Como falei no texto sobre o YM2612, o chip de som do Mega Drive, vários aparelhos dos anos 1980 e 1990, como teclados musicais, computadores e máquinas de fliperamas, contavam com sintetizador de modulação de frequência (ou FM). A tecnologia permitia uma alta versatilidade na criação de sons a baixo custo.
Dentre os hardwares mais importantes da década de 1990 encontra-se o Neo Geo. O lendário monstro da SNK não só estava à frente de seu tempo nas capacidades gráficas para 2D, como também em seu som, providenciado pelo chip YM2610, que foi andando lado a lado com a evolução técnica dos jogos do sistema.
Entendendo mais uma engenharia da Yamaha
Produzido pela Yamaha, o Yamaha YM2610 era um hardware extremamente capaz. Na sua seção de síntese FM, o chip apresentava quatro canais e, tal qual o Yamaha YM2612 do Mega Drive, conseguia utilizar quatro operadores em cada canal. Isso permitia que múltiplas ondas interagissem entre si, gerando timbres mais complexos e evitando sons lineares, o que ampliava as possibilidades para os compositores.
Para entender melhor a operação na prática, vamos utilizar uma música em osciloscópio abaixo. Repare como as ondas FM não são regulares: isso ocorre porque uma onda portadora tem sua frequência alterada por outra moduladora.
Magician Lord (Magician Lord, 1990)
Além disso, o YM2610 também conta com o YM2149 embutido em sua arquitetura, permitindo três canais de PSG (chamado pela Yamaha de SSG), um tipo de síntese simples baseado em ondas quadradas. É parecido com a forma como o Master System trabalhava, e era mais usado como acompanhamento do que assumindo as partes de melodia principal nos jogos do sistema.
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| YM2610 (e o YM3016 auxiliar) na placa-mãe do Neo Geo AES. Fonte: The Copetti Site |
Comparando com outras plataformas da mesma época, o Neo Geo se sobressaía sobre todos os consoles da terceira e quarta geração. O YM2612 do Mega Drive apresentava seis canais FM, mas apenas um podia ser transformado em reprodutor de PCM e com diversas limitações de espaço e sem pós-processamento. Já o SPC700 do Super Nintendo tinha uma liberdade invejável para trabalhar com oito canais de samples, mas era limitado pela minúscula memória dedicada de 64 KB, dependendo do pós-processamento para burlar as deficiências.
Embora seja um sistema de cartucho, o Neo Geo sempre contou com maior espaço de armazenamento. Magician Lord, usado de exemplo acima, é uma obra de 46 Megabits, e o título mais pesado do sistema, The King of Fighters 2003, contava com mais de 700 Megabits. A qualidade técnica das músicas foi evoluindo conforme os jogos aumentavam de tamanho, até chegar em um platô natural da mídia.
Livin on the Deck (Metal Slug X, 1999)
Note como canais FM servem como auxiliares para as amostras.
Podemos ter o YM2610 como o melhor dos dois mundos nos 16 bits. Apresentava o áudio cristalino e metalizado do Mega Drive por ser um sintetizador nativo, enquanto possuía as qualidades do Super Nintendo sem suas limitações de armazenamento e memória, sendo versátil para músicas enérgicas e mais ambientais caso a desenvolvedora desejasse.
Claro, todo esse trabalho precisa ser comandado por outros chips, que fazem o poder bruto de conversão, armazenamento e “organização” dos canais. O Neo Geo conta com o popular Zilog Z80 para atuar como processador dedicado ao áudio, enquanto o YM3016 serve como conversor do sinal digital do YM2610 para o analógico em formato DAC, permitindo que os alto-falantes emitissem os sons devidamente mixados.
Alguns destaques
Vamos dar uma passada em alguns destaques do rico cancioneiro das obras do Neo Geo, e vale começar com Fatal Fury, que talvez seja a franquia que mais representa a evolução técnica do hardware com o passar dos anos na parte gráfica. Lembrem-se, a primeira entrada é de 1991, e colocando lado a lado com o imponente Garou: Mark of the Wolves de 1999, parecem duas gerações diferentes de tão díspares.
No tema musical, o primeiro Fatal Fury nos apresentou uma estranha obra musical cantada para ser tema do brasileiro Richard Meyer. Embora não dê muito para entender o que está sendo dito — parece uma tentativa de falar em português com sotaque japonês — é algo que nenhum outro sistema de cartucho conseguiria reproduzir com a mesma fidelidade. E vale lembrar que esse tema foi rearranjado para Super Smash Bros. Ultimate, com a vinda de Terry Bogard ao jogo.
The Halema School of Capoeira's Battle Song (Fatal Fury: King of Fighters, 1991)
Embora Garou seja o último Fatal Fury do Neo Geo, o representante de qualidade musical fica para Real Bout: Fatal Fury Special e Real Bout: Fatal Fury 2. A obra que nos trouxe Rock Howard tem boa parte de seu espaço de armazenamento ocupado pelas absurdas animações e efeitos gráficos, deixando pouco espaço para samples de alta qualidade. A canção da então novata Li Xiangfei é uma mescla ideal de PCM com FM para um tema energético, tal qual a lutadora.
