O que acontece quando se junta o artista responsável por um dos melhores desenhos de todos os tempos, uma equipe de roteiristas que conta com um par de youtubers que ficou conhecido pela criatividade notável de seus vídeos, além de um elenco com nomes talentosíssimos da dublagem e da atuação como Randall Park, Ashley Johnson e Elijah Wood?
A resposta é um desenho engajante que ao mesmo tempo respeita o material original e o adapta para uma nova mídia com maestria. A resposta é uma série cativante sobre um grupo dividido cujas tensões são levadas ao ponto de ebulição. A resposta é uma obra de arte que interroga o gênero de dedução social para transmitir mensagens profundas sobre empatia e confiança. A resposta é Among Us.
Cores a bordo!
O responsável pela inusitada missão de adaptar um jogo online para um desenho animado é Owen Dennis, o criador do maravilhoso Infinity Train. Desde essa obra, o esmero aplicado pelo artista na tarefa de criar um mundo envolvente habitado por seres críveis e tridimensionais já é muito perceptível. Enquanto ela se trata de pessoas presas em um trem infinito que reflete desafios psicológicos que são enfrentados pelos passageiros, em Among Us temos uma tripulação caótica que se encontra presa em uma nave espacial corporativa com péssimos padrões de segurança.
Os tripulantes do Skeld são batizados exatamente da forma que se tornou convencional para os jogadores do original chamarem-nos: de acordