Blast Test

SOMA (PC/PS4) assusta e perturba, mas pode ser melhor

Dos criadores das séries Penumbra e Amnesia: The Dark Descent, SOMA traz uma boa dose de horror no fundo do mar.

BioShock (Multi), um dos melhores jogos da sétima geração, flertava com muitos gêneros além do tiro em primeira pessoa. Uma de suas maiores influências era o survival horror. Essas influências são claras principalmente em Fort Frolic, com suas estátuas inquietantes, jumpscares para todos os lados e a constante sensação de “o que diabos está acontecendo aqui?”


SOMA (PC/PS4) é basicamente essas partes de BioShock intensificadas ao máximo. As comparações com o clássico da Irrational Games são inevitáveis: ambos são ambientados no fundo do mar, possuem atmosfera sinistra, fazem uso do horror corporal e transumanismo para causar desconforto e possuem uma trama com claras referências filosóficas.

Há, claro, diferenças notáveis. Enquanto BioShock era, no final das contas, um FPS, em SOMA seu personagem é frágil e incapaz de se defender. A jogabilidade é focada totalmente na exploração e resolução de quebra-cabeças. Resta ao protagonista fugir, esgueirar-se e usar o ambiente ao seu favor para evitar ou inibir a ação dos inimigos.

Falando em inimigos, aqui reside outra grande diferença em relação a BioShock: enquanto os monstros do FPS representavam a humanidade embriagada e corrompida pelo desejo de ser mais que humano, em SOMA os (aterrorizantes) inimigos são uma metáfora para a famosa dicotomia entre homem e máquina. A linha que separa os dois é confrontada a todo momento, criando uma sensação de agonia e crise existencial que permeia a história.

Sobrevivendo ao horror

Mas, então, SOMA é apenas um BioShock sem tiro? De forma alguma. As comparações são ferramentas úteis para dar uma vaga impressão do que o jogo se trata, mas ele é muito mais do que isso.

Então, o que SOMA realmente é? Simples: um survival horror de verdade.

A frase pode parecer pretensiosa. Afinal, se existem survival horrors legítimos, também haveria os falsos, que apenas se pintam do gênero. Mas a tentativa não é elevar SOMA a um pedestal, e sim descrevê-lo pelo que realmente é. O objetivo do jogo da Frictional Games é precisamente sobreviver aos horrores à sua frente. Não lutar ou combater, apenas sobreviver.


Cada elemento do game apenas colabora para a sensação de agonia. O visual, tão bonito quanto decadente, faz-lhe ser o mais cauteloso possível, olhando para todos os cantos tentando ver se há algo à sua frente. A trilha sonora e efeitos visuais deixam a experiência ainda mais intensa — principalmente quando há uma total ausência deles.

Quando um inimigo aparece, ele não tenta surpreender o jogador ou causar um famoso jumpscare. Os monstros são barulhentos, grandes e fáceis de identificar. A visão do protagonista fica borrada e sua respiração ofegante quando se aproximam, então você sempre sabe quando um está por perto. Sua reação é fugir, esconder-se, correr o mais rápido que puder. Uma vez evitado o perigo, vem o alívio. “Eu sobrevivi.”

Mais do que um survival horror (e menos por isso)

Quando não há máquinas em seu encalço, SOMA é um adventure point-and-click em primeira pessoa. Infelizmente, ele é muito melhor como survival horror do que como aventura gráfica. Os quebra-cabeças são simplistas, às vezes beirando o óbvio. Eles são bem-vindos por darem espaço para o jogador “respirar” entre uma e outra seção de “fuja do robô assassino”, mas não se sustentam por si só.

O level design é mais interessante e utilizado de forma eficiente para conceber a história e dar informações sobre o que está acontecendo — ou aconteceu. A exploração, entretanto, é limitada. Os ambientes são pequenos e lineares, ainda que detalhados.

SOMA funciona muito melhor com os monstros por perto ou colocando o jogador em situações desagradáveis com os NPCs perturbadores. Quando ele é apenas um survival horror, suas partes se encaixam e criam uma experiência única. Quando o horror passa, sobra apenas um adventure mediano.

Mas, no final das contas, seus pontos altos se sobressaem. A demo jogada continha cerca de um terço do jogo final e a sensação que fica é aterrorizante — assim como deve ser.

SOMA será lançado dia 22 de setembro de 2015, chegando ao PC e PS4. Se os dois terços restantes tiverem metade do horror apresentado até aqui, pode ir preparando uma visita ao cardiologista.


Revisão: Alberto Canen
Capa: Diego Migueis
Lucas Pinheiro Silva é analista de sistemas web por profissão, gamer por vocação. Tem grande interesse em game e level design, o que o levou a escrever para o GameBlast. Em seu Facebook e Twitter também fala de outras coisas, como HQs, música e literatura.

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