Jogamos

Análise: Jotun: Valhalla Edition (Multi) é uma difícil jornada que surpreende até deuses

Jotun finalmente chega aos consoles trazendo todo o desafio e a grandiosidade do título de PC.



Confesso que fiquei empolgada quando soube da notícia de que Jotun seria lançado para consoles, por isso, foi impossível conter minhas altas expectativas quando o recebi para análise. Afinal, o título indie que foi lançado para PC há quase um ano pela Thunder Lotus Games já havia chamado a minha atenção por conter elementos da mitologia escandinava (ou nórdica), pelo belo visual e também pela grande quantidade de críticas positivas que recebeu. Agora, depois de terminar o game, fico feliz em afirmar que todos os elogios que o jogo recebeu foram merecidos: Jotun é um dos raros casos de jogos que conseguem atender e até superar as expectativas.

Conheça Thor como você nunca viu antes

Você é Thora, uma guerreira viking em cujas veias corre o sangue de Thor e que acabou morrendo de forma indigna, sendo então impedida de entrar em Valhalla, paraíso comandando por Odin que recebe os heróis nórdicos falecidos. Porém, uma segunda chance lhe é dada: a guerreira ganha uma nova oportunidade de entrar em Valhalla, desde que consiga provar seu valor derrotando 5 Jotuns, gigantes elementais que se opõem à vontade dos deuses.

A narrativa não se desenvolve de maneira convencional, por meio de cutscenes; ela é contada aos poucos pela própria protagonista, que narra um pouco da sua trajetória cada vez que um Jotun é derrotado. Mas engana-se quem pensa que isso torna a trama rasa, muito pelo contrário: o game traz uma história rica, repleta de elementos e referências às lendas escandinavas, que aqui são representadas de maneira digna e fiel. O melhor de tudo é que essa mitologia não está presente apenas na forma de textos, mas faz parte também de todo o universo do jogo. Por exemplo: em cada cenário existe uma árvore que fornece uma maçã dourada responsável por aumentar a barra de HP da protagonista — uma referência aos frutos sagrados fornecidos pela Yggdrasil, árvore que simboliza o núcleo de tudo.

Essa característica garante uma imersão ainda maior e faz com que o jogo seja aproveitado em sua totalidade por aqueles que já conhecem as lendas nórdicas, algo que acaba não acontecendo com aqueles que não têm familiaridade com esse universo. O game assume que você já conhece pelo menos o básico e não se preocupa em apresentar ao jogador quem é Odin, Loki ou Freya, por isso, quem espera que Jotun ensine algo da mitologia pode acabar se decepcionando. Isso não chega a ser um ponto negativo, já que essas informações não são realmente necessárias para o entendimento da trama. Mesmo assim, deixo aqui uma dica para quem tiver a intenção de experimentar o game: é interessante buscar informações sobre a mitologia antes de jogar, pois compreender como ela foi aplicada no jogo acaba enriquecendo bastante a experiência.


Outro fator que complementa o enredo é a arte, que dá vida ao jogo e às lendas a que ele faz referência. Desde os ambientes até os personagens, tudo no game foi desenhado à mão. O resultado final lembra um belíssimo e colorido desenho animado, algo que dificilmente vemos em outros jogos desse estilo. Vale destacar os momentos em que a câmera se afasta, permitindo ao jogador apreciar a deslumbrante paisagem de fundo. Quando você se dá conta, parou de jogar para admirar sua beleza.

A dublagem também é um belo exemplo de dedicação da Thunder Lotus. Todo o game é dublado em islandês, o que demonstra o cuidado que a equipe teve ao representar a mitologia da maneira mais fiel e respeitosa possível, além de garantir um charme especial. Como se isso já não fosse bom o suficiente, o título ainda conta com legendas em português.

A trilha sonora, por outro lado, não chega a ser tão marcante, apesar de cumprir bem o seu papel. As músicas sempre combinam com os momentos certos: durante a exploração, temos melodias mais serenas; já as batalhas possuem temas que ajudam a aumentar toda a tensão do momento. No entanto, elas não chegam a ser memoráveis e tornam-se até repetitivas com o passar do tempo.

Ninguém vence sozinho

Em Jotun, o gameplay se resume em dois momentos: os de exploração e os de batalhas contra os chefes. O título possui 5 "fases" diferentes, cada uma representada por um Jotun. Elas são compostas por duas subfases (ou mapas, como são chamados), que vão desde lugares com lava até pântanos, onde você precisa encontrar runas que lhe permitirão convocar o respectivo Jotun. Já as batalhas contra os gigantes acontecem em um mapa separado que só pode ser alcançado depois de reunir as runas anteriormente citadas.

Enquanto busca as runas, você pode aproveitar para caçar itens que deixam a personagem mais forte. Além das já citadas maçãs douradas, você também pode encontrar estátuas de deuses que fornecem poderes especiais à Thora, chamados de "bençãos dos deuses". São seis ao todo: o de cura (Frigg), o que possibilita causar danos com o martelo Mjolnir (Thor), o que cria um disfarce que atrai inimigos (Loki), outro que aumenta sua velocidade de movimento (Freya), um escudo que garante invencibilidade (Heimdall) e uma lança que atinge o inimigo a longas distâncias (Odin). Inicialmente, ao obter uma habilidade, você só pode utilizá-la uma única vez, mas existem estátuas que garantem um número maior de utilizações.

