Análise: World Heroes Perfect reapresenta uma pancadaria através do tempo num pacote seco em conteúdo

Revivendo um clássico cult do Neo Geo, a nova versão peca na jogatina solo.

em 02/05/2026
Durante o auge dos jogos de luta impulsionado por Street Fighter II, o Neo Geo transformou-se em um espaço para experimentações de várias desenvolvedoras. A própria SNK dominava o gênero em termos de quantidade e qualidade, mas outras parceiras tentaram aproveitar a "febre do momento". Dentre elas, havia a ADK, uma empresa que ajudou no desenvolvimento do Neo Geo e que também produziu algumas obras até 1997.


A ADK não ficou de fora da moda e desenvolveu seu próprio jogo de luta, a franquia World Heroes, que atualmente pertence à SNK, assim como todas as suas criações. Apesar de ser limitado e ter uma mecânica bastante tradicional, World Heroes se destacava pela proposta inovadora de colocar personagens históricos para lutar em um cenário contemporâneo (para os anos 1990).

Desde então, houve mais três jogos dessa série, e o mais recente, World Heroes Perfect, será relançado para PC como parte da linha Neo Geo Premium Selection. Deixando de lado alguns recursos como o modo Death Match de seus predecessores, o quarto e último título da franquia é o mais refinado, apesar de parecer um pouco ultrapassado até mesmo para 1995.

Nos anais do tempo

Um ano depois dos acontecimentos do segundo jogo, Dr. Brown organiza mais uma edição do torneio World Heroes para determinar quem é o mais forte. A diferença é que, em vez de todos os lutadores serem trazidos para a modernidade, eles são teletransportados para várias épocas. Dezesseis guerreiros devem se enfrentar, incluindo novos rostos e todos os que já apareceram antes.

A premissa de World Heroes Perfect é concentrar todos os esforços no que torna um jogo de luta envolvente para a época, e ele consegue fazer isso com sucesso na jogabilidade. Combos são mais agradáveis de executar, existe uma barra de especial para realizar supers, o layout dos botões foi ampliado e diversos heróis ganharam novas habilidades para as batalhas.

World Heroes Perfect define um sistema de "seis botões", dividido entre socos e chutes, com variações de força. Como o controle do Neo Geo tinha apenas quatro botões, os ataques fortes eram realizados pressionando dois botões de soco e chute. A nova versão possibilita o mapeamento de botões a mais para esses ataques, o que é bastante útil.

No que diz respeito às mecânicas, a principal adição está na barra Hero, que possibilita o uso de supers. O mais simples melhora um dos ataques especiais de cada personagem, enquanto existe um outro secreto que requer comandos excêntricos, como um bom jogo de luta dos anos 90, concedendo a cada lutador um ataque especial chamativo e poderoso que pode decidir uma batalha. Ademais, se o jogador tiver apenas 50% de vida, o secreto se tornará ainda mais poderoso.

Isso inclui um dos especiais mais "que?!" da história dos jogos de luta.
World Heroes Perfect se destaca pela sua agilidade, que é o seu maior triunfo. No entanto, em 1995, ele ficou atrás de seus concorrentes no aspecto técnico, principalmente por ainda usar os sprites do jogo original de 1992. Apesar das novas animações, Perfect perdia feio para títulos como Real Bout Fatal Fury, Samurai Shodown III e Darkstalkers.

No entanto, gostaria de ressaltar o quão interessantes são os cenários, que se tornam ainda mais fascinantes com a premissa de viagem no tempo. Existem períodos na formação dos tempos, na Era do Gelo, na Revolução Industrial e até na Era Genroku do Japão. Os fundos ainda são bem animados e planejados, o que ajuda a minimizar a defasagem técnica visual.

Revisitar o jogo neste relançamento me causou um choque na parte sonora, principalmente por ser um jogo bastante simples em sua instrumentação, utilizando mais os canais FM do Neo Geo em uma época em que os samples começaram a predominar nas músicas da plataforma. World Heroes Perfect soa como um Mega Drive turbinado, evidenciando que a ADK havia estagnado em suas criações.

