Jogamos

Análise: Curious Expedition (Multi) atiça a curiosidade em um interessante roguelike

Lidere expedições a lugares inóspitos da Terra na companhia de notórias personalidades do século XIX.

A curiosidade sempre foi um grande combustível para os maiores progressos alcançados pela humanidade. Nutre o desejo pelo desconhecido e é sempre o pontapé inicial para iniciativas que resultaram em grandes descobertas feitas pela sociedade, como a insulina, a penicilina e até o palito de fósforo.




É essa mesma curiosidade que nos guia em Curious Expedition, um interessante roguelike de exploração que tem como protagonistas algumas das principais personalidades históricas da humanidade. Lidere grupos em expedições para explorar, descobrir e retornar para casa com fama, fortuna e até uma estátua no Clube dos Exploradores em sua homenagem.

“Em algum lugar, algo incrível está esperando para ser descoberto” – Carl Sagan

O objetivo de Curious Expedition é ser o mais bem-sucedido ao final de seis expedições a locais inóspitos da Terra. Selvas densas, desertos escaldantes, imensas áreas congeladas e até regiões pré-históricas e sobrenaturais. Inicialmente, devemos escolher o líder do grupo, uma personalidade histórica do século XIX.


Charles Darwin, Mary Kingsley, Nikola Tesla, Marie Curie e até H. P. Lovecraft são alguns dos grandes nomes que compõem o elenco de líderes de expedição no game. Cada um conta com, pelo menos, uma habilidade relacionada a sua personalidade, que dá alguma vantagem ao grupo. Por exemplo:
  • Entusiasta de Borboletas (Charles Darwin): Sempre que seu grupo encontrar uma borboleta durante a viagem, um pouco da sua sanidade será restaurada.
  • Mente Forte (Nikola Tesla): Fornece 20 pontos de sanidade a mais para o grupo de expedição.
  • Especialista em Desertos (Freya Stark): Revelação de oásis nas regiões de deserto.
Cada líder também conta com até dois membros e/ou um animal para aumentar os compartimentos de carga da equipe. A escolha do líder pode ser essencial para o sucesso ou o fracasso das expedições de sua equipe e nem todos estão disponíveis ao jogar pela primeira vez, exigindo que o jogador cumpra determinadas atividades para desbloquear os demais.

“Não tenho nenhum talento especial, só tenho paixão em minha curiosidade” – Albert Einstein

Antes de cada expedição, excluindo a primeira, é possível recrutar membros para seu grupo. Cada membro possui suas habilidades, assim como os líderes, e algumas desvantagens, como ser racista, sexista, alcoólatra, possuir alguma fobia ou ser supersticioso. Essas desvantagens podem ser um problema durante a expedição. Também é possível comprar alguns mantimentos, como ferramentas e kits médicos, e receber uma tarefa especial, como escoltar um missionário, levar uma carta ou obter um tesouro.

Os membros possuem pontos de lealdade que estão sempre variando, conforme as decisões que o jogador, representado pelo líder da expedição, toma. Por exemplo: digamos que um marinheiro de seu grupo seja racista e, ao descansar em uma aldeia, uma nativa, e negra, é recrutada para seu grupo. O marinheiro, ao recrutá-la, será menos leal a você por conta dessa decisão de integrá-la ao grupo, podendo se rebelar iniciando um combate, ou simplesmente abandonar a expedição, reduzindo a quantidade de itens que você pode carregar e ainda levando alguns embora com ele.

Um exemplo positivo é quando você recruta um beduíno para seu grupo. Eles possuem a habilidade de enxergar a longas distâncias. No jogo, isso é traduzido como uma área maior do mapa que é revelada ao se mover. Ou então um membro que tenha boa lábia e ajude a pechinchar na hora de negociar mercadorias.


Os mapas de cada localidade são gerados de forma procedural, fazendo com que cada sessão de jogo seja única. Com o formato de um grande tabuleiro hexagonal, as áreas desconhecidas são reveladas conforme o grupo se move e ao encontrar pontos de interesse como aldeias, ruínas e santuários.


Sempre que um ponto de interesse é revelado no mapa, seu grupo ganha pontos que são representados por uma estrela no canto superior direito da tela. Ao obter pontos suficientes, o líder pode promover algum membro da expedição, fazendo com que ele tenha mais pontos de vida e, eventualmente, receba um novo dado de ação.

Como em um RPG de mesa, as ações, principalmente as batalhas, são resolvidas com o rolamento de dados. Os vermelhos representam dados de ataque, os verdes defesa, e os azuis suporte. Em aldeias, cavernas ou outras localidades, algumas ações disponíveis para aquela ocasião exigem um teste de rolagem de dados, caso você não tenha uma tocha para explorar uma caverna, por exemplo. Em caso de acerto, a eficácia da atividade é aumentada. Em caso de erro, prepare-se para arcar com as consequências dessa ação.

Alguns personagens fazem uso de dados especiais, representados por outras cores, que podem ser adquiridos com comerciantes ou de uso exclusivo do personagem, como os xamãs das aldeias. Durante as batalhas, dados diferentes podem ser combinados para executar ações especiais, como atacar múltiplos alvos ou atordoar um inimigo, impedindo que ele use um dado de ação.


E falando em consequências, muitas delas são resultado da ganância. Santuários, tumbas ou totens de pedra possuem artefatos ou oferendas que acarretam em maldições aos membros da equipe ou anomalias que ocorrem no mapa para causar reviravoltas na viagem. Sendo assim, pense bem no risco que está disposto a pagar caso queira violar a tranquilidade de um desses locais.

Essas ações também influenciam na reputação da expedição no mapa atual, representado por um ícone azul ao lado da barra de sanidade. Quanto maior sua reputação, melhores negócios e auxílios podem ser obtidos nas aldeias de nativos. No caso contrário, você pode até ser atacado ao se aproximar do vilarejo, dificultando a obtenção de recursos e prejudicando o progresso da viagem.

A exploração no mapa possui um custo, que é calculado de acordo com a situação do terreno por onde seu grupo vai passar e o equipamento que seu grupo possui. Ao selecionar uma rota, é indicado quantos pontos de sanidade e recursos aquele trajeto vai custar. Atravessar uma mata fechada sem um facão possui um custo de sanidade maior. Atravessar pântanos sem cordas ou andar por regiões áridas sem água também afetam o custo de sanidade do seu grupo. É importante saber o que levar dependendo do local a ser explorado.


Viajar com sobrepeso, ou seja, com mais itens do que você consegue carregar é a pior das decisões, pois consomem muito da sanidade da expedição. Para recuperar esses pontos, você pode descansar em aldeias, acampamentos ou consumir alimentos diversos, como comida enlatada, frutas ou rações. Cada uma com suas vantagens e desvantagens.

Frutas precisam ser consumidas logo, antes que estraguem. Comidas enlatadas só podem ser consumidas aos poucos, pois o grupo enjoa rapidamente de comer a mesma coisa. Rações de chocolate são as mais democráticas, pois todos gostam, mas recuperam pouco. Whisky recupera bastante sanidade, mas pode deixar alguns membros viciados e eles acabam não querendo consumir outra coisa. E as carnes de caça precisam ser preparadas antes de consumir, necessitando que haja um cozinheiro no grupo.

Viajar quando seus pontos de sanidade estão baixos se torna um problema quando seu grupo possui membros feridos, doentes, sob algum efeito negativo causado por alguma decisão errada tomada anteriormente, como recrutar um membro que tenha desavença com outros ou alimentar o grupo com o mesmo tipo de comida por vários dias.

A sanidade baixa faz com que a viagem se torne insustentável, forçando o jogador a tomar decisões drásticas, como abandonar membros ou até a própria expedição.

“Ter má fama quando morto não me importa” – Eurípedes

Existem três maneiras de encerrar uma expedição e continuar, ou não, o jogo:

Encontrando a pirâmide dourada

Este é o objetivo principal do grupo em cada uma das seis expedições. A viagem por cada mapa termina quando você encontra a grande pirâmide dourada. Para encontrá-la, o jogador precisa seguir a orientação de uma bússola, no canto superior esquerdo da tela. No início da expedição ela aponta sem rumo para todos os lados e começa a mostrar a direção da pirâmide conforme a expedição avança pelo mapa. Montanhas magnéticas atraem o ponteiro da bússola, atrapalhando sua orientação, então é importante ficar atento para o que tem na direção onde a agulha da bússola aponta.

