Bloodborne: The Death of Sleep adapta o pesadelo de Yharnam para os quadrinhos

O primeiro volume da HQ se coloca na pele de uma pessoa jogando.

em 24/03/2026

Bloodborne
completou hoje, 24 de março, 11 anos desde seu lançamento em 2015. Aclamado como um dos grandes jogos da história, ele continua injustamente preso até hoje ao PS4.

É claro que o título pode ser acessado no PS5 com a retrocompatibilidade, mas é uma experiência sofrível, muito diferente de seus irmãos Sekiro e Dark Souls 3, que são imensamente beneficiados no console atual da Sony pelas atualizações que receberam para o PS4 Pro, mantendo a fluidez dos 60 FPS e até a resolução de 1800p. Ou seja: uma atualização dessas seria o bastante para a revitalização que Bloodborne sem dúvidas merece.

Mesmo assim, podemos dizer que Bloodborne existe em pelo menos mais dois lugares: em nossos corações e nas HQs da Titan Comics.

Sobre a série como um todo

A editora britânica produziu antes algumas edições baseadas em Dark Souls, mas minhas pesquisas sobre elas me fizeram evitar a compra do volume completo, que já esteve em ótimas promoções em lojas online.

Com Bloodborne, porém, a coisa foi diferente, entregando histórias em quadrinhos interessantes que sempre estão diretamente ligadas à cidade de Yharnam e seu destino terrível sob a luz da lua. As capas neste artigo são as das quatro edições que compõem o primeiro volume, The Death of Sleep.


Até agora, a Titan Comics publicou 24 edições, compiladas em seis volumes. Escritos pelo tcheco Ales Kot, os quatro primeiros são histórias completamente individuais, compreendendo arcos fechados em torno de personagens específicos. Já o quinto e o sexto volume, que tiveram mudança de autor para o estadunidense Cullen Bunn, trazem uma continuidade entre si.

É possível encontrarmos todos os seis volumes no varejo online e o melhor custo benefício é adquirí-los em caixas de três volumes, com preços que variam entre R$ 165 e 190. Comprá-las individualmente é mais caro, ficando na faixa dos R$ 80 a 90.

Enquanto Kot faz mais uso do caráter onírico de Bloodborne, com enredos mais abstratos, intimistas e fragmentados, Bunn tece tramas um pouco mais concretas, o que, em geral, torna sua contribuição uma leitura mais acessível.


Eu gostei dos trabalhos dos dois autores e penso que o ideal seria uma mistura dos estilos. Seria bom se cada volume construísse em cima do anterior, deixando o conjunto mais coeso de uma forma que um fortalecesse os demais, contudo, essa questão é de planejamento editorial, fora da alçada do autor. O que temos, no entanto, é algo mais próximo a uma coletânea de contos.

Embora os 16 capítulos dos quatro primeiros volumes tenham sido lançados em 2018 e 2019, o restante só veio a público em 2022 e 2023. Não sei dizer se o hiato foi motivado pela pandemia de covid-19, mas a retomada tardia foi uma boa surpresa. O sexto volume saiu em 2024, há quase dois anos, o que não é animador para ao futuro da série, porém a Titan Comics não parece ter desistido totalmente dela, uma vez que o primeiro volume foi relançado no final de 2025 em uma edição de luxo.

Neste artigo inicial, vamos ver mais sobre o primeiro volume, The Death of Sleep, mantendo os spoilers apenas no necessário para explicar a abordagem da adaptação.

Volume 1: The Death of Sleep (A Morte do Sono)

“Busque sangue pálido para transcender a caçada”

Há muito a ser reconhecido por quem jogou, tanto de locais quanto personagens. Temos aparições de Gherman e a Boneca no Sonho do Caçador, Iosefka em sua clínica e também de Djura, o NPC com metralhadora no topo da torre em Velha Yharnam.

Os inimigos também vêm diretamente do game, com cidadãos transformados em feras, cães infectados, serpentes da Floresta Proibida e, em especial, o grande perigo da história: a Fera Sedenta de Sangue, chefe opcional em Velha Yharnam.


