Análise: Detective Instinct: Farewell, My Beloved se apoia no ombro de gigantes, sem perder a própria identidade

Visual novel homenageia a era de ouro dos jogos de aventura para Nintendo DS enquanto tece uma tese original e sincera.

em 26/11/2025
É fácil perder a fé no futuro dos videogames como arte e/ou entretenimento quando olhamos apenas para o cenário AAA. Não quero dizer que não existe nada de valor nesse meio, mas é inegável: muito do que se é lançado pelos grandes estúdios prioriza as sensibilidades de um punhado de acionistas a criar algo que se conecte ao público geral. O foco é desenvolver um produto, um brinquedo, não um objeto artístico — o que também se traduz em identidades visuais pouquíssimo inventivas. Quando foi o último The Game Awards que não mostrou meia dúzia de trailers indissociáveis um do outro, todos com gráficos “mais reais que a realidade”? 

Nesses tempos de desespero e crise estética, quem costuma salvar o dia é o desenvolvedor indie. A maioria não tem o maquinário dos “bambambãs” para a venda do próprio peixe; todavia, isso também significa que não existe uma chefia obcecada com linhas em gráficos, que mata qualquer embrião de ideia ousada demais para mantê-las pelo menos retas. 

Tudo isso nos leva a Detective Instinct: Farewell, My Beloved, um projeto concebido por verdadeiros nerds de visual novels de mistério — com certeza, se estivesse nas mãos de uma publicadora grande, teria recebido no máximo uns dois posts de promoção no ex-Twitter por ser nichado demais (alô, PARANORMASIGHT: The Seven Mysteries of Honjo, um dos melhores lançamentos de 2023, que dominou a conversa… entre outros “nerdolas” da minha estirpe, digo).

O curto game, de cerca de 6 horas, resgata clássicos do gênero de aventura, fazendo referência especial ao Nintendo DS: influências óbvias são as séries Ace Attorney, Zero Escape e Hotel Dusk (se liguem nessas análises linkadas, quase todas do santo ano de 2009). Resumir a empreitada a nostalgia pega-trouxa, por outro lado, seria uma grave injustiça. Bora embarcar neste trem? 

Todos a bordo

Nossa história começa em Vendreka, um país europeu fictício. Um homem cai da janela do quinto andar de um hotel. Nosso protagonista, um rapaz cujo nome é decidido pelo jogador (escolhi “Bryant”, uma versão em inglês de “Makoto”, nome de alguns detetives de outros títulos dos quais gosto; o nome “canônico” parece ser Nick), é confundido com o possível assassino por um policial atrapalhado. O detetive na cena do crime, como forma de pedir desculpas, deixa que o moço e sua amiga/colega de classe Emma façam uma investigação amadora por ali.

Terminados os trabalhos, “Bryant” e Emma, junto do professor Martin, que trouxe os dois consigo a Vendreka para um trabalho de campo, embarcam em um trem de volta para casa. No primeiro dia de três da viagem, Emma encontra uma mulher soturna, tem um papo levemente preocupante com ela e promete encontrá-la para o almoço… só que não a acha de jeito nenhum, e todos ao seu redor dizem que a dama misteriosa nem existe.

O que se segue é uma curta aventura que, apesar de envolvente, não aposta muito na parte mais detetivesca. Os mistérios são simples de seguir, ainda mais porque, a cada final de capítulo, nós voltamos ao vagão de dormir e recapitulamos tudo o que aprendemos naquele dia, com direito a pequenos quizzes para garantir que o jogador está seguindo a mesma linha de raciocínio do enredo (quem conseguir se perder só precisa da boa e velha força bruta). 

Também contamos com um sistema de anotações generoso, que junta automaticamente as informações mais importantes. É tudo muito conveniente, mas arrisca trivializar demais a experiência. Diria que por aqui só há um único “momento eureca” que necessita juntar certas peças de maneira consciente, o que, como pessoa que adora ter de usar lápis e papel para solucionar problemas em games de mistério, é uma pena.

Talvez a simplicidade dos problemas lógicos sirva, por outro lado, para casar gameplay e enredo: nossos dois personagens principais são meros estudantes de Letras procrastinando nos TCCs, não detetives com décadas de experiência. A dificuldade está mais ou menos alinhada com o que a dupla seria capaz de resolver, dentro deste contexto. Ainda assim, um pouquinho mais de substância nesta parte teria feito bem; pelo menos a parte boa é que é um bom jogo introdutório para quem não está acostumado ao gênero.