Abandonando a expedição

Não há fama e glória para quem não retorna para contar sobre sua história. Admitir o fracasso é menos doloroso que a morte, então existe uma opção de abandonar a expedição caso você esteja em uma situação onde não há mais saída ou está prestes a morrer. Ao selecionar a fuga com o balão, você tem a opção de abandonar a viagem e retornar, podendo continuar o jogo na expedição seguinte.

Mas ainda há decisões difíceis para tomar nessa ocasião. Como o balão não possui muito espaço, você será obrigado a abrir mão dos itens que possui, podendo carregar apenas dois. Se quiser levar mais, o preço a ser pago é abandonar membros de sua equipe. Use como último recurso para não perder o jogo.

Morrendo

O fim definitivo da vida. Se todos os membros da expedição forem mortos em um combate, ou o líder acabar sozinho e morrer de fome ou alguma outra enfermidade, é fim de jogo. Todo seu progresso é perdido e o jogador deverá começar uma nova aventura do zero.


Ao retornar de uma expedição após encontrar a pirâmide, ou fugindo de balão, o jogador deve escolher uma nova habilidade extra para o líder, como forma de premiá-lo por sua bravura, e em seguida é exibida uma tela com os pontos de fama obtidos pelos grupos oponentes e os seus. Os objetos de valor adquiridos na viagem podem ser doados para um museu, para obter pontos extras de fama, ou leiloados para render fundos, que são usados na compra de mantimentos para sua próxima viagem.


Para vencer o jogo, você deve se tornar o expedicionário com a maior fama no final da sexta viagem. Ser o primeiro a completar a expedição é uma ótima tática para conseguir muitos pontos de fama. Um indicador no lado esquerdo da tela mostra o quanto seus adversários estão próximos de completar suas expedições.

“Se queres vencer o mundo inteiro, vence-te a ti mesmo” – Fiodor Dostoievski

Curious Expedition apresenta uma ideia simples, muito bem explorada e executada. Cada ação do jogador, desde o momento da escolha do líder da expedição, pode ser determinante para o sucesso ou o fracasso do grupo, fazendo com que cada partida seja única, podendo durar de vinte minutos a duas horas. A quantidade de variantes, junto com a mecânica procedural que o jogo apresenta surpreende o jogador toda vez que ele inicia o game, fazendo-o se desafiar para chegar cada vez mais longe e vencer o maior número de vezes que puder.

Aqui os erros são consequência de uma escolha ruim, uma atitude mal pensada. Exceto pelas vezes em que confundi um ou outro comando. A adição de suporte a um mouse para jogar nos consoles também seria muito bem-vinda. Fora isso, um excelente título para alimentar sua fome de aventura.

Prós

  • Mecânicas de RPG de mesa (interpretação de personagens e uso de dados) são muito bem usadas;
  • Extensa quantidade de variantes que determinam o sucesso ou o fracasso do jogador;
  • Curvas de aprendizado e dificuldade justas;
  • Easter eggs curiosos, como o do Gato de Schrödinger;
  • Excelente localização para o idioma português brasileiro.

Contras

  • A arte pixelada tem seu charme, mas pode afastar jogadores que não gostam desse estilo visual;
  • Suporte para o uso de mouse seria interessante, facilitando a navegação nos menus;
  • Ausência do modo multiplayer, disponível na versão para PC.
Curious Expedition – PC/PS4/XBO/Switch – Nota: 7.5
Versão utilizada para análise: PS4
Análise feita com cópia digital cedida pela Thunderful Publishing
Revisão: Ives Boitano

Tecnólogo em Gestão Ambiental, produtor do BlastCast e sincero até demais. Jogador casual de muitos e hardcore em poucos. Adora jogos multiplayer que causam discórdia e fogo no parquinho. @XelaoHerege


Disqus
Facebook
Google