Neo Geo e seus jogos (parte 2): SNK na busca de abraçar tudo e todos

em 24/05/2026

Vamos continuar nossa jornada pelo restante do que o Neo Geo nos entregou em 1990, e iniciar o recheado ano seguinte. Novamente, não houve ... (por Alecsander "Alec" Oliveira em 24/05/2026, via GameBlast)

Vamos continuar nossa jornada pelo restante do que o Neo Geo nos entregou em 1990, e iniciar o recheado ano seguinte. Novamente, não houve repetição de gêneros, com a SNK e a Alpha Denshi sustentando a biblioteca do sistema nas costas com títulos interessantes e bons showcases gráficos.


Contudo, vale uma curiosidade prévia: sabia que o Neo Geo AES, a versão doméstica da placa de fliperama, inicialmente seria apenas para aluguel e em estabelecimentos específicos? A SNK não tinha intenção de lançar o console no varejo, mas visando um possível público que abraçaria um videogame de luxo, resolveu disponibilizar para o público geral em 1991, cobrando no mínimo US$400 pelo console e US$200 em média por cartucho.
Confira as outras partes:
Enfim, vamos aos títulos da vez:

The Super Spy

Lançamento: 08/10/1990 — Desenvolvedora: SNK — 55 Mega
Uma mistura de beat ‘em up com shooter de galeria, The Super Spy é um game singular. Controlamos um agente da CIA que deve encontrar bombas e projetos em um prédio, enquanto precisa lidar com um presidente terrorista no final da aventura. A ação ocorre em primeira pessoa, nos guiando automaticamente durante um percurso, porém permitindo movimentação lateral quando chegamos em uma área de inimigos.

O combate é simples. Podemos usar punhos para lidar com os meliantes, com uma jogabilidade semelhante a Punch-Out em seu sistema de esquiva; ou usar facas e armas de fogo, caso tenhamos munição. Ao longo do percurso, é possível acessar alguns cômodos que ocultam reféns, os quais podem nos oferecer melhorias de ataque, ou confrontos com inimigos, incluindo chefes.

The Super Spy é bem complicado, sempre tentando nos pegar desprevenidos com ataques implacáveis. Outro detalhe que contribui para a dificuldade é o tamanho da campanha, capaz de chegar a duas horas, uma duração absurda para um jogo de fliperama — tão absurda, que a ficha é por minutos, e não por continues.

É um título que abusa do poder de escalonamento do Neo Geo, cheio de zoom in e zoom out em cenários e adversários, assim como apresenta vozes e sprites gigantescos. Com certeza algo que impressiona para sua época. 


Cyber-Lip

Lançamento: 07/11/1990 — Desenvolvedora: SNK — 46 Mega
Como toda boa placa de fliperama, temos um run and gun com Cyber-Lip. A Terra está sendo (supostamente) atacada por androides, e cabe a Brook e Rocky salvarem o dia (ou não). A jogabilidade é bem inspirada em Contra, com diversas armas para pegar — com munição limitada, vale ressaltar —, tiros dos quais devemos desviar e chefes gigantes para destruir, tudo isso com bastante atitude brega oitentista e a dificuldade esperada para o gênero, em que um tiro é menos uma vida.

Longe de ter a fluidez de Contra ou Metal Slug, Cyber-Lip é bem divertido e até justo com o jogador, embora nada muito impressionante tecnicamente além de diálogos com dublagem. O final da aventura nos pega completamente desprevenido, com um gancho para uma continuação que, infelizmente, nunca aconteceu.

Puzzled

Lançamento: 20/11/1990 — Desenvolvedora: SNK — 22 Mega
Detendo o título de menor cartucho do Neo Geo, Puzzled é um quebra-cabeça no estilo Tetris com uma diferença: em vez de começarmos com a tela zerada, cada fase traz alguns blocos posicionados, e nosso objetivo é estourar todos esses blocos. É preciso aprender a realizar combos em cadeia, já que peças vão caindo conforme as fixas vão sendo destruídas. A ideia é legal, mas sinceramente prefiro o Tetris tradicional.

Puzzled é gigantesco em sua duração, com mais de três horas para resolver todas as fases. Pergunto-me se teve alguém que conseguiu a proeza de terminá-lo com uma única ficha no próprio fliperama.

League Bowling

Lançamento: 10/12/1990 — Desenvolvedora: SNK — 26 Mega
Jogo de boliche simples, porém carismático. Em League Bowling podemos jogar nas modalidades Regulation, a tradicional do esporte; Flash, com pontos que vão somando a cada rodada; e Strike 90, que só nos dá pontos quando derrubamos todos os pinos numa rodada, sendo strike ou spare. Ao jogar a bola, devemos nos preocupar apenas com nossa posição e em que direção arremessá-la.

