Bloodborne: The Healing Thirst: o médico, o padre e o sangue antigo

Um conto de pouco antes da Noite da Caçada, quando a doença do sangue já assolava o povo de Yharnam.

em 04/06/2026

No artigo anterior, vimos uma introdução geral às histórias em quadrinhos de Bloodborne, lançadas pela Titan Books desde 2017 e que permanecem inéditas em português. Naquele mesmo texto, comentei ainda sobre o volume inicial, The Death of Sleep, que traz uma narrativa próxima da perspectiva de quem joga, colocando como protagonista uma caçadora na busca por transcender a Noite da Caçada, com ação e vários personagens vindos diretamente do próprio game.

Cada volume é individual e fechado em si mesmo e, agora, chegamos ao nosso segundo texto, dedicado ao segundo volume: The Healing Thirst (a sede curativa, em tradução livre).
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“Era uma vez, quando ainda acreditávamos que poderíamos impedir que o inferno se abatesse sobre nossa terra”

Não apenas as histórias são separadas de um volume a outro, mas também as abordagens e o estilo narrativo tem diferenças, algo que já podemos notar nesta edição. Nela, vemos Yharnam antes da Noite da Caçada, quando cidadãos ainda seguiam com seus afazeres pelas ruas e os padres conduziam rituais nas igrejas.

A doença do sangue já havia começado e dizimava a população, porém, até então, podia-se dizer que a cidade funcionava em algum nível e nem todas as esperanças estavam perdidas. As pessoas comuns contavam com os caçadores, que patrulhavam as ruas em busca de feras — nesses dias, elas ainda não enxameavam cada esquina.

Também contavam com a Igreja da Cura, que administrava o misterioso sangue antigo nos doentes e obtinha o que parecia ser bons resultados. É uma perspectiva interessante porque mostra Yharnam um pouco como sociedade, antes de ser o palco do frenesi que a esvaziou de sanidade.


É uma história que não se preocupa em mostrar ação, luta, chefões e personagens conhecidos do jogo, preferindo acompanhar as dúvidas e investigações de dois homens que, mesmo partindo de premissas diferentes, no fundo almejam o mesmo objetivo de entender melhor a calamidade que se abateu sobre a cidade gótica: um é médico e, o outro, padre da Igreja da Cura.

Neles, temos uma dupla de protagonistas que se alternam em conduzir as páginas de The Healing Thirst. Juntos, conferem à história um bom ritmo que se afasta do horror cósmico e o traz para o corpo, em um suspense de epidemia que lembra as pestes que assombram a Europa algumas vezes desde a Idade Média.

“Em Yharnam, nada é curado de verdade”

Assim, o arco narrativo tem algo de convencional: acompanhamos personagens em suas buscas, pensamentos, mudanças e segredos que vêm à tona enquanto descobrem terrores ocultos sob a corrupção urbana.

Isto é, The Healing Thirst apresenta explicações sobre o pano de fundo de Bloodborne que, por mais que sejam apenas um recorte limitado às descobertas e consequências das ações do médico Alfredius e do padre Clement, trazem pontos relevantes para a trama do game.

Como a intenção não é expandir a criação do mundo ou desvendar seus enigmas, não vemos muito que os entendedores da lore já não saibam, mas certamente o jogador médio terá o benefício de esclarecimentos interessantes sobre a doença do sangue e a igreja. Ambos, no entanto, poderão apreciar os horrores da decadência de Yharnam e sua transformação irreversível que vemos se desenrolar nas páginas como uma infecção que se agrava e espalha, contaminando a esperança.


Um bom recurso narrativo empregado para o tom de segredos e conspirações é o diário, algo que ambos os protagonistas fazem. Neste ponto, o letrista da HQ pesou a mão na tentativa de representar a caligrafia clerical de Clement, o que pode prejudicar um pouco o fluxo da leitura, porém não a impede.

No campo visual, particularmente, não gosto muito de como o desenhista traça alguns rostos de personagens, mas a arte dos cenários, que já era boa em The Death of Sleep, aqui se vale mais da arquitetura opressiva da cidade, com sua verticalidade sufocante de escadarias, torres, pontes e terraços, decorados de estátuas agonizantes, como que prenunciando os males que os cidadãos já começam a sofrer. É, sem dúvidas, uma boa representação do coração da cidade que vemos no material base.


Ao fim de tudo, vejo The Healing Thirst como um conto yharnamita bem posicionado e executado, sabendo escolher bem o seu recorte para dialogar com Bloodborne de maneira interessante. Devo admitir que eu gostaria que a trama se aprofundasse mais nos desdobramentos e conexões diretas ao jogo, contudo, considerando a estrutura de quatro edições de 22 páginas, penso que houve bom aproveitamento dentro das possibilidades editoriais.

Dos quatro volumes roteirizados por Ales Kot, esse é o meu favorito.

Continua

Até agora, as histórias em quadrinhos de Bloodborne renderam seis volumes. Portanto, apenas começamos as resenhas e ainda temos muitas páginas pela frente. O próximo texto será sobre o terceiro, chamado A Song For Crows, estrelando a caçadora de caçadores: Eileen, o Corvo.

Revisão: Thomaz Farias
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Victor Vitório
Admiro videogame como uma mídia de vasto potencial criativo, artístico e humano. Jogo com os filhos pequenos e a esposa; também adoro metroidvanias, souls e jogos que me surpreendam e cativem, uma satisfação que costumo encontrar nos indies. Veja minhas análises no OpenCritic.
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