É nesse momento que você percebe que o game incentiva a exploração a tal ponto que disso depende o seu progresso na aventura. Encontrar as já citadas maçãs douradas ou estátuas que concedem poderes é o que definirá seu sucesso ou sua derrota na luta contra os chefes, pois as batalhas, que já são naturalmente difíceis, tornam-se extremamente penosas sem esses itens. É por isso que, quanto mais você explorar, mais poderes encontrará e, consequentemente, maiores serão as suas chances de sucesso. Mas não pense que a tarefa é fácil: o jogo não conta com nenhum tipo de tutorial e nem indica o caminho pelo qual você deve seguir. Além disso, o mapa da fase não mostra sua localização atual, fazendo com que muitos detalhes acabem passando despercebidos e tornando a aventura mais difícil.

Apesar de isso ser um ponto positivo por trazer um pouco mais daquele desafio que dificilmente vemos em jogos atuais, existe um pequeno problema que afeta essa experiência: os cenários são muito longos e pouco interativos, tornando a exploração bem linear. Enquanto busca as runas e poderes, que são difíceis de serem encontrados, você vai gastar horas para avançar e retroceder por diversas áreas sem ter muito para fazer além de guiar a personagem. Não há interatividade, como objetos para remexer ou inimigos para derrotar (com algumas exceções) e, além disso, a movimentação de Thora é um pouco lenta, o que acaba deixando a tarefa de buscar itens um pouco maçante após certo tempo. Esse problema poderia ter sido amenizado com a inclusão de mais quebra-cabeças e de inimigos para enfrentar.

Shadow of the Jotun

Mas é na parte das batalhas que o jogo realmente brilha. Os Jotuns não são chamados de gigantes à toa, e os elementos que a Thunder Lotus pegou emprestado de Shadow of the Colossus (PS2) são bastante perceptíveis aqui. No início de cada batalha, o estilo de visão superior (top-down) e o afastamento da câmera, unidos ao visual, dão-lhe a dimensão do que você está prestes a enfrentar; monstros enormes, imponentes e que parecem invencíveis perante Thora. Porém, a heroína não leva o título de guerreira à toa, e, além da coragem, conta também com alguns comandos para combater os inimigos: ataque fraco, ataque forte e rolamento. Parece estranho não ter um comando para defender-se dos ataques, mas não é: isso só prova que o jogo (e os deuses) realmente querem testar suas habilidades e sua paciência.

Apesar de parecer, o jogo não é um hack n’ slash e segue mais a linha da ação. Mas não se engane: jogadores que esperam vencer apenas esmagando botões vão ter sérios problemas. Os chefes são bastante trabalhosos e exigem atenção, pois apresentam ataques e movimentos que precisam ser estudados com cuidado e que, muitas vezes, só serão assimilados depois de algumas derrotas. Junte isso ao fato de você não poder contar com um meio para se defender e você terá aqui batalhas desafiadoras, onde até um pequeno erro seu pode custar metade da sua barra de HP. Portanto, prepare-se para muitas tentativas frustradas de vencer os Jotuns e também para se deparar várias vezes com a frase "você falhou em impressionar os deuses" — porque um simples "game over" não te frustraria o suficiente para te motivar a tentar novamente, várias e várias vezes.

Essa dificuldade é elevada, mas nunca punitiva. As batalhas se dão de maneira fluída, de modo que sua derrota é consequência de seus próprios erros. Você dificilmente se sentirá injustiçado pelas mecânicas do jogo — exceto, talvez, pela última batalha, que contém elementos um pouco cruéis, daqueles que nos trazem a tentação de jogar o controle na parede.

E se você é um jogador hardcore que não se contenta apenas com as batalhas do modo principal, tenho uma ótima notícia: Jotun: Valhalla Edition leva esse nome por conter um modo chamado Valhala, uma espécie de boss rush em que você precisa enfrentar versões mais apelonas dos Jotuns. E quando eu falo apelonas, não é exagero; os ataques dos chefes causam um dano maior e têm um padrão um pouco diferente dos ataques presentes na campanha. Essa foi uma bela adição ao jogo e valorizou seu fator replay, principalmente porque muitos jogadores provavelmente se sentirão tentados a encarar o desafio.

Jotun, o incrível e surpreendente game do ano passado, foi uma excelente adição às bibliotecas dos consoles. Mesmo com os pequenos problemas que apresenta, o game continua sendo um prato cheio para qualquer um que goste de bons desafios, boa narrativa, belos visuais e, acima de tudo, de um bom jogo.

Prós

  • Mitologia nórdica presente em vários elementos do jogo;
  • Belíssimo visual;
  • Gameplay fluído e divertido;
  • Batalhas contra os Jotuns são realmente desafiadoras;
  • Modo Valhala traz mais desafios e aumenta o fator replay.

Contras

  • Exploração linear, com cenários pouco interativos;
  • Trilha sonora torna-se repetitiva com o passar do tempo.
Jotun: Valhalla Edition — PS4/XBO/Wii U — Nota: 9.0 
Versão utilizada para análise: PS4
Revisão: Jaime Ninice 

July Dourado é aspirante a jornalista e redatora no GameBlast. Sua paixão por games começou com o Nintendo 64 e só tem crescido desde então. Além dos games, também é viciada em séries de TV e gatos.

Comentários

Google+
Facebook


Podcast

Ver mais

No Facebook

Ver mais