft). O jogo foi uma revolução por trazer imagens e movimentos para um gênero que só continha textos na época. Mas, mesmo após muita polêmica sobre sua qualidade e evolução ao passar do tempo, 17 anos se passaram e Tibia ainda está online e conta com diversos servidores com milhares de jogadores, entre esses, uma grande parcela de brasileiros.
Em uma cultura que preza o imediato, o rápido e o prático, Tibia vai contra a maré. Enquanto a tendência da maioria dos jogos atuais é ser cada vez mais auto explicativo e com um grau cada vez menor de dificuldade, o MMO de mízeros 100 MB de tamanho ainda conta com um alto nível de desafio e grande necessidade de dedicação para atingir níveis cada vez mais altos. Mas antes de continuarmos é necessário fazer algumas pontuações.

  • Será discutido aqui o nível de dificuldade que o jogo proporciona e não sua qualidade (ou a falta dela) gráficas;
  • Não serão discutidas questões já comuns em fóruns como “por que Tibia não tem som?” ou “por que ele não fica em 3D?”;
  • Não serão consideradas aqui as nuâncias entre contas grátis (Free Account) e contas pagas (Premium Account); será levado em consideração tudo que está disponível no jogo;
  • O objetivo das comparações que serão feitas não é avaliar tamanho, poderio gráfico, número de jogadores online, presença ou ausência de efeitos sonoros, ano de lançamento ou qualidade dos jogos; as comparações são única e exclusivamente sobre a dificuldade proporcionada pelos jogos;
  • Considerando as pontuações acima, não pretende-se concluir aqui que Tibia é melhor ou pior que World of Warcraft, ou que Tera Rising é melhor que ambos ou quaisquer outras derivações dessas sentenças.

Um pouco de informação sempre faz bem!

Como já dito, Tibia foi lançado no seu formato alpha por três universitários alemães em 1997. Desde então, o jogo recebe, no mínimo, duas atualizações anuais e encontra-se atualmente na versão 10.50 (referente ao Tibia Summer Update 2014). Diariamente o jogo conta em média com 10 mil jogadores online simultâneos distribuídos por 79 mundos e já acumula mais de 2,6 milhões de contas registradas. Em 2009, existiam 6,54 milhões de personagens criados sendo que apenas 61 mil superavam o lendário nível 100 (lembrando que o jogo ainda não possui um limite para o nível, o que discutiremos mais tarde).

No enredo do jogo o mundo de Tibia foi palco de diversas guerras através da história, coordenadas de longe pelas duas metades divinas Uman, o sábio, e Zathroth, o destruidor.  No meio disso os humanos tentavam sobreviver às hordas do destruidor através de batalhas épicas mas seu número era muito reduzido comparado ao inimigo. Dessa forma, após a descoberta da existência de vários planos diferente nos quais os deuses não possuíam domínio, foram criados os Portais das Almas. Esses portais transportavam almas de seres de outros planos para uma forma humana em Tibia. Esses novos campeões da humanidade foram a vitória da raça, forçando as hordas de inimigos a recuarem para seus covis.


Agora, Tibia encontra-se em um período de estabilidade onde os humanos se organizam no interior de suas grandes cidades e os inimigos circundam ao redor do mundo. Há quem diga que uma nova e cataclísmica guerra pode estar prestes a estourar com demônios cada vez mais próximos da superfície, mortos-vivos caminhando novamente, humanos rebeldes que lutam contra seus próprios irmãos e a ameaça crescente da Fortaleza dos Orcs. Mas novos heróis não param de surgir através dos Portais das Almas, prontos para explorar e desbravar esse extenso mundo.

Um jogo simples, porém complicado

Um dos pontos mais positivos de Tibia, segundo os seus jogadores, é a sua jogabilidade. O mundo aberto, os comandos simples e a possibilidades de ações variadas são um diferencial que diversos jogos mais modernos não possuem. Porém, a característica mais marcante nessa jogabilidade é o nível de desafio presente, mesmo que o sistema seja tão simples.

Para começar, tutoriais dentro do jogo se resumem em “como controlar seu char” e não são muito presentes após o segundo nível alcançado. Na ilha Rookgaard (onde os iniciantes são obrigados a ficar, no mínimo, até o nível 8) é possível aprender as mecânicas mais básicas do jogo e experimentar diversas armas e equipamentos diferentes, mas não lhe é mostrado onde ir ou como adquirir os melhores equipamentos, deixando o jogador livre e perdido no jogo. Não é incomum jogadores de primeira viagem ficarem semanas nessa ilha só tentando entender o que devem fazer ou para onde devem ir após alcançar o 8º nível. 

