Hajime no Ippo: The Fighting!: uma joia dos jogos de anime perdida no último round do PlayStation 3

Como alimentar um bebê e a curiosidade pela obra de George Morikawa me levaram a ignorar a barreira do idioma.

em 23/05/2026
O Japão sempre foi o berço de adaptações de mangás e animes para os videogames. Contudo, enquanto grandes franquias como Naruto e Dragon Ball chegavam por aqui sem dificuldades — ainda que alguns jogos deles tenham se perdido pelo caminho —, obras mais nichadas, mesmo as já consagradas, frequentemente acabavam nunca atravessando o oceano por questões comerciais.

Um erro justificado

Lançado exclusivamente no Japão em 2014, já no final do ciclo de vida do PlayStation 3 e com o PlayStation 4 completando seu primeiro ano, Hajime no Ippo: The Fighting! é o exemplo perfeito de um desses títulos que nunca chegaram ao Ocidente. Mesmo sendo baseado em um dos maiores animes de esporte de todos os tempos, a Bandai Namco optou por um lançamento estritamente dentro do seu país de origem por se tratar de um jogo de nicho. Como a obra vivia um hiato de quase 10 anos sem passar na TV ocidental, a decisão de não realizar a localização foi natural para a Bandai.

Considerando a trabalheira que é configurar um emulador e, nesse caso, traduzir um jogo, o que leva alguém a buscar um jogo esquecido do outro lado do mundo? Minha história com Ippo começou efetivamente em maio de 2023, após o nascimento do meu primeiro filho. Amante de boxe desde pequeno, eu já conhecia a fama da franquia por ser fã de Slam Dunk (fantástico anime de basquete) e saber que Ippo era um clássico dos animes de esporte, assim como Ashita no Joe (outra excelente obra que tem o boxe como centro da narrativa), mas nunca tinha parado efetivamente para ler ou assistir. Como meu pequeno não aceitou o aleitamento materno, surgiu a missão de acordar durante a madrugada para dar a mamadeira. Para evitar o sono, eu sempre assistia a um episódio de anime. Foi então que me veio à memória o simpático pugilista, e cá estamos, três anos depois.

Como fã e tendo uma brevíssima (breve mesmo, tipo uns três dias) carreira no boxe, sempre joguei os títulos da franquia Fight Night da EA Sports. Porém, com a popularização das lutas do UFC, a série caiu no esquecimento e acabei ficando órfão de um bom jogo do gênero. Foi então que, juntando as peças, resolvi verificar se existia alguma adaptação do anime ou do mangá para os videogames. Após pesquisar e buscar pela melhor delas, encontrei esta versão de PS3 que motivou todo este artigo.

Aula de adaptação

O anime, dividido em três temporadas (The Fighting!, New Challenger e Rising), adapta desde o início da carreira de Ippo até sua consolidação como campeão japonês, o equivalente ao capítulo 556 do mangá. Já o jogo vai na contramão do que vemos atualmente na indústria, estendendo a história até o capítulo 701, no qual o volume 74 se encerra. Se fosse lançado hoje, certamente essa extensão seria vendida como uma DLC.

Avaliado no lançamento pela tradicional revista japonesa Famitsu com nota 32/40, o título foi desenvolvido pelo experiente time da Eighting (estúdio famoso por Bloody Roar e Marvel vs. Capcom 3). O projeto foi muito elogiado por sua fidelidade estética e por conseguir manter o peso dramático da narrativa. Diferente das adaptações anteriores para os videogames — que seguiam praticamente como uma versão em anime da franquia Fight Night, da EA Sports —, o jogo abandonou a simulação que utilizava nos títulos de PlayStation 2 (que chegaram ao Ocidente como Victorious Boxers). A escolha aqui foi focar em uma pegada arcade mais ágil, ideal para se aproximar da dinâmica da animação e destacar o belíssimo visual em cel shading baseado no traço de George Morikawa. No entanto, o verdadeiro destaque está em como os estilos de luta foram traduzidos para o gameplay.

Com a adição do sistema chamado Best Scene, a tela congela e recria o quadro exato do mangá — acompanhado pela dublagem original ao fundo — caso o jogador cumpra determinados requisitos na luta (como acertar o Dempsey Roll de Ippo em Sendo no mesmo assalto em que o evento ocorre na obra original, por exemplo). Além disso, cada boxeador é representado fielmente com seus combos, posturas e golpes únicos. Temos Sendo e seu tradicional Smash, Mashiba e seu Flicker Jab, Date e seu Corkscrew punch, e a dificuldade em derrubar Malcolm Gedo fielmente adaptadas. Essa abordagem recompensa diretamente quem já conhece a franquia, valorizando os veteranos e instigando os novatos a buscarem o material de origem.

Outra maneira implementada para estender o gameplay foram as linhas temporais alternativas. O que aconteceria se Ippo tivesse vencido o então campeão Date em sua primeira disputa de cinturão? E se Ippo e Miyata finalmente tivessem cumprido a promessa de se enfrentar novamente? O jogo permite que o jogador reescreva a história da obra com eventos que antes ficavam só na imaginação.

Quebrando a guarda

Por se tratar de um título que busca adaptar não apenas os lutadores e seus estilos, mas também a narrativa do mangá, a barreira do idioma ainda é um grande obstáculo para nós, ocidentais. No entanto, como acabei descobrindo depois de decifrar os menus em japônes, a comunidade de fãs se uniu para não deixar o jogo morrer no esquecimento e desenvolveu um patch de tradução parcial. A modificação não oficial traduz os menus e as legendas essenciais do japonês para o inglês. E embora o inglês ainda não seja um idioma familiar para todos os jogadores, o cenário atual nem se compara à época em que eu era criança, quando o acesso a uma segunda língua era algo praticamente restrito a somente quem tinha condições de pagar por cursos particulares.

Graças à preservação, à comunidade de fãs e aos avanços na emulação, hoje é possível jogar o título em inglês a 1080p ou até mesmo em 4K em emuladores, ou rodá-lo diretamente no próprio PlayStation 3 de forma não oficial. Hajime no Ippo: The Fighting! é uma carta de amor aos admiradores da obra e mais um do vasto catálogo de jogos memoráveis que ficaram guardados do outro lado do mundo.

Revisão: Beatriz Castro
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Windsor Santos
Jogadorino desde os áureos anos 90, geralmente surpreende amigos com a quantidade de títulos que já finalizou. Divide o amor por games com seus mangás, Hq's e filhotes. Agora seu objetivo é registar seus conhecimentos para as novas gerações de jogadores.
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