Análise: Code Vein II aposta em viagem no tempo e mundo aberto para expandir a fórmula de seu antecessor

O novo título da Bandai Namco expande a escala, aprimora o combate e mantém confrontos memoráveis com chefes.

em 26/01/2026
Em 2019, a Bandai Namco apresentou Code Vein, uma fusão que unia a ação intensa e ambientação pós-apocalíptica de God Eater (série também criada pela empresa) com a precisão punitiva dos soulslikes, tudo envolto em uma estética e narrativa típicas de animes. Agora, mais de seis anos depois, Code Vein II não apenas expande diversos conceitos do original, como também transporta sua fórmula para a vastidão de um mundo aberto.

Para salvar o mundo, é preciso derrubar os heróis do passado

A história de Code Vein II se passa em uma realidade na qual a humanidade divide espaço com as Aparições, seres praticamente imortais que consomem sangue humano. Após a Ressurgência, um cataclismo que transfigurou grande parte das formas de vida em monstros abomináveis conhecidos como Horrores, essas entidades vampirescas ascenderam ao poder.

Apesar de uma figura denominada Idris ter conseguido controlar o caos no passado, essa proteção começou a falhar cerca de um século antes dos eventos do jogo. Durante uma batalha que ficaria conhecida como Insurgência, algumas das Aparições mais poderosas se sacrificaram ao serem aprisionadas em casulos para conter a calamidade. Infelizmente, a energia vital desses indivíduos se esgota com o tempo, fazendo com que as barreiras entrem em colapso e provoquem explosões devastadoras.

Nesse cenário de colapso iminente, assumimos o papel de um caçador amnésico que, após perecer ao salvar os habitantes de uma ilha, é ressuscitado por uma garota chamada Lou MagMell através da partilha de metade de seu coração. Juntos, eles partem em uma jornada para despertar os heróis selados e ceifar suas vidas antes que o esgotamento de energia provoque novas catástrofes. Para cumprir essa missão, a dupla conta com a habilidade única de Lou de viajar no tempo, revisitando o passado de cada região para descobrir como acessar o interior dos casulos.

A estrutura narrativa de Code Vein II é bastante similar à de seu antecessor: viajamos ao passado de cada herói, nos aliamos a ele e o ajudamos a resolver um conflito específico, enquanto descobrimos mais sobre seus traumas e memórias por meio de um poder especial do protagonista. Embora a conclusão de muitos desses arcos seja um tanto previsível, seguindo alguns dos padrões mais clássicos de animes infantojuvenis, o carisma dos personagens e os dramas apresentados garantem que a jornada seja genuinamente agradável de acompanhar.

Assim como na entrada anterior, o novo jogo da Bandai Namco traz um sistema de criação de personagens absurdamente amplo, no qual inúmeros detalhes do rosto, do corpo e das vestimentas podem ser manipulados à vontade. Além disso, o título conta com uma ótima dublagem em japonês (também há vozes em inglês) e oferece legendas em português. Por fim, vale ressaltar que não é necessário ter qualquer contato prévio com o primeiro Code Vein para aproveitar esta nova aventura.


Da linearidade ao mundo aberto

Na obra de 2019, a exploração era majoritariamente confinada a áreas fechadas e relativamente lineares, conectadas por pontos de descanso e atalhos desbloqueáveis. Embora alguns mapas explorassem a verticalidade e escondessem caminhos secretos com recompensas interessantes, a navegação permanecia amplamente guiada, oferecendo pouco espaço para desvios significativos.

Em Code Vein II, parte dessa base é mantida, mas com uma expansão considerável. O game ainda apresenta masmorras lineares, que concentram grande parte dos principais eventos narrativos, mas agora essas áreas estão interligadas por um mundo aberto de proporções consideráveis. Para facilitar a locomoção nesse ambiente mais amplo, o jogador conta com uma espécie de motocicleta.

Um ponto positivo dessa nova abordagem é o aumento da variedade nas regiões das missões secundárias. Enquanto no título anterior cumprir objetivos opcionais exigia revisitar áreas já exploradas durante a campanha principal, agora muitas dessas tarefas acontecem em locais específicos do mapa, projetados exclusivamente para elas, geralmente envolvendo a eliminação de Horrores para que os NPCs responsáveis pelos pedidos possam dar continuidade aos seus trabalhos.

Além do reposicionamento das subquests e da boa construção visual de um cenário pós-apocalíptico, o mundo aberto de Code Vein II entrega apenas os elementos básicos esperados em jogos desse porte: inimigos vagando livremente pelo cenário, incluindo alguns significativamente mais poderosos; áreas que se revelam no mapa à medida que pontos específicos são ativados; e itens de consumo ou melhorias espalhados pelo ambiente, funcionando como recompensa para jogadores mais curiosos que se desviam do caminho principal.

Embora o mapa não seja extraordinariamente grande em comparação com outros títulos do gênero, a mecânica de viagem no tempo introduz nuances distintas em cada era. Essa dinâmica altera principalmente a acessibilidade de certas áreas e masmorras, que podem estar abertas ou bloqueadas dependendo do período visitado. Além de diversos outros tipos de itens, explorar cada época com atenção é essencial para encontrar Cristais de Sangue Dourados e Néctares Dourados, que aumentam a eficácia e a quantidade do uso de cura.

Infelizmente, as masmorras com maior escala vertical continuam difíceis de navegar devido a um mapa deficiente, que não representa com clareza as variações entre os diferentes andares. Além disso, assim como no jogo anterior, há oscilações na taxa de quadros e pequenos atrasos no carregamento de algumas texturas. Embora esses problemas não tenham prejudicado minha experiência, jogadores mais exigentes podem se sentir incomodados.


O poder da parceria

O sistema de combate é o ponto em que Code Vein II realmente se destaca. Semelhante à estrutura popularizada pelas obras da FromSoftware, o título apresenta inimigos punitivos que exigem atenção constante à gestão da estamina, consumida ao atacar, defender ou esquivar. Além disso, o jogo também utiliza uma moeda única (Bruma) para subir de nível ou adquirir equipamentos; caso o jogador morra, perde esses recursos, e essa perda se torna definitiva se não conseguir recuperá-los antes de ser derrotado uma segunda vez.

A despeito dessas similaridades, a obra da Bandai Namco se diferencia por seu enfoque na agilidade e na combinação de diferentes tipos de maestria, aproximando-se de um estilo hack and slash. O combate também se apoia fortemente no uso de parceiros controlados por IA e em um sistema de personalização extremamente robusto. Sendo assim, se reduzir o produto de 2019 a um simples “anime souls” já era uma simplificação equivocada, nesta nova entrada, essa impressão se mantém, já que praticamente tudo que existia antes foi aprimorado e expandido.

Ainda que os inimigos comuns não apresentem uma variedade tão marcante, os chefes — especialmente aqueles ligados às missões principais envolvendo os heróis — se destacam visualmente, pelo desafio que oferecem e pelo que representam na história. Nesse sentido, tais oponentes possuem padrões de ataque distintos que exigem atenção e estudo por parte do jogador, tornando cada um desses confrontos bastante memorável e divertido.

Como mencionado, o jogador é acompanhado por um parceiro que atua de forma independente nas lutas. Esse companheiro pode ser trocado a qualquer momento, com novas opções desbloqueadas conforme o progresso na campanha. Um diferencial interessante é a flexibilidade de uso, já que é possível alternar instantaneamente entre mantê-lo como aliado ativo no campo de batalha ou utilizá-lo como uma espécie de invocação interna, sacrificando sua presença física para fortalecer diretamente os atributos e habilidades do protagonista.

Apesar de o aliado não morrer permanentemente, caso o protagonista caia em batalha, ele pode transferir parte de sua vitalidade para ressuscitá-lo, ficando temporariamente fora de combate. Se houver uma nova derrota durante esse intervalo, a morte torna-se definitiva. Contudo, longe de representar uma facilitação da experiência, esse sistema se harmoniza com a proposta do jogo, equilibrando o alto nível de punição imposto pelos chefes, que frequentemente são capazes de nos derrotar com apenas dois ou três golpes.


Construindo a build perfeita

O outro grande pilar do sistema de combate de Code Vein II é a personalização. Mais uma vez, temos a presença dos Códigos de Sangue, que funcionam como um sistema de classes. Cada especialização define valores específicos para seis atributos distintos, além de resistência para diferentes tipos de debilitações. A classe também impacta diretamente a capacidade de carga do protagonista, exigindo uma escolha cuidadosa para haver sinergia entre a categoria selecionada e o armamento equipado — seja ele focado em agilidade ou em força bruta.

