Análise: A Investigação Póstuma une atmosfera noir e cultura brasileira em um thriller intrigante

Descubra quem matou Brás Cubas para se livrar de um loop temporal em uma versão noir do Rio de Janeiro da década de 1930.

em 30/03/2026

A safra de produções independentes no mercado de games brasileiro vem gerando cada vez mais frutos. Desde jogos de corrida, experiências caóticas com temática cyberpunk, passando por metroidvanias, roguelikes com inspiração histórica e bullet heavens nonsense, o mais novo hit nacional tem como inspiração um dos escritores mais cultuados da literatura brasileira: Machado de Assis.

A Investigação Póstuma, desenvolvido pelo estúdio Mother Gaia e distribuído pela Critical Leap em parceria com a Nuuvem, leva o jogador a uma versão noir do Rio de Janeiro para investigar um mistério que paralisou a cidade e o tempo: quem matou Brás Cubas? Prepare o sobretudo e o chapéu para mergulhar em uma trama sem precedentes — uma aventura que, mesmo em preto e branco, tem muito de verde e amarelo.

Rio de Janeiro, 1937

O dia amanheceu como qualquer outro na Cidade Maravilhosa no final da década de 1930. Na pele de um detetive particular, ao partir para mais um dia de trabalho, somos surpreendidos com uma carta de ninguém mais, ninguém menos do que Brás Cubas — um dos homens mais conhecidos, influentes e cobiçados da alta sociedade fluminense.


A carta, entretanto, traz um pedido bastante inusitado: o próprio Cubas está contratando nossos serviços para investigar um assassinato. A vítima? Ele próprio. A poucos metros do escritório, em um beco ao lado da farmácia, um aglomerado de pessoas — entre policiais e curiosos — tenta ver o que aconteceu. Era a cena do crime onde o corpo de Cubas havia sido encontrado.

Atendendo ao pedido póstumo do cliente, iniciamos a investigação para entender a dinâmica do caso, identificar os suspeitos e compreender suas motivações. Há, porém, algo além do fato de nosso cliente ser o próprio defunto: Cubas nos prendeu em um loop temporal que nos faz reviver o dia seguinte à sua morte, permitindo uma busca minuciosa por todos que, de alguma forma, tinham relação com ele.


Assim, Cubas deixa claro que só nos libertará dessa prisão temporal quando descobrirmos o autor de seu assassinato. Inicia-se, então uma investigação sobrenatural que mostrará que todos são suspeitos até que se prove o contrário.

Uma versão charmosa e curiosa do Rio

Um dos principais destaques de A Investigação Póstuma é, sem dúvida, o universo criado pela Mother Gaia que povoa e alimenta a criatividade desta versão do Rio. Em materiais de divulgação, a equipe revelou que batizou este mundo de Machadoverso. Como já ficou evidente, a principal inspiração para a trama central do jogo veio de Memórias Póstumas de Brás Cubas, uma das obras mais marcantes da literatura brasileira.


Contudo, a publicação de 1881 serviu apenas como ponto de partida, já que o jogo incorporou personagens também inspirados em outras obras machadianas, como Dom Casmurro, Quincas Borbas e O Ateneu. Quem já teve contato com as obras de Machado de Assis — ou tem seus personagens como referência — vai se identificar bastante com as menções a nomes e locais enquanto percorre o Rio em busca de pistas.

Falando na cidade, a Mother Gaia traduziu de forma bastante charmosa o clima do Rio nesta versão em 1937, mesclando-o com a estética noir que consagrou obras de suspense e policiais ao redor do mundo. Isso deu, ao mesmo tempo, uma identidade ímpar, mas ainda familiar, do Rio de Janeiro, com referências a locais e costumes.


O trabalho de ambientação é cuidadoso em todos os aspectos: os cenários detalhados, a linguagem rebuscada de alguns personagens e a trilha sonora que transita entre o jazz e a bossa nova coroam a imersão neste pequeno mundo em tons de cinza. Descobrir aos poucos cada canto da cidade se torna uma tarefa divertida e acolhedora.

Fica uma menção mais que especial à atuação de Rodrigo Lombardi como Brás Cubas na sequência que dá início ao jogo. Mesmo sendo um trabalho mais modesto se comparado até mesmo a outros que o próprio Lombardi já realizou nos games, isso já é uma bela forma de nos introduzir ao game.