Após se familiarizar um pouco mais com a mecânica do jogo, o jogador finalmente consegue ir para o continente (Main) e lá percebe que não é ninguém, simplesmente mais um entre milhões que conseguiram sair da ilha, e isso não é nada comparado ao que os famosos “top level” (jogadores que alcançaram os maiores níveis até agora) estão fazendo no momento. Dali pra frente a evolução se torna cada vez mais difícil e demorada, e os monstros cada vez mais perigosos e mortais, sendo que a última coisa que você desejará é morrer (discutiremos isso mais tarde).

Em outros jogos do gênero, como World of Warcraft, Tera Rising, Star Wars: The Old Republic, The Lord of The Rings Online, Aion e Age of Conan, a evolução do personagem é, na maior parte, guiada por missões (quests) coordenadas por NPCs (personagens não jogáveis) que levam os jogadores a cumprir diversas tarefas seguidas, todos da mesma forma indo na mesma direção e recebendo a mesma quantidade de experiência ao completá-las. Em Tibia, existem algumas dessas quests, mas são muito reduzidas se comparadas aos jogos citados e nem de perto garantem a evolução do personagem de forma mais segura ou mais rápida. No antigo MMO para avançar níveis o jogador precisa caçar e matar as mais variadas criaturas e a sua jornada pelo mundo do jogo não é guiada por ninguém além dele mesmo, podendo estabelecer uma base ou alugar uma casa em qualquer cidade que prefira.
O Mundo de Tibia atualmente, passível de futuras modificações.
Essa característica não linear do jogo aumenta o nível de desafio pois não existe uma única rota a ser seguida por todos os jogadores, como acaba acontecendo, por exemplo, no jogo Perfect World, onde um personagem só passa de nível mais rápido que outro se ele completar as mesmas missões que ele de forma mais rápida. Em Tibia, mesmo que seja comum jogadores do mesmo nível caçarem em lugares parecidos, isso não é uma regra do jogo, mas sim a tática mais viável descoberta pelos próprios jogadores ao longo dos anos.

Não é tão fácil passar de nível

Entre os mais populares MMORPGs da atualidade, o sistema mais comum de evolução do personagem gira através do sistema de arrecadação de experiência através de missões completadas (com um pequeno bônus para cada monstro morto); quando esse jogador passa um nível (ou alguns níveis em certos casos) ele recebe determinado número de pontos para serem distribuídos por alguns atributos diferentes como, por exemplo, força, constituição, agilidade e inteligência, entre outras derivações. Em alguns jogos do gênero não existe sequer a possibilidade da escolha de distribuição de pontos, sendo tudo automatizado.

Tibia possui um dos sistemas de evolução de personagem mais complexos e trabalhosos, pois o nível do personagem influencia somente sua velocidade de movimentação pelo terreno, pontos máximos de vida, pontos máximos de mana e, um pouco, o seu dano. Entretanto, a maior parte do dano do personagem, velocidade de recarga das magias, recuperação de vida e mana e habilidade de recolher determinados itens é determinada por barras de evolução independentes e únicas. Através de um sistema que The Elder Scrolls V: Skyrim se assemelha muito, quanto mais o seu personagem usar uma espada para bater, maior será o seu nível de sword no jogo, aumentando o dano que você causará com uma espada. No entanto se você treina bastante com espadas e for experimentar um machado por curiosidade (mesmo que o machado tenha um ótimo ataque) você não conseguirá arrancar um dano tão bom quanto alguém que já treina a skill (habilidade) de machado há mais tempo.
Não sei o que foi pior pra ele: chegar ao nível 300 ou arrumar esse cenário para tirar um print na hora exata.

Da mesma forma o dano causado por magias, o tempo de sua recarga e a quantidade de pontos de vida recuperados com feitiços de cura são determinados pelo Magic Level (nível de magia) do personagem bem mais do que simplesmente o seu nível base. E esse nível mágico, como os demais, sobe mais se o personagem utiliza magias em maior quantidade. É importante lembrar também que a agilidade de evolução dessas habilidades varia de classe para classe (um Sorcerer alcança níveis altos de Magic Level infinitas vezes mais rápido do que um Knight, e esse alcança níveis de Sword muito mais rápido do que o seu colega mágico, por exemplo).

Além dessas peculiaridades até o momento o jogo não possui um nível máximo confirmado. Enquanto World of Warcraft só terá disponível o nível máximo 100 na sua próxima expansão, Tera Rising só chega ao 60 e Star Wars: The Old Republic tem teto no nível 50; os maiores jogadores de Tibia até o momento chegaram na marca do nível 700 e continuam evoluíndo (Kharsek, um brasileiro, é o atual jogador que mais avançou no nível geral do game, alcançando o 752). Com isso o jogo está em constante mudança já que, com duas atualizações por ano, sempre são introduzidas novas criaturas ao passo de que os tops avançam de nível.
Print do brasileiro Kharsek ao chegar ao 700º nível.

