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Análise: Call of Cthulhu (Multi) é um adventure problemático

Call of Cthulhu atiça a curiosidade, mas não vai muito além de sua ambientação e narrativa.

Uma das mais temidas criaturas saídas da mente do escritor H.P. Lovecraft, Cthulhu, ganha um game neste ano de 2018. Baseado em um RPG de mesa de mesmo nome, a desenvolvedora Cyanide procura criar um mundo semi-aberto, com ambientes aterrorizantes e uma narrativa que se molda conforme você joga em primeira pessoa. Infelizmente nem tudo isso funciona de forma interessante, ou aterrorizante, lembrando mais uma série de terror estranha lançada por ai. Mas claro, vamos por partes e sem spoilers.

A insanidade está por todo lado

Nessa jornada controlamos o detetive particular Edward Pierce, que em uma crise em sua carreira sem aceitar mais nenhum caso novo, recebe a visita de um pai preocupado com a possibilidade da morte de sua filha Sarah em um incêndio não seja um acidente. Edward parte para Darkwater, a ilha onde se passa o jogo inteiro, para investigar a possível verdade. Essa é uma premissa batida, mas aqui inicialmente funciona de forma bem interessante, principalmente quando chegamos à ilha, cheia de pessoas bêbadas, marinheiros e trabalhadores.



Os desenvolvedores até tentaram deixar tudo mais sinistro, com diálogos e personagens estranhos, mas, diferente de jogos como Life is Strange (Multi), aqui fica difícil se importar com eles. Isso pode ser influência da falta de cuidado em enriquecer os personagens ao invés de se preocupar exclusivamente no mistério que envolve a morte de Sarah. Existem suas exceções, como uma mafiosa que encontramos ao chegarmos na ilha, ou uma das médicas do manicômio.

A possibilidade de escolher o que dizer não impacta muito, já que muitos personagens simplesmente desaparecem, e quando voltamos a vê-los simplesmente não é relevante como você agiu com ele anteriormente. Isso gera algumas situações muito estranhas narrativamente falando, como a possibilidade de salvar duas pessoas em uma situação de perigo, em que o jogo em nenhum momento trabalhou um deles de forma decente, fazendo a escolha ser bem óbvia. Outro exemplo é quando podemos ser legais com um homem para ele nos dar uma chave e ele sumir completamente da história. Tirando as escolhas finais, não vi muitas ramificações para a narrativa, e isso é uma falha triste em um jogo baseado em um RPG de mesa.


Investigativo sim, RPG talvez

Uma das coisas que pensei quando comecei a jogar, é que ele seria um RPG de terror, talvez até seja um pouco, mas ele parece muito mais um adventure com algumas características do role-playing game. Muitas de suas mecânicas são voltadas a investigação, como o modo detetive, parecido com do Batman - Arkham Origins (Multi), que não trazem muita novidade. Chegamos em um cenário específico, e interagimos com alguns objetos para tentar deduzir o que aconteceu. Além dos documentos, que complementam de forma bem interessante toda a história, e dos diálogos referentes a Darkwater, que nos enriquecem bem a todo esse cenário decrépito.

Também podemos melhorar alguns quesitos do Edward em uma árvore de habilidades conforme prosseguimos na história. É nessa mecânica que ele se destaca dos demais adventures do mercado, também puxando um pouco do sistema do Social Link de Persona 5 (PS3/PS4). Para realizar algumas ações ou alguns diálogos, temos que ter alguns pré-requisitos. Em uma situação eu não pude falar sobre o sobrenatural com uma personagem, pois não tinha nível de Ocultismo o suficiente. Isso nos mostra outro problema, pois mesmo que você não consiga fazer certas coisas o jogo foi projetado para você chegar no seu destino sem dificuldades, com poucas variações e consequências.



O clima de terror é elevado um pouco com a perspectiva em primeira pessoa do título, o estúdio toma a atitude de deixar as cenas de corte em terceira pessoa, quebrando muito o ritmo da história, uma hora somos Edward, outro estamos vendo o protagonista agir. Esse vai e vem me tirou um pouco da narrativa, principalmente por que as animações são terríveis, tanto corporal quanto facial, e se distrair olhando esses defeitos é muito fácil. Mas claro que em alguns momentos essa visão é uma boa ideia, principalmente quando temos que fugir de alguém, lembrando um pouco Outlast (Multi).

O semi mundo aberto também não funciona como imaginei, já que os cenários não são grandes, e a exploração não acontece por longos períodos. Podemos até tentar outros caminhos para resolver alguns puzzles, mas novamente, o jogo sempre te leva para o mesmo lugar depois. Como no começo do jogo, onde temos que entrar em um galpão protegido, em um primeiro momento parece que temos muitas opções para resolver esse impasse, e realmente temos: podemos dar bebida para alguns marinheiros começaram uma confusão, também podemos tentar ir por uma passagem subterrânea. Mas o final sempre é o mesmo, apanhamos e somos jogados em um canto do cenário, e temos que recomeçar todo o processo, ou pedir que a chefe local abra a porta.



Infelizmente em nenhum momento me senti jogando um RPG, não que o jogo deva ter lutas ou algo assim como sua base pode ter, mas um melhor trabalho em apresentar sua narrativa e personagens seria um ótimo começo. Pois o que me manteve jogando foi somente o mistério do Chamado do Cthulhu e em nenhum momento suas mecânicas.

O belo no terrível

Esse título não é um exemplo de primor gráfico, até possui alguns bugs referentes a isso, mas com certeza sua direção de arte é bela e aterrorizante, cheia de detalhes macabros, como animais mortos, barcos destruídos, pacientes loucos, criaturas do Cthulhu, entre outros. Todos esses detalhes deixam a minha experiência bem mais rica, até me fazendo parar para observar os horizontes em ambientes abertos, e ver a decadência nos lugares fechados. O que ajuda é a acertada paleta de cores que dita o tom verde sórdido da jogatina, que até tem uma explicação narrativa para acontecer. Esse com certeza é um ponto positivo na jornada pela verdade de Edward.


As músicas não estão muito presentes, mas fazem o bom trabalho de compor alguma cena quando aparece, nada memorável aqui. Já a dublagem não peca, e consegue entregar o que é esperado, o que atrapalha é a falta de sincronia e animações, como já disse lá em cima.

E agora?

Call of Cthulhu me decepcionou. Estava esperando muito um RPG aterrorizante e o que recebi foi um adventure com vários problemas. Mesmo a intrigante narrativa não segura o jogo inteiro, e o terror prometido não acontece por mais da metade da jogatina. Infelizmente suas falhas são mais gritantes que seus méritos. Talvez o melhor seja explorar o RPG de mesa em que ele foi baseado, a experiência pode ser mais divertida.


Prós

  • A ambientação realmente te leva para Blackwater;
  • O enredo é intrigante e rodeados de mistérios.

Contras

  • Os gráficos possuem alguns problemas de renderização;
  • As animações corporais e faciais não são boas;
  • Poucas consequências nas suas escolhas;
  • Muitos personagens mal aproveitados;
  • O terror não é explorado por boa parte da jogatina;
  • As mecânicas de RPG são bem fracas.
Call of Cthulhu — PS4/XONE/PC — Nota: 5.0
Versão utilizada para análise: PS4
Análise produzida com cópia digital cedida pela Focus Home Interactive
Revisão: Link Beoulve
Matheus Bigai Ferreira escreve para o GameBlast sob a licença Creative Commons BY-SA 3.0. Você pode usar e compartilhar este conteúdo desde que credite o autor e veículo original do mesmo.

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