O game chama atenção pelas animações caricatas de nossos jogadores, seja acertando ou errando os pinos. É possível jogar com até quatro jogadores dividindo dois controles.

Ghost Pilots

Lançamento: 25/01/1991 — Desenvolvedora: SNK — 55 Mega
Chegamos a 1991 com o primeiro jogo de navinha do Neo Geo. Ghost Pilots é um shoot ‘em up vertical ambientado em uma guerra militar similar à série 194X da Capcom, e devemos sair atirando em tudo o que há pela frente, desde aviões inimigos a tanques super elaborados. Podemos escolher entre três tipos de bombas antes de cada fase, e há apenas um tipo de tiro que vai melhorando quando pegamos upgrades.

A falta de variedade de disparos e a lentidão com que a tela rola deixam a experiência bem repetitiva, em especial numa campanha com quase uma hora de duração. Realmente não há nada de tão especial no game, exceção feita a alguns usos de scaling nos inimigos para dar a sensação de profundidade. Havia shooters melhores inclusive nos consoles nessa mesma época — meu querido M.U.S.H.A., do Mega Drive, por exemplo.

Sengoku

Lançamento: 12/02/1991 — Desenvolvedora: SNK — 46 Mega
A SNK nunca se destacou por produzir bons beat 'em ups, e Sengoku é um dos maiores desperdícios de potencial dentro do gênero. Demônios, ninjas e samurais do além decidem dominar o mundo humano, e somos nós que devemos proteger nossa cidade. E não somente adquirimos armas distintas ao vencer inimigos, como também contaremos com a ajuda de espíritos um cachorro, um ninja e um samurai.

Toda a ambientação e premissa são interessantes, mas a experiência da jogabilidade deixa a desejar. As animações são ruins, não existe sistema de combo e o ato de atacar em si não é satisfatório. No entanto, os cenários são deslumbrantes e há efeitos interessantes, como trechos da estrada sendo destruídos e chuva.

King of the Monsters

Lançamento: 25/02/1991 — Desenvolvedora: SNK — 55 Mega
Que tal misturar briga de kaiju com wrestling? King of the Monsters fez isso. Devemos selecionar entre seis personagens para duelar em cidades, podendo sair destruindo tudo pela frente no processo. Mais do que socos e chutes, o jogo conta com alguns agarrões e arremessos necessários para diminuir a barra de vida do oponente, e para vencer, é preciso imobilizá-lo.

A jogabilidade é um tanto complicada de se acostumar pelo quão pesada é, o que talvez seja proposital. O grau de destrutibilidade das arenas impressiona, e a trilha sonora chama atenção pelo quão variada ela é, indo desde uma canção tribal a um rock pesado para se adequar a cada monstro.

Tecnicamente é o primeiro jogo de luta do Neo Geo, embora não seja o tradicional 1v1 pelo qual o sistema ficou conhecido nos anos seguintes.

Blue’s Journey

Lançamento: 14/03/1991 — Desenvolvedora: Alpha Denshi (ADK) — 50 Mega
Remetendo fortemente a games de plataforma dos anos 1980, Blue’s Journey é simpático em sua apresentação. No controle de um herói que deve salvar seu planeta da poluição, podemos arremessar inimigos para conseguir maior alcance de ataque após golpeá-los com armas como uma folha ou um bumerangue. Ao longo das fases, lojas estarão posicionadas para nos oferecer power-ups.

O título apresenta uma estética fofa e divertida, inspirada em animes infantis contemporâneos, sendo um dos gráficos mais coloridos do sistema até agora, se não o mais. Porém, não se deixe enganar, pois a qualidade das ameaças que aparecem na tela é altíssima, e rapidamente ela fica cheia de criaturas e tiros.

E por possuir uma quantidade considerável de texto, há uma série de erros gramaticais em inglês hilários aqui, como de praxe na Alpha Denshi.

SNK com escoliose para manter uma biblioteca nas costas

Concluímos, portanto, a segunda parte deste especial, ressaltando mais uma vez que a SNK, quase que isoladamente, mantinha a biblioteca do Neo Geo, investindo na diversidade de gêneros e no apelo visual. Durante esse tempo, a empresa buscava parcerias com outras desenvolvedoras, que só começaram a surgir de fato nos anos seguintes.

Na próxima seção, encontraremos algumas obras únicas ao longo do percurso (tanto positivas quanto negativas), mahjong, e o começo da franquia que transformaria o legado da SNK para sempre.

Revisão: Thomaz Farias
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Alecsander "Alec" Oliveira
Um ser que está nesse mundo dos joguinhos desde criança. Fã de games com vibe mais arcade e arqueólogo de velharias, mas não abandona experiências mais atuais. Acompanha a mídia de podcasts, dublagem e ouvinte assíduo de VGM. Pode ser encontrado como @AlecFull e semelhantes por aí.
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