Ampliando o armamento principal, o jogador pode equipar Formaes (habilidades de Aparição) ofensivas e defensivas. As variantes de ataque invocam armas etéreas para desferir golpes singulares, como um arco que permite investidas à longa distância ou um machado capaz de retardar o fluxo do tempo. Já as opções defensivas materializam diferentes tipos de escudos ou geram algum tipo de agilidade, proporcionando diferentes métodos de bloqueio e evasão.

As Formaes também se manifestam nas armas básicas, que podem ter até quatro habilidades atribuídas simultaneamente aos botões de ação, incluindo ataques físicos, habilidades mágicas e buffs. O sistema é complementado pelas Células, que possibilitam executar golpes de drenagem de sangue nos inimigos, convertendo esse recurso em Icor, a energia necessária para ativar as habilidades especiais. Vale destacar que, ao utilizar a drenagem em um inimigo atordoado, uma cena de finalização bastante estilosa é ativada, cujos golpes e animações variam de acordo com a Célula equipada.

Por fim, o usuário dispõe de quatro espaços para equipar Aumentos, que concedem efeitos passivos denominados Traços. Tais características podem exigir condições específicas para ativação ou até impor penalidades, oferecendo bônus que variam desde o incremento de atributos até mudanças drásticas no estilo de jogo — como a regeneração automática de Icor ao golpear, em troca de sofrer dano de recuo pelo excesso de sangue. É importante notar que diferentes Traços também podem surgir vinculados ao armamento básico e aos próprios Códigos de Sangue.

No conjunto, esse nível de personalização torna o combate de Code Vein II extremamente flexível, permitindo que o jogador adapte seu estilo a cada situação, inimigo ou preferência pessoal. Como o aumento de nível aprimora atributos gerais, não há penalidade na troca ou criação de novas builds, tornando a experimentação sempre bem-vinda. Ao mesmo tempo, há benefícios em manter uma identidade de combate e aprimorá-la, já que os Códigos de Sangue possuem níveis de proficiência que, quando maximizados, liberam versões otimizadas.

Uma evolução sólida

Code Vein II consegue expandir e refinar a fórmula de seu antecessor, oferecendo um combate ágil, desafiador e altamente personalizável, além de uma narrativa envolvente. A inclusão da mecânica de viagem no tempo e a transição para um mundo aberto adicionam variedade à exploração, embora este último aspecto não vá muito além do básico esperado para jogos dessa escala. No fim, apesar de beber da fonte de títulos cultuados, o jogo se firma como um RPG de ação com identidade própria.


Prós

  • Embora siga alguns clichês típicos de animes infantojuvenis, o drama pessoal dos heróis e o carisma do elenco de personagens mantêm o jogador engajado com a narrativa;
  • O sistema composto por Códigos de Sangue, Células, Formaes, Aumentos e Traços oferece ampla liberdade para criar, alternar e adaptar diferentes tipos de builds, complementada por um editor visual extremamente detalhado para o protagonista;
  • Combate ágil, divertido e desafiador, que equilibra a punição e o gerenciamento de estamina típicos dos soulslikes com a fluidez e velocidade de um hack and slash;
  • Chefes memoráveis, com visuais impressionantes, padrões de ataque distintos e grande relevância narrativa;
  • A despeito da simplicidade, a transição para o mundo aberto e as mudanças de cenário causadas pela viagem no tempo aumentam a sensação de escala e variedade, trazendo frescor especialmente às missões secundárias;
  • O sistema de parceria é bem executado dentro da proposta do jogo e essencial para equilibrar a alta letalidade dos chefes;
  • Legendado em português.

Contras

  • A nova estrutura não traz novidades relevantes em exploração, limitando-se ao básico esperado de RPGs de ação em mundo aberto;
  • O mapa continua falhando em representar a verticalidade das masmorras, dificultando a orientação entre os andares;
  • Oscilações na taxa de quadros e carregamento de texturas podem incomodar jogadores mais exigentes;
  • Enquanto os chefes são memoráveis, os inimigos regulares carecem de diversidade.
Code Vein II — PC/PS5/XSX — Nota: 8.0
Versão utilizada para análise: PS5
Revisão: Johnnie Brian
Análise produzida com cópia digital cedida pela Bandai Namco
OpenCritic
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Lucas Oliveira
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