A maior parte desses aspectos acaba funcionando mais como revisionismo histórico do que como algo que impacte sua reedição, já que se trata de um jogo antigo revisitado em tempos modernos, permitindo uma apreciação isolada. Fiquei impressionado com a fluidez do jogo, e o grande elenco da época conseguiu manter bem a jogabilidade.

Um premium pouco gourmet

Como se trata de um relançamento da linha Neo Geo Premium Selection, todos os recursos de Real Bout Fatal Fury 2: The Newcomers e Kizuna Encounter: Super Tag Battle estão incluídos. O online se destaca com o rollback netcode, graças à Code Mystics, que quase sempre acerta na implementação de boas conexões pela internet.

Há também uma galeria com aproximadamente 30 obras de arte, além das cenas finais de cada personagem, que são desbloqueadas ao vencer o modo arcade com cada um deles. Além disso, existe uma nova ilustração feita por Nayu Harada, uma artista novata da SNK, e é sempre interessante ver os personagens de World Heroes com um estilo moderno.

Não há muito a se fazer nas partidas solo, pois só existem o modo arcade e o treino para experimentar. As ferramentas de treino são bastante sólidas para uma emulação, porém achei um pouco estranho não haver a opção de visualizar as hitboxes dos lutadores. Essa funcionalidade estava presente em Real Bout Fatal Fury 2 e Kizuna Encounter, e é uma pena que não tenha sido replicada em World Heroes Perfect.

Há uma série de recursos visuais clássicos de jogo requentado. Além de uma alternativa estranha para tentar suavizar os efeitos piscantes que simulavam transparência em monitores CRT com efeito de ghosting, existe um filtro bilinear para disfarçar os pixels — sem dúvida, um dos piores filtros que já vi. E, como era de se esperar, há scanlines para quem gosta das clássicas linhas horizontais na tela.

No entanto, a interface do menu apresentada em World Heroes Perfect, apesar de visualmente funcional, me incomodou pela lentidão das transições. O simples ato de pausar e acessar a lista de movimentos, por exemplo, é precedido por uma animação longa, tornando a experiência de navegação muito lenta.

Uma revisita que poderia ser melhor

O relançamento de World Heroes Perfect pode ser considerado o mais específico da Neo Geo Premium Selection, porém oferece aos jogadores a oportunidade de uma nova chance. Embora seja tecnicamente datado para seu lançamento original, a jogabilidade é divertida, e os recursos mecânicos introduzidos aqui o colocam à frente de seus predecessores.

É uma pena que a tentativa de transformar essas revisões em uma linha premium da SNK não esteja sendo tão bem-sucedida devido à escassez de opções e novidades em cada título, resultando na entrada mais desinteressante da iniciativa.

Prós:

  • World Heroes Perfect ainda é um jogo bastante competente, com a implementação de super especiais e novos movimentos para os heróis veteranos;
  • Modo de treino muito bem-vindo, algo que não estava presente no título original;
  • A implementação do online utilizando rollback netcode é sempre bem-vinda.

Contras:

  • A navegação nos menus é muito lenta, um defeito que não estava presente até então na linha Neo Geo Premium Selection;
  • Poucos conteúdos nessa edição, o que continua indo um tanto contra a premissa de “versões de luxo” nesses relançamentos.
World Heroes Perfect — PC — Nota: 6.5
Revisão: Heloísa D’Assumpção Ballaminut
Análise produzida com cópia digital cedida pela SNK
OpenCritic
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Alecsander "Alec" Oliveira
Um ser que está nesse mundo dos joguinhos desde criança. Fã de games com vibe mais arcade e arqueólogo de velharias, mas não abandona experiências mais atuais. Acompanha a mídia de podcasts, dublagem e ouvinte assíduo de VGM. Pode ser encontrado como @AlecFull e semelhantes por aí.
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