Até onde ir pela “verdade”?

Passadas as críticas, é hora de discutir o maior trunfo de Detective Instinct: Farewell, My Beloved — a história. Assim como nos games dos quais o roteirista, compositor e diretor Joey Lopes gosta tanto, o cerne da narrativa está nas discussões morais que promove, especialmente a respeito dos limites da curiosidade.

Sem dar spoilers, pode-se dizer que o tecido conectivo das várias pequenas histórias contadas aqui é uma reflexão geral sobre a responsabilidade de um investigador. Em certo ponto, por exemplo, o detetive Daltrey, da polícia de Vendreka, tem uma frase que resume seu personagem: “eu posso até ser uma boa pessoa, mas eu sou um policial bem ruinzinho”. Daltrey faz referência a uma certa situação delicada, que expõe as falhas do sistema ao qual serve — exercer sua função “direito” teria arruinado a vida de uma pessoa. 

Falando no elenco, a princípio, nos deparamos com uma série de arquétipos comuns, facilmente aplicáveis e sem muita profundidade: a menina curiosa, o mentor sábio, a ricaça arrogante, o velho coitado, entre outros. Ao longo do tempo, contudo, descobrimos que todos são pessoas completas além dessas definições rápidas, com histórias, arrependimentos, afeições e rancores. Até os dois personagens mais rasos, que servem mais para cenas de comédia, brincam com esse estilo narrativo ao dizerem “peraí, nós não somos só essa única piada!”. 

Da seriedade à leveza, o game não só compreende o estilo narrativo de suas musas (o protagonista tem o mesmo senso de humor do Junpei de 999, sério) como o doma muito bem para os próprios propósitos. O único problema para nós, brasileiros, é que não há uma versão em português, e como há bastante texto para ser lido, é melhor estar com o verbo to be em dia.

Saudade do 2.5D, né, minha filha?

Por fim, gostaria de discutir a parte estética, a parte final do quebra-cabeça que junta Detective Instinct a todos os jogos que almeja ser. Nas redes sociais, Joey Lopes postou uma série de vídeos discutindo não só o processo de desenvolvimento em termos de arte, como também tudo que inspirou a abordagem final.

Usamos aqui uma mistura de pixel art para sprites de personagens, cenários pré-renderizados em 3D e cenas mais detalhadas (CGs) em um estilo de linhas finas, feitas pela artista jetorojo_. O resultado enche os olhos: não quero bater na mesma tecla, porém seria muito fácil confundir este título com um artefato perdido da época do DS, o que, conforme já discutimos, vai muito além do superficial: até na arte, conseguimos ver um nível de pesquisa e cuidado que só um fã maluco (no bom sentido) teria. 

Para finalizar, uma trilha sonora magnífica, cortesia do próprio Lopes, amarra todos os outros elementos: bastante baixo, violino e piano dão a atmosfera perfeita de mistério, opressiva e convidativa (no sentido de querer ser desvendada) ao mesmo tempo.

Tomara que não seja mesmo adeus, mas até logo

Detective Instinct: Farewell, My Beloved bebe de ricas fontes e entende perfeitamente seus valores nutricionais, trazendo suas próprias contribuições ao gênero de mistério e não se limitando apenas a copiar o que deu certo. É uma graduação de fã para autor que poderia muito bem ter se perdido no fascínio; graças às próprias fortes crenças, evita graciosamente esse destino.

Prós

  • Mistério fácil de seguir e amigável a novatos;
  • História interessante, em conversa com o gênero de detetive;
  • Personagens realistas, que subvertem estereótipos;
  • Humor afiado e leve;
  • Belíssima apresentação visual;
  • Excelente trilha sonora.

Contras

  • Elementos de gameplay ralos demais;
  • Não está disponível em português.

Detective Instinct: Farewell, My Beloved — PC/Switch — Nota: 9.5
Versão utilizada para análise: PC

Revisão: Thomaz Farias
Análise produzida com cópia digital cedida pela Armonica LLC

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Hiero de Lima
Jornalista formada pela PUC-SP e eterna apaixonada por videogames, especialmente aqueles japoneses de mistério. Sempre tem alguma redação gigante para escrever depois que zera um Yakuza.
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