Análise: Schrödinger’s Call e o poder das conexões humanas

Estúdio japonês Acrobatic Chirimenjako estreia muito bem com visual novel belíssima.

em 28/05/2026

Aqui na década de 2020, a experiência de ser obrigado a interagir com o mundo lá fora só pelo telefone já é velha conhecida de todos nós. De fato, foi a pandemia de covid-19 que inspirou o Acrobatic Chirimenjako, estúdio indie localizado em Kyoto, Japão (e que entrevistamos durante a gamescom latam), a surgir com o conceito de Schrödinger’s Call, seu jogo de estreia. 

Nesta visual novel, controlamos Mary, a “última Confidente do mundo”, uma jovem garotinha incumbida de atender um telefone e conversar com várias almas perdidas, que precisam ser aliviadas de seus últimos arrependimentos antes de poderem sair do limbo no qual a humanidade foi colocada — a Lua caiu do céu, veja bem, e deixou o mundo inteiro a 27 nanossegundos do apocalipse. 

É uma premissa simples, porém interessante, que é explorada ao longo de cinco capítulos de mais ou menos uma hora cada. Acompanhe, agora, como tudo isso se desenrola.

Alô, quem gostaria?

Mary começa seu serviço de Confidente sem qualquer memória de quem é, guiada esporadicamente pelo inconstante gatinho Hamlet. Suas conversas com os fantasmas da espécie humana durarão até que ela se lembre de seu passado e do motivo pelo qual foi colocada nessa posição. 

Em matéria de gameplay, isso se traduz em um loop sólido: faça uma escolha a respeito das crenças de Mary, converse rapidamente com várias pessoas sem nome, encontre alguém que compartilhe sofrimentos parecidos com o da protagonista e pergunte “quem é você?”. 

A partir daí, fazemos uma série de ligações com o personagem central de cada capítulo, além de algumas pessoas relevantes à sua história, a fim de encontrar um jeito de entendê-la e “salvar” sua alma. 

O maior trunfo do game, com certeza, é seu estilo visual: baseado em mangá, quadrinhos ocidentais e arte europeia, brincando também com algumas convenções do gênero de terror (sem nunca adentrá-lo por completo), ele consegue nunca deixar a peteca cair. 

A isso também se soma o design de som — que se soma à trilha sonora magnífica, cuja produção suave serve muito bem a cada cena, os efeitos sonoros são imersivos e de qualidade. A recomendação do uso de fones de ouvido não é mero charminho dos desenvolvedores. 

Por outro lado, nessa parte mais técnica, a localização para o inglês não faz muitos favores ao texto. Na língua japonesa, uma das formas mais comuns de uma prática chamada aizuchi, uma série de expressões que indicam que o locutor está prestando atenção à conversa, é repetir o que acaba de ser dito; também fazemos isso por aqui às vezes, porém não com tanta frequência quanto no japonês, conforme já comentei em outra análise.

O texto em inglês não tem esse discernimento cultural. Como resultado, para o público ocidental, fica a impressão de extrema repetitividade e até um tom um tanto condescendente, como se o game não confiasse que o jogador vá se lembrar do que foi dito menos de dois minutos atrás. Apesar da justificativa de que Mary se esquece muito fácil das coisas, a repetição poderia ter sido amenizada nesta versão.

Quer deixar um recado?

Os elementos de gameplay de Schrödinger’s Call são relativamente rasos. O principal foco é a dedução, porém, assim como em Detective Instinct: Farewell, My Beloved, é algo que vem praticamente mastigado ao jogador. 

Mary toma nota de tudo o que ouve a respeito das memórias de seus contatos, e é muito raro que tenhamos de adivinhar sozinhos qual pista é a mais importante para a conversa — mesmo quando isso acontece, os fatos são tão repetidos que é quase impossível esquecer o que deve ser dito na hora H.

Apesar de tudo, acabam existindo momentos nos quais essa repetição beneficia a narrativa. Quando descobrem a verdade sobre suas vidas interrompidas pela queda da Lua, é comum que os contatos entrem em pânico e fiquem presos em uma espiral negativa, da qual Mary deve libertá-los ao lembrá-los de quem são e em que acreditam. A última vez na qual isso acontece é intensa, longa e certamente faz a aposta que o Acrobatic Chirimenjako fez na história valer a pena.

Falando dela de maneira mais profunda, é um enredo comovente e intrigante, que tece várias provocações a respeito de identidade, altruísmo, convicção e mentiras, entre outros temas. Talvez não responda todas as perguntas da audiência, o que não é uma falha, e sim algo proposital; em um mundo em que cada detalhezinho da ficção tem de ser explicado por completo para os fãs sedentos por lore, é refrescante encontrar um jogo que valorize as interpretações pessoais de cada um. 

Os personagens são bem arredondados, e, apesar de um certo apoio em clichês, as histórias de cada um dos protagonistas dos cinco capítulos são ricas em nuances e também ajudam a construir nossa Confidente desmemoriada pouco a pouco, por serem selecionadas a partir dos sentimentos pessoais dela (deve-se observar que o sistema de escolhas esconde o fato da narrativa ser bem linear, o que não é um problema propriamente dito, mas é importante apontar que quem busca algo do gênero não o encontrará por aqui).  

Por fim, gostaria de destacar o uso do humor, que dá uma leveza gostosa a um cenário tão sombrio e não deixa o tom sair do controle, chegando a desarmar os leitores que se acostumaram à seriedade de Mary. É um toque de humanidade, até: o que é mais natural para nós do que nos apoiarmos na comédia frente a desastres contra os quais não podemos fazer nada? 

Um beijo, tchau-tchau!

Apesar da aparência de terror, Schrödinger’s Call é uma história de bom coração com muito a dizer sobre a natureza humana. Munido de uma belíssima estética visual, o game brinca com convenções e expectativas da audiência para entregar uma história curta, sincera e difícil de esquecer. É um título altamente recomendado a quem gosta de visual novels e jogos narrativos de estilo mais sóbrio.

Prós

  • Estilo visual único e chamativo;
  • Ótima trilha sonora e design de som;
  • História comovente, com personagens memoráveis;
  • Diálogo bem-humorado quando precisa ser.

Contras

  • Texto repetitivo, que a localização poderia ter melhorado;
  • Mecânicas de dedução relativamente rasas.

Schrödinger’s Call — PC/Switch — Nota: 8.0
Versão utilizada para análise: PC

Revisão: Thomaz Farias
Análise produzida com cópia digital cedida pela Shueisha Games

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Hiero de Lima
Jornalista formada pela PUC-SP e eterna apaixonada por videogames, especialmente aqueles japoneses de mistério. Sempre tem alguma redação gigante para escrever depois que zera um Yakuza.
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