Jogamos

Análise: Documentos, por favor: Descubra como um trabalho monótono pode ser divertido em Papers, Please! (PC)

Olhar para um papel. Olhar para outro papel. Carimbar o primeiro papel. Devolver os papéis ao imigrante, e repetir o processo com o próx... (por Unknown em 12/01/2014, via GameBlast)

Olhar para um papel. Olhar para outro papel. Carimbar o primeiro papel. Devolver os papéis ao imigrante, e repetir o processo com o próximo imigrante da fila até seu turno terminar. A descrição parece ser de um emprego extremamente repetitivo e chato, daqueles que te fazem querer voltar para casa e descansar o mais rápido possível. Mas, reduzindo ao máximo possível, é exatamente isso que você faz em Papers, Please!, um dos jogos independentes mais viciantes disponíveis digitalmente pela Steam por R$16,99. Mas como é que algo tão chato pode se tornar tão divertido num videogame? Descubra em nossa análise!

Bem-vindo à Arstotzka

Parabéns. Seu nome foi sorteado no sorteio mensal de força-de-trabalho. Você será realocado para um apartamento de classe 8 próximo à fronteira de Grestlin, juntamente com a sua família.

E é assim que você é introduzido, sem mais nem menos, ao mundo de Papers, Please!. Segundo os jornais disponíveis para a leitura na pequena cabine de inspetor de fronteira, o jogador também pode aprender que Arstotzka é um estado comunista que acabou uma guerra de seis anos com o vizinho Kolechia, retomando a sua metade de Grestlin, a cidade de divisa. Também é aos poucos que você aprende que, dentre os honestos trabalhadores procurando por emprego ou passagem através do território de Arstotzka, também estão infiltrados ladrões, traficantes, terroristas e todo tipo de figuras clandestinas e obscuras. Sua tarefa, pelo governo, é manter esse tipo de gente fora do país, mas essa decisão nem sempre se resume à carimbar “retido” em seus passaportes, e é aí onde a genialidade moral do jogo entre em ação.

A típica bancada da sua cabine de inspeção. Do lado inferior direito, sua mesa para validação de documentos. Do inferior  esquerdo, o atual imigrante a ser vistoriado. Na metade de cima da tela, a situação da fronteira.

Validar e carimbar, é só começar

Como um inspetor de documentos de passaporte, o objetivo do seu trabalho é bem simples: Carimbar “rejeitado” em tudo que estiver fora do acordo imposto pelos seus superiores, e permitir a passagem do resto com um “aprovado”. Conforme o tempo passa, os conflitos entre as nações se modificam e intensificam, você vai melhorando em seu trabalho e as regras começam a tornar-se mais complexas. Verificar datas de expiração de vistos, comparar fotos com a carteira de identidade, confirmar nomes de cidades emissoras em determinados países e até mesmo revistar imigrantes por porte ilegal de armas acaba entrando em sua rotina, e o que antes era apenas uma questão de carimbar se torna uma complexa, minuciosa e intrigante tarefa de verificar diversos detalhes de diversas regras ao mesmo tempo.

Nesse caso, é preciso validar o passaporte com uma autorização de entrada. Você consegue descobrir qual é o problema?
Qualquer falha diante dessas regras impostas previamente pelo governo ao longo da sua carreira te penaliza em dinheiro do próprio salário, o que posteriormente pode vir a faltar para o tratamento com sua família.

Bocas demais para se alimentar

O outro lado de Papers, Please!, que ocorre no intervalo de suas fases principais de “emprego”, é o gerenciamento familiar. Trazendo ainda mais perto o senso de Guerra Fria e da grandiosidade opressora mas segura de Arstotzka, o jogador deve decidir também para onde irá o seu dinheiro enquanto trata da esposa, do filho, do tio e da sogra. Entre opções como comida, aquecimento e aluguel (que é a única opção obrigatória a se pagar), você também pode decidir deixar de gastar dinheiro em uma das coisas para poupar mais no próximo mês. Isso sem levar em consideração as eventuais doenças que seus familiares podem pegar e que exigem medicamentos ou os agrados que seu filho gostaria de ter durante seu aniversário, por exemplo. Por causa do mísero salário, essa parte do jogo acaba se tornando a mais difícil de se gerenciar com sucesso e obter o melhor final, mas para aqueles que não querem tentar muitas vezes, o jogo oferece um Modo Fácil, onde um bônus de 20 créditos te auxilia um pouco mais na manutenção familiar da era comunista.

Ir bem no trabalho nem sempre vai te assegurar as melhores condições em casa, então aceitar subornos e outras formas "desonestas" de sustento pode ser uma opção se a intenção é cuidar bem da família

Muito além do Sim e Não

Considerando o cenário da “massante” carreira (que, para nós jogadores, acaba se tornando algo bem divertido e viciante!) e das decisões em casa, o jogo aborda os jogadores com diversas opções morais e galhos de história para perseguir todos os 20 finais que o jogo oferece. Desde coisas simples e aparentemente banais, como decidir se um casal de noivos devem ser separados só por um problema no passaporte da esposa e até coisas bem mais complexas como chantagem e suborno, você deve decidir o que pretende defender através do vasto plano de opções que o jogo te oferece. Devo permitir que o casal prossiga a fronteira, mesmo que isso me penalize em alguns créditos? Devo aceitar o suborno e melhorar a vida de minha família com o risco de ser fiscalizado? Devo seguir cegamente às ordens dos meus superiores, mesmo que isso me custe o emprego ou até mesmo a vida?

Você pode ter até 5 linhas de histórias paralelas para explorar. Após isso, é necessário deletar uma delas para poder prosseguir na busca dos outros finais
Muito além de oferecer diversos finais dependendo de como você encara cada situação da sua rotina em Grestlin, Papers, Please! também oferece um modo Endless que te coloca em uma fila infinita de imigrantes que acaba apenas quando você efetuar erros o suficiente em sua verificação oficial.
Um jogo que literalmente não deve ser julgado pela capa, Papers, Please! é uma experiência bastante única que transforma uma idéia que, na teoria, parece ser o emprego mais chato do mundo em um enredo cheio de personalidade, drama e decisões difíceis de se tomar. Tanto na prática do trabalho quanto no enredo e no gerenciamento das contas e gastos, Papers, Please! consegue transpassar com grandiosidade a sensação de falta de poder e de agonia que é viver em numa condição como durante a era comunista.

Prós


  • Uma mecânica exclusiva e impressionantemente viciante;
  • Enredo sério, dramático, atmosférico e envolvente que te instiga a se esforçar e continuar tentando;
  • 20 finais diferentes.

Contras


  • É necessário rejogar a carreira novamente de certos pontos para poder descobrir todos os finais;
  • Apesar de viciante, a mecânica pode se tornar repetitiva demais caso você perca a motivação do enredo;
  • Escassez de modos alternativos ou opções de variação da dinâmica de jogo.

Papers, Please! - PC - Nota: 8.5

Revisão: Ramon Oliveira de Souza
Capa: Vitor Nascimento

Escreve para o GameBlast sob a licença Creative Commons BY-SA 3.0. Você pode usar e compartilhar este conteúdo desde que credite o autor e veículo original do mesmo.

Comentários

Google
Disqus
Facebook