Pilhagens são mais importantes do que se imagina!

O que seria de um RPG sem as pilhagens não é mesmo? Aqueles itens que você recolhe do inimigo morto, que encontra no final de uma caverna ou que está escondida em um templo antigo. Muitas moedas de ouro, itens mágicos e artefatos perdidos são os mais desejados entre os aventureiros em qualquer jogo de role play, seja ele Tibia, WoW, Final Fantasy, Dungeons & Dragons ou Bravely Default.

Entretanto, entre os MMOs, é no Tibia que vemos a maior semelhança desses itens com os tradicionais RPGs de mesa, de onde surgiu a base para todos os jogos do estilo RPG de consoles ou computadores. Em Tibia, assim como em diversos jogos do gênero, existem itens que só podem ser usados por uma determinada classe de personagens ou após alcançar um determinado nível. Entretanto a forma de conseguir esses itens e a sua raridade são uma dificuldade à parte.

Para começo de conversa, as tradicionais moedas de ouro são muito mais difíceis de se conseguir aqui do que em boa parte dos MMO. Demora muito até as criaturas do jogo darem loots (itens que a criatura pode dar ao ser derrotada) contendo mais de 300 moedas de ouro. A maior lucratividade se dá através dos equipamentos mais raros adquiridos. Ao contrário de alguns jogos onde os equipamentos mais fortes e/ou bonitos são adquiridos pela loja online no site oficial do jogo, em Tibia todos os itens são adquiridos dentro do próprio jogo, sendo que a maioria é através de monstros ou baús escondidos pelas masmorras ao redor do mundo. Se você consegue comprar um desses itens, é de algum outro jogador que fez a busca pelo baú ou que derrotou o monstro que dá o item em seu loot.

Existem inclusive lendas verdadeiras no jogo de itens que até hoje não foram encontrados por ninguém mas que existem ou são visíveis em algum lugar do jogo, como o famoso Dragon Scale Helmet, o Eagle Shield ou as Boots of Waterwalking. Isso além de itens raríssimos como Great Shield, do qual existem menos de 20 exemplares confirmados no mundo.

Nem as magias e NPCs escapam da dificuldade aumentada!

As magias utilizadas pelas quatro classes, Paladin, Knight, Sorcerer e Druid (mas em maior quantidade pelas duas últimas) não são simplesmente ativadas com um click do mouse e nem acertam o inimigo automáticamente como ocorre em diversos jogos de MMORPG. De primeira podemos já falar que, como toda magia deveria ser, as do jogo são ativadas com palavras mágicas derivadas do latim como Utevo Lux, Exana Pox, Adori Vis, Exevo Gran Mas Flam, Exura Vita e outras. Essas magias são aprendidas através de um mestre NPC que cobra determinada quantia de ouro por cada magia e, claro, é necessário alcançar um determinado nível para poder aprender cada uma delas.

Como o jogo é todo organizado através de quadrados de 1m² (1 sqm), as magias têm alcances variados de sqms e em formatos diferentes. Assim, cada magia, além de gastar determinada quantidade de pontos de mana, utilizar determinadas palavras mágicas para serem ativadas e demoram um determinado tempo para podermos usá-las de novo, possuem distâncias e alcances variados que diferenciam a forma e o momento que devem ser utilzadas. Vale lembrar que os pontos de Mana, assim como os de Vida, não se recuperam sozinhos, precisando que o personagem coma algo para regenerá-los e essa regeneração não é nem um pouco rápida (ao contrário de outros jogos onde é só sentar ou entrar em um local seguro que os pontos de vida são recuperados rapida e automaticamente). Dessa forma, é simplesmente inviável sair apertando todas as magias para lançar tudo de uma vez e matar os monstros no desespero.
Magia de onda de fogo utiliza as palavras Exevo Flam Hur para ser ativada.

Da mesma forma, a interação com os NPCs é através de certas falas como “hi”, “trade” e “balance”, entre outras, o que exige certo nível de conhecimento de inglês por parte dos jogadores ao invés de simplesmente clicar descontroladamente no botão de “avançar” da quest para aceitá-la sem nem sequer saber o que está se passando ali. Mais uma vez, outro elemento que agrega certa dificuldade ao jogo.

