Bloodborne: A Song of Crows é um belo e obscuro pesadelo febril com a caçadora de caçadores, Eileen, o Corvo

Entre imagens belas e outras grotescas, temos um conto de simbolismo feito para quem busca mais contemplação do que compreensão.

em 18/06/2026

Primeiro, vimos uma introdução geral às histórias em quadrinhos de Bloodborne, lançadas pela Titan Books desde 2017 e que permanecem inéditas em português. Naquele mesmo texto, comentei ainda sobre o volume inicial, The Death of Sleep, que traz uma narrativa próxima da perspectiva de quem joga, colocando como protagonista uma caçadora na busca por transcender a Noite da Caçada, com ação e vários personagens vindos diretamente do próprio jogo.

Como cada volume é individual e fechado em si mesmo, o segundo deles, The Healing Thirst, partiu para outro conto, mostrando uma Yharnam nos dias que antecederam a caçada, quando ainda havia pessoas sãs em meio ao crescente surto da doença do sangue. Naquele volume, acompanhamos uma dupla improvável: um pesquisador e um padre, ambos tentando descobrir o que está por trás da contaminação que assola a cidade.

Agora, chegamos ao nosso terceiro texto, dedicado ao terceiro volume: A Song of Crows.


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“O tempo é o túmulo mais profundo de todos.”

Considero A Song of Crows o volume mais questionável dos seis por ser o mais críptico e menos convencional. No entanto, é nele que a arte está mais impactante, fazendo-o valer a pena pelo visual.

A história é um pesadelo febril que se equilibra de maneira tênue sobre uma estrutura vaga e informe. Se, ao ler esse volume, você achar que entendeu muito pouco, é porque de fato há pouco a entender. Compreensão não parece ser um dos objetivos dessa HQ, que se coloca, antes de tudo, como um mergulho imagético na psique confusa de uma caçadora de idade avançada.

Diferentemente dos outros contos, desta vez o centro é uma personagem conhecida: Eileen, o Corvo. No jogo, ela é uma NPC aliada com uma missão própria, sendo uma caçadora de caçadores corrompidos pelo frenesi de matar feras.


Sempre com uma máscara, Eileen indica ser idosa e é uma estrangeira, vinda de terras além de Yharnam. Assim, acaba sendo conhecida pelo sotaque diferente, que lembra o do norte da Inglaterra, pronunciando uma frase famosa de Bloodborne, “a hunter must hunt” (um caçador deve caçar) de uma maneira que a comunidade de jogadores escreve de forma estilizada como “a hoonter must hoont”.

Parece, portanto, uma contradição que o único volume que escolhe como protagonista uma personagem conhecida do jogo conduza suas páginas da forma menos definida e atraente ao público em geral.

Os eventos mostrados parecem se passar após a campanha principal, uma vez que, no game, Eileen está mais em forma e mentalmente sã do que na HQ. A própria impossibilidade de definir o tempo com clareza é, na verdade, um dos temas da história, que começa com a caçadora pensando a frase: “quando é isto?”.

Nossas mentes podem se confundir com lugares, mas experimentam o tempo de forma linear e, assim, mais definida. Por isso, é muito mais comum que nos sintamos perdidos no espaço (“onde é isto?”) do que no tempo. O restante do pensamento da protagonista já serve de alerta ao que esperar dessas quatro edições que formam o terceiro volume:
“Quando é isto? Quando é. Não importa o quanto você tente entender… Quando. …você nunca saberá a história toda. Nem a sua. Nem a de ninguém.”
Sem diálogos, os textos são todos fruto da mente de Eileen, a quem acompanhamos em meio ao silêncio que a cerca. Há até uma edição que, salvo por uma frase, é completamente desprovida de palavras, reforçando o caráter de contemplação de mistérios imagéticos que marca este volume como um todo.

"O que é entendido tem pouco valor, a menos que seja superado pelos sonhos" (Micolash)

Igualmente percebido logo na primeira página está o grande destaque em A Song of Crows: o trabalho estético. Igual ao que acontece nos volumes anteriores, somos recebidos na abertura por um quadrinho de página completa com um portão aberto, como se nós, os leitores, também entrássemos aquele lugar amaldiçoado. Desta vez, vemos Eileen entrando nos terrenos da Academia Byrgenwerth, sob a neve e sob a pesada lua vermelha, baixa no céu.

Os cenários detalhados, os quadrinhos organizados em uma grade simétrica com um vai e vem de cenas no espaço e tempo e, mais do que tudo, as cores frias e atmosféricas, realmente fazem deste volume um espetáculo gráfico. Um espetáculo mórbido, porém, bem mais grotesco do que os demais e um pouco mais do que eu gostaria. Afinal, essa é uma canção para corvos, pássaros carniceiros muito familiarizados com os horrores da morte e da decomposição.


É difícil recomendar A Song of Crows, mas ele ainda pode ser fruído dentro de sua proposta de espiral desorientada, contanto que as expectativas estejam no lugar certo sobre o que não esperar: uma trama substanciosa, um descortinamento da história de nossa caçadora mascarada e, muito menos, de Byrgenwerth, um lugar tão importante para os males escondidos nos abismos narrativos de Yharnam.

É uma leitura que será melhor aproveitada aos que se deixarem levar pela viagem indistinta por um fluxo de imagens de belas cores, simbolismo não explicado, rituais funerários repulsivos e os fragmentos de uma mente que não consegue mais distinguir o aqui e o ali do tempo. É uma experiência voltada à contemplação, feita para ser observada e sentida como corvos debruçados sobre os cadáveres abaixo.

Continua

Até agora, as histórias em quadrinhos de Bloodborne renderam seis volumes. Portanto, estamos apenas na metade das resenhas e ainda temos muitas páginas pela frente. O próximo texto será sobre o quarto volume: The Veil, Torn Asunder.

Revisão: Thomaz Farias

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Victor Vitório
Admiro videogame como uma mídia de vasto potencial criativo, artístico e humano. Jogo com os filhos pequenos e a esposa; também adoro metroidvanias, souls e jogos que me surpreendam e cativem, uma satisfação que costumo encontrar nos indies. Veja minhas análises no OpenCritic.
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