Com o tempo contra e a nosso favor

O loop temporal é a principal mecânica de gameplay de A Investigação Póstuma. É ele que limita o quanto podemos nos dedicar a uma determinada atividade antes que o dia acabe e recomece. Dentro de uma janela de 15 horas, das 9h à meia-noite,  é preciso aprender a administrar o tempo para obter novas evidências que ajudem a elucidar o crime que ceifou a vida de Cubas.


Nos primeiros momentos, as tarefas são básicas e abundantes: vários locais para visitar, pessoas com quem conversar e muita informação inicial para coletar. Conforme a investigação avança, o jogador começa a aprender dinâmicas essenciais para acessar novos locais, abordar personagens com janelas de disponibilidade curtas e coletar pistas e itens úteis para a investigação.

Tudo custa tempo. Cada pergunta feita a um suspeito consome preciosos minutos, que podem fazer o jogador perder uma janela de oportunidade para outro evento. Contudo, como o dia sempre se repete, mesmo chegando atrasado ou perdendo a chance de encontrar alguém, é possível tentar novamente no ciclo seguinte.


Causas e consequências também abrem possibilidades. Uma desavença no início do dia pode impedir que determinado evento ocorra, enquanto um gesto gentil pode render benefícios algumas horas depois. Todas as escolhas são válidas para esclarecer dúvidas e coletar relatos que ajudem a compreender o crime.

Ao fim de cada ciclo, somos levados ao Limbo, onde o falecido patrão aguarda para saber como anda a investigação. É nesse momento que reunimos as informações coletadas e montamos os dossiês de cada suspeito, compreendendo suas rotinas, conexões entre si e motivações para comportamentos suspeitos — peças fundamentais para montar o elaborado quebra-cabeça do crime. Cubas ainda oferece orientações sobre os próximos passos: um suspeito a interrogar com base em uma nova evidência, um local inexplorado, entre outras indicações.


Conforme a jornada avança, o emaranhado de informações se transforma em uma verdadeira teia, levando o jogador a ligar os pontos sobre quem seguir, onde estar e quando agir para obter novas informações. Situações que, a princípio, parecem uma perda de tempo revelam-se, mais adiante, ligadas ao crime contra Cubas.

É uma dinâmica que exige paciência e astúcia para aproveitar ao máximo as 15 horas do loop e avançar na investigação, mesmo que de forma gradual. Não é um trabalho fácil, mas descobrir algo que, em um primeiro momento, estava bem diante dos nossos olhos é, sem dúvida, bastante gratificante.

Deveras intrigante e especial

A Investigação Póstuma é um jogo bem executado, que se destaca na cena independente brasileira por reunir qualidades difíceis de encontrar em um único título. A narrativa é envolvente, a estética noir está bem resolvida, a trilha sonora cumpre seu papel com personalidade e a mecânica de loop temporal oferece profundidade suficiente para manter o jogador engajado ao longo de toda a campanha.

O principal ponto de atenção fica por conta do ritmo. A progressão pode se mostrar lenta em determinados momentos, especialmente para jogadores menos familiarizados com o gênero investigativo — e a quantidade de informações acumuladas ao longo dos ciclos exige paciência e disposição para revisitar pistas e conversas já conhecidas.

A Investigação Póstuma é um título consistente, com identidade cultural marcante e potencial para conquistar um público além dos fãs de produções independentes. Tal como Brás Cubas diz em suas Memórias Póstumas, "Só as grandes paixões são capazes de grandes ações", a Mother Gaia criou algo que só mesmo alguém apaixonado pelo que faz seria capaz.



Prós

  • Narrativa envolvente e bem construída;
  • Estética noir com identidade visual marcante;
  • Trilha sonora que transita entre o jazz e a bossa nova com personalidade;
  • Mecânica de loop temporal bem calibrada e desafiadora;
  • Ambientação cuidadosa e rica em referências culturais brasileiras;
  • Homenagem criativa e respeitosa à obra de Machado de Assis.

Contras

  • Ritmo lento que pode afastar jogadores menos familiarizados com o gênero investigativo;
  • O grande volume de informações acumuladas ao longo dos ciclos pode ser cansativo e difícil de administrar.
A Investigação Póstuma — PC — Nota: 8.0
Revisão: Thomaz Farias
Análise feita com cópia digital cedida pela Nuuvem
OpenCritic
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Alexandre Galvão
Produtor do BlastCast. Entusiasta da era 16-bit, fã declarado do PS2 e apreciador de jogos de cartas e de tabuleiro. Jogador casual de muitos e hardcore em poucos. Também conhecido como @XelaoHerege
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