Análise: Cthulhu: The Cosmic Abyss traz investigações submarinas além das profundezas cósmicas

Sem reinventar o gênero, o título da Big Bad Wolf encontra na investigação e na tensão psicológica uma execução acima da média.

em 16/04/2026


Falar de abordagens lovecraftianas nos videogames é trazer à tona um histórico muito variável a nível qualitativo, especialmente por conta da reinvenção necessária na hora de trazer os contos e tomos para um espectro prático de gameplay, seja de forma quase direta, como o Call of Cthulhu da Focus Entertainment, seja de maneira superficialmente temática, como o pavoroso EMOTIONLESS: The Last Ticket, considerado por este site um dos piores lançamentos de 2025, ressalta-se. Apesar do escrutínio gratuito, é válido notar que há vários jogos bacanas que se enquadram nessa segunda categoria — e Cthulhu: The Cosmic Abyss é um deles.

Extrativismo Abissal

Ambientado em 2053, o que até dá para ser considerado um futuro próximo, Cthulhu: The Cosmic Abyss conta com uma abordagem que se sustenta na ideia de um mundo à beira de um colapso capitalista silencioso. Os recursos do planeta são finitos e estão se esgotando, então as megacorporações tiveram que expandir o movimento extrativista para as profundidades não desbravadas dos oceanos. Nesse aspecto, é bem interessante como uma das premissas do horror lovecraftiano — procurar respostas para alguma problemática além da compreensão humana — foi curiosamente bem traduzida aqui.




Fazendo uma digressão, aliás, ocorreu-me que essa ideia é uma releitura mais sóbria de uma trilogia de episódios da décima quarta temporada de South Park, a que envolve o Guaxinim e Amigos, a equipe formada pelos alter-egos de super-herói das crianças do desenho. No segundo episódio, Guaxinim 2: Retrospectiva, há o caso de uma petroleira que acaba perfurando um buraco fundo demais no Golfo do México e acaba invocando o próprio Cthulhu, que posteriormente é cooptado por Cartman em um complô contra seus ex-companheiros de equipe. Nisso, o maior absurdo da história toda é quando a empresa liberou um vídeo com seu CEO pedindo desculpas em um campo florido como se estivesse se retratando por quebrar um copo e não por desencadear um apocalipse cósmico.

Enfim, retornando ao que interessa, no jogo desenvolvido pela Big Bad Wolf, estúdio também responsável pelo medíocre Vampire: The Masquerade – Swansong, o jogador assume o papel de Noah, agente da divisão Ancile, uma ramificação secreta da Interpol dedicada a investigar fenômenos ocultos.




Sua missão é apurar o desaparecimento de mineradores em uma instalação extrativista de hidrogênio submersa nas profundezas do Oceano Pacífico. Como era de se esperar, a tarefa acaba se desdobrando em uma conspiração bem maior que envolve os tais horrores cósmicos sobrenaturais e indescritíveis.

Apesar de tudo, esse não é o primeiro contato que Noah tem com o Mito de Cthulhu, uma vez que o jogo opta por introduzir um prólogo mais controlado em que o protagonista, ao lado de Elsa, uma colega de trabalho, investigam a casa abandonada de Mei, uma pesquisadora desaparecida do oculto.




Durante essa sequência, o jogador consegue se habituar com tranquilidade a vários dos sistemas e logo entende o funcionamento de alguns quebra-cabeças ambientais mais práticos, como um diagrama de inscrições na parede que precisa ser completado com outras folhas de papel desenhado e que estão espalhadas pela cômoda. Também é nesse prelúdio que o jogador tem o primeiro contato com um portal de dimensão cósmica e por pouco consegue escapar por lá, ao custo, inclusive, de sua integridade física.

Esse primeiro cenário é bacana porque consegue estabelecer com precisão o tipo de jogabilidade que Cthulhu: The Cosmic Abyss tem a intenção de explorar. O horror não se sustenta em ameaças físicas e confrontações diretas, mas do desconforto surgido de certas tomadas de decisão que impactam negativamente a psique de Noah e do próprio jogador.

O título depende bastante do próprio ambiente para provocar esse tipo de sentimento. A instalação submarina onde os mineradores sumiram, por exemplo, é um complexo industrial colapsado e comprometido, sendo que é nítido que alguma coisa estranha aconteceu por lá, dada a forma com que certos resíduos orgânicos extradimensionais consumiram boa parte das estruturas metálicas do local, por exemplo.




O maior problema nesse aspecto é que, embora competente na hora de trazer esse grotesco ao campo do realismo, o jogo não ousou tanto quanto poderia a nível estilístico, mesmo nas sequências mais abissais e metafísicas da campanha. Adicionalmente, a progressão dentro de alguns espaços não é muito dinâmica, já que, em determinados momentos, o jogador acaba sendo levado a revisitar áreas já exploradas em busca de pistas não percebidas anteriormente, o que pode tornar o ritmo um pouco mais arrastado do que o ideal.

Mistérios ocultos sob o véu do horror transdimensional

Um dos maiores méritos de Cthulhu: The Cosmic Abyss é conseguir promover a sinergia entre os ambientes e sua jogabilidade primariamente investigativa. Há uma infinidade de elementos interativos que podem ser examinados pelo jogador a um nível tridimensional, uma vez que a tela correspondente permite a manipulação desses objetos a fim de encontrar pistas nos seus mínimos detalhes, como uma inscrição escondida na base de uma estatueta, por exemplo.