Para minha experiência pessoal, a escolha dessa criatura é bastante eficaz, pois foi essa desgraçada que quase me fez desistir do jogo na primeira vez. Foi também ela que, quando a derrotei, me fez sentir que havia captado o jeito do desafio e, como um ritual de passagem, me fez sentir pronto para o restante do título. Não, eu não sabia que ela era uma chefe opcional e que o caminho correto era entrar na catedral para enfrentar Vigária Amélia, muito mais fácil. Mas tudo deu certo no final, então voltemos à HQ.

Nossa caçadora protagonista está em busca de Sangue Pálido, um elemento misterioso do qual se fala ser capaz de transcender a caçada. Isso é de fato muito importante, pois a caçada é virtualmente infinita, uma verdadeira prisão de eterno pesadelo sobre matar e morrer continuamente na peleja contra monstruosidades incompreensíveis.


Nessa questão, a história acerta ao representar esse aspecto crucial da campanha de Bloodborne. A caçadora não se lembra mais do começo do ciclo, porém começa a entender sua condição quando sua memória adormecida revela coisas que ela não deveria saber. Isso acontece porque ela já as viveu antes e, agora, as experimenta uma vez mais — exatamente como quando jogamos, morremos e tentamos novamente. Tem direito até a um quadrinho com a tela de falha, ornada pela escrita vermelha “You Died”.

Outras mecânicas vindas diretamente do jogo também se fazem presentes, como usar a lanterna para ir ao Sonho do Caçador e as coisas invisíveis que apenas aqueles dotados de Discernimento são capazes de enxergar.

“Querido, oh querido. O que foi: a caça, o sangue ou o sonho horrível?”

A narrativa, porém, é ainda mais obscura que a do jogo, levada em ritmo de impressões e instintos, sem certezas definidas. Por isso, coisas estranhas acontecem, perspectivas mudam, aparições despontam sem desdobramentos práticos, e nomes e conceitos são mencionados sem qualquer preocupação de explicá-los.

É claro que quem tem experiência com Bloodborne entenderá um pouco mais sobre tudo isso, mas é bastante óbvio como a história não foi pensada para entendimento racional e sim para o envolvimento em uma atmosfera profunda. Para apreciá-la, é preciso aceitar o mistério e não se preocupar com revelações e soluções. A própria caçadora não entende o que está vivendo naquelas páginas, ou mesmo quem realmente é.


O objetivo impressionista dá certa vantagem à leitura, pois exime quem lê de ter grande conhecimento prévio daquele mundo. Por outro lado, reduz ainda mais o seu público de nicho, pois há aqueles que jogaram e gostariam de ver explicações do que não entenderam na narrativa fragmentária do game ou, pelo menos, uma expansão detalhada da construção de mundo. The Death of Sleep passa longe disso.

Eu circulo entre os três olhares: tive a expectativa por esclarecimento, desejei ver novas ramificações diretas e, não encontrando essas coisas, permiti-me ser envolvido pela atmosfera do texto e do visual e aceitei o mistério como ele é: inescrutável.

Por isso, eu recomendo bastante a leitura de The Death of Sleep a quem tiver a disposição esperada pelo autor: ser conduzido por um pesadelo gótico, mórbido e desesperador, sem esperar uma luz no fim do túnel ou um desfecho que seja minimamente conclusivo.

"Sim, a caçada precisa continuar. É tudo o que nos mantém humanos, agora"

Como The Death of Sleep é apenas o primeiro dos seis volumes de Bloodborne, espere ver mais deles por aqui em resenhas futuras.

Enquanto isso, confira meus textos sobre outra HQ de produções da FromSoftware: o mangá Elden Ring: O Caminho para Térvore. Transformando o maior épico da empresa em uma enorme comédia, esse foi um conceito do qual duvidei no começo, mas que, com o passar dos volumes, me convenceu de sua qualidade e se justificou perfeitamente como uma excelente adaptação do jogo, por mais inusitada que a ideia possa soar.

Revisão: Thomaz Farias
Siga o Blast nas Redes Sociais
Victor Vitório
Admiro videogame como uma mídia de vasto potencial criativo, artístico e humano. Jogo com os filhos pequenos e a esposa; também adoro metroidvanias, souls e jogos que me surpreendam e cativem, uma satisfação que costumo encontrar nos indies. Veja minhas análises no OpenCritic.
Este texto não representa a opinião do GameBlast. Somos uma comunidade de gamers aberta às visões e experiências de cada autor. Você pode compartilhar este conteúdo creditando o autor e veículo original (BY-SA 4.0).