Manly Help for the Female Support [Competitive Poem] (Real Bout Fatal Fury 2: The Newcomers, 1998)
The King of Fighters também passou por algo parecido, evoluindo a qualidade do áudio até a edição de 1999, caindo de 2000 em diante devido à enorme quantidade de sprites para o espaço, que mesmo exorbitante para a mídia, não era mais o suficiente. É a franquia que mais representa o talento do time de compositores da SNK como um todo, devido à variedade gigante de gêneros musicais.
Napolitan Blues (The King of Fighters '94, 1994)
Sha La La (The King of Fighters '99, 1999)
Ainda exaltando os compositores da casa de KOF, fico impressionado até hoje com tamanha personalidade nas amostras de áudio selecionadas para suas obras. O caminho mais convencional era usar samples de teclados populares como Roland SC-55 — cujo Nobuo Uematsu usou com Final Fantasy do VIII ao X —, mas a SNK parecia variar bastante na instrumentação. Não se tem muita informação de como eram feitas as versões de cartucho, mas essa equipe arrasava bastante nas versões de CD, com instrumentação real. Vai saber se eles não gravavam algumas notas durante o processo de produção.
Saindo da pancadaria e indo para o tiroteio, Metal Slug sempre contou com trilhas sonoras memoráveis desde sua estreia. Misturando rock e jazz para ambientar a guerra satirizada da série, o terceiro jogo é um dos ápices técnicos do Neo Geo (em todos os sentidos).
Midnight Wandering (Metal Slug 3, 2000)
Já Metal Slug 4 e 5, obras pós-falência da SNK, foram para uma direção curiosa. Em vez de usar os canais separadamente, resolveram usar o ADPCM-B para fazer streaming de uma faixa musical, praticamente como se estivessem rodando um áudio MP3 no chip. O feito é impressionante e provavelmente economizou tempo de produção, mas contras existem, como a compressão diminuindo a fidelidade sonora e a saída é exclusivamente mono em vez de estéreo.
Final Attack (Dencyu's Remix Version) (Metal Slug 5, 2003)
Durante as minhas pesquisas para este texto, descobri que a maioria das third parties optou por usar o benefício de streaming do YM2610 em vez de produzir pensando nos canais separadamente. Dentre esses jogos temos Breakers, da Visco; Neo Bomberman, da Hudson Soft; Puzzle Bobble, da Taito; Pulstar e Blazing Star, ambos da Aicom; e todas as produções da Noise Factory, como Rage of the Dragons, Sengoku 3 e Matrimelee.
Limited Ability (Sengoku 3, 2001)
World 1 (Neo Bomberman, 1997)
Já outras, em destaque aqui a Data East e a Sunsoft, não tomaram esse “atalho” e fizeram uma boa passagem no Neo Geo em sua forma nativa, e curiosamente, escolhi dois temas com vocais aqui. O primeiro é um tema de Street Hoop, com um sample adaptado para música; enquanto o segundo nos apresenta uma genuína abertura de anime representando Arina no jogo de luta Waku Waku 7.
Yo! What's Up? (Slam Court) (Street Hoop, 1994)
Waku Waku doesn't Stop (Waku Waku 7, 1996)
Por fim, para representar o estilo mais orquestrado, podemos falar de Samurai Shodown e The Last Blade. Ambos se passam em épocas remotas da história do Japão, e enquanto a saga de Haohmaru busca mais por sons ambientes e instrumentos nipônicos, as dramáticas batalhas de Kaede, Yuki e Moriya vão para uma direção mais melancólica e erudita que não deixa nada a dever a um bom JRPG de PlayStation e Super Nintendo.
Blaze (Samurai Shodown IV: Amakusa's Revenge, 1996)
First Movement 'Moonlight Swordsmen -Decision at Dawn-' (Theme I) (The Last Blade 2, 1998)
As maravilhas dos sintetizadores
É impressionante ver a evolução do Neo Geo com o passar dos anos em todas as suas partes técnicas, e o som é uma delas. Acho fascinante como esses hardwares feitos para economizar espaço de armazenamento lidavam com suas limitações, e o Neo Geo é o sistema com o maior teto dentre essas ressalvas, fazendo o sistema sobreviver por praticamente três gerações de consoles.
Caso você não conheça a parte musical do videogame/arcade ou nunca tenha dado muita atenção para essa parte como dá para outras plataformas da mesma época, recomendo dar uma ouvida tanto pelo YouTube quanto por sites com VGMRips. É um período curioso na história dos videogames que não deve ser negligenciado.
Revisão: Vitor Tibério
Referências: The Copetti Site