Adicionalmente, essa análise também serve para identificar a composição material desses elementos e serve de base para o sistema de sonar, outra mecânica importante no progresso da investigação conduzida por Noah ao longo da campanha. Funcionando como um radar de varredura, o jogador pode configurá-lo para emitir frequências capazes de indicar a localização de outros elementos com a mesma assinatura.

É um recurso interessante porque há uma variedade considerável de matérias-primas cuja assinatura pode ser registrada e buscada pelo sensor, seja de forma individual, seja por combinações específicas que ajudam a afunilar a busca de forma direcionada. É um instrumento que serve como uma extensão do raciocínio lógico, sem necessariamente entregar a resposta em uma bandeja.




Pistas encontradas e devidamente examinadas vão ser registradas no painel de acervo, um quadro onde elas podem ser dispostas e organizadas, cabendo ao jogador manipulá-las e entrecruzá-las a fim de fazer com que elas façam algum sentido na hora de solucionar algum problema ou dúvida que surja. Apesar de o game indicar que algumas podem ser combinadas, o jogador precisa utilizar da própria lógica para estabelecer essas correlações nas situações em que os sistemas de acessibilidade estão desligados, sem o auxílio de uma condução mais explícita.

Adicionalmente, é de praxe que qualquer trabalho que se baseie na obra de Lovecraft inclua também elementos relacionados à tenuidade da saúde mental daqueles que se envolvem com esses horrores de escala cósmica. Portanto, um dos atributos aos quais é necessário se manter atento é o da corrupção, que cresce no âmago de Noah diante das decisões que ele toma diante de uma investigação de múltipla resolução.




Na prática, trata-se de um sistema de certo e errado que indica que o raciocínio lógico foi completo, o que indica que todas pistas foram devidamente correlacionadas ou se algo ficou faltando antes de prosseguir na história e na resolução de suas problemáticas. Deliberações errôneas fazem com que o grau de corrupção aumente a influência da força do Grande Ancião sobre Noah, enquanto as acertadas diminuem esse eixo.

Nota-se que o protagonista, para realizar investigações mais aprofundadas sobre certos elementos, utiliza-se de Fragmentos de Estimulante, um recurso energético extraído dos líquens orgânicos presentes nos ambientes. Caso o estoque acabe, é possível também aumentar o grau da própria Corrupção para realizar a ação, o que pode ser útil em certas situações de urgência em que tal recurso não foi muito bem gerenciado.




Adicionalmente, ainda dentro dessa correlação entre a psique e a base lovecraftiana do game, há também uma espécie de árvore de habilidade que pode ser evoluída através da análise de relíquias antigas. As características desbloqueáveis servem como uma evolução prática, a nível de gameplay mesmo, para Noah, como a ampliação do alcance do Sonar. É bacana que a justificativa narrativa para isso vem que, ao entender melhor esses achados arqueológicos ancestrais, o personagem está também expandindo os limites da própria mente e facilitando a compreensão plena do cosmo, esse tipo de coisa.

A tênue linha entre a razão e a loucura

Cthulhu: The Cosmic Abyss é um trabalho derivado da obra de Lovecraft muito interessante porque ele conseguiu trabalhá-la com propriedade, sem deixar de se aprofundar de maneira correta em seus temas ou aproveitá-los apenas a nível estético. Sem recorrer apenas aos elementos mitológicos de uma forma superficial, o jogo faz um bom trabalho na hora de estruturar sua experiência em torno de uma jogabilidade investigativa que traz algum grau de complexidade e ainda trabalhar a dicotomia entre a abordagem lógica acerca de acontecimentos cósmicos muitas vezes ilógicos e além da compreensão. Pode até não ser algo particularmente original dentro do gênero, mas encontrar uma execução tão consistente e bem direcionada quanto essa ainda está longe de ser comum.

Prós

  • Sistema investigativo robusto e satisfatório;
  • História instigante que consegue manter uma sinergia com a jogabilidade;
  • Abordagem competente da mitologia e dos temas lovecraftianos.

Contras

  • Apesar da competência gráfica no todo, faltou ousadia estética em sequências cósmicas;
  • A progressão pode ficar arrastada em alguns trechos, especialmente em momentos de backtracking.

Cthulhu: The Cosmic Abyss — PC/PS5/XSX — Nota: 6.5
Versão utilizada para análise: PS5 
Revisão: Vitor Tibério
Análise produzida com cópia digital cedida pela Nacon
OpenCritic
Siga o Blast nas Redes Sociais
João Pedro Boaventura
É jornalista formado pelo Mackenzie e pós-graduado em teoria da comunicação (como se isso significasse alguma coisa) pela Cásper Líbero. Tem um blog particular onde escreve um monte de groselha e também é autor de Comunicação Eletrônica, (mais um) livro que aborda história dos games, mas sob a perspectiva da cultura e da comunicação.
Este texto não representa a opinião do GameBlast. Somos uma comunidade de gamers aberta às visões e experiências de cada autor. Você pode compartilhar este conteúdo creditando o autor e veículo original (BY-SA 4.0).