Morrer realmente é o pior destino

Com tudo que foi dito até então, imagine o quão complexo é para um jogador se preparar para algumas horas de caçada em algum território selvagem e longínquo. Itens como Pás, Cordas e Machetes são indispensáveis uma vez que se você descer em um buraco que não tenha uma escada para subir, somente uma corda irá permitir que você suba, caso contrário, seu personagem ficará preso no buraco para sempre (a não ser que alguma alma caridosa lhe puxe com uma corda ou lhe entregue uma). Comida é essencial, uma vez que sem ela você não regenera sua vida e sua mana. Magias precisam ser utilizadas com cautela e domínio pois, dependendo do monstro caçado, um erro é suficiente para causar sua morte. E esse é o ultimato do jogo no quesito dificuldade: não existe jogo com maior punição pela morte do que Tibia.

Se você morrer perde uma grande quantidade de experiência em todos os seus atributos (nível, espada, escudo, magia, machado, etc.), além disso, existe a chance de um de seus equipamentos ficar no seu corpo, juntamente com a sua mochila e TUDO que estava no interior dela. Ou seja, depois de toda essa luta para se organizar, horas preparando runas mágicas, pescando e planejando o melhor local para caçar, um personagem de nível 100 pode errar o caminho ou ser surpreendido por um número maior do que o esperado de monstros e ser morto. Esse personagem de nível 100 pode voltar alguns níveis, talvez pro nível 98 (o que são várias horas de jogatina para recuperar), perder sua mochila que estava recheada de runas e comida para a aventura e, ainda de quebra, perder sua armadura fortíssima que custou tanto para conseguir.
Existem itens que auxiliam de forma que o personagem não perca itens ao morrer, mas de qualquer maneira a experiência é perdida e o personagem pode voltar níveis inteiros por uma bobeira ou um lag no servidor na hora errada. Nunca um jogo do gênero causou tanto medo e frustração através de suas mortes. A imensa maioria dos MMORPGs punem o jogador com redução da durabilidade de seus itens, perca de uma pequena porcentagem de experiência daquele nível no qual ele se encontra ou simplesmente lhe dando o trabalho de, como fantasma, chegar até o seu corpo novamente. No MMO de 1997, um  jogador qualquer pode achar um corpo morto e descobrir que está podre de rico pois o azar de alguém foi a sua sorte.

O maior desafio hoje é encontrar desafios nos jogos

Com 17 anos de existência, Tibia pode ser um dos MMOs mais difíceis da atualidade exatamente pelo fato de ser antigo. Um sobrevivente de uma época onde os jogos ainda tinham uma dificuldade elevada e isso podemos constatar não apenas no gênero MMORPG. Comparando títulos como Super Mario World, Resident Evil, Pokémon Red & Blue e Final Fantasy IV, lançados na década de 1990 com os últimos jogos lançados das mesmas franquias como Super Mario 3D World, Resident Evil 6, Pokémon X & Y ou Final Fantasy XIV, é possivel notar que cada vez os jogos se tornam mais fáceis e o desafio de jogá-los é cada vez menor.
Independente da qualidade, os jogos antigos eram bem mais difíceis!

É importante refletir que isso não é uma tendência somente dos desenvolvedores ou empresas responsáveis pelos jogos, mas sim reflexo de nós mesmo enquanto jogadores. O desejo de completar a história do jogo, conquistar todos os troféus ou então desvendar todos os segredos tem superado o próprio desejo de jogar o que causa um alto nível de frustração quando não conseguimos fechar certos jogos ou alcançar determinado objetivo. Isso, indo mais além, é uma tendência da sociedade como um todo, que abomina fracassos como se fossem sinais de fraqueza, esquecendo cada vez mais que esses são necessários para o aprendizado e a evolução, seja nos videogames, nos estudos ou no mercado de trabalho.

Voltando aos jogos eletrônicos, por sorte ainda temos Tibia, Monster Hunter, Dark Souls e outros poucos jogos que trazem desafios notórios para a nossa jogatina. Mesmo que os novos jogos tenham uma ótima qualidade gráfica, enredo envolvente, efeitos sonoros impecáveis e grande popularidade, Tibia nos mostra que uma das principais coisas que ainda prendem jogadores é o desafio, pois quanto maior esse for, maior é o prazer em superá-lo, mesmo que isso leve muito tempo.

Revisão: José Carlos Alves
Capa: Felipe Araujo



Gilson Peres é Psicólogo e Mestre em Comunicação pela UFJF. Está no Blast desde 2014 e começou sua vida gamer bem cedo no NES. Atualmente divide seu tempo entre games de sobrevivência e a realidade virtual.

Comentários

Google
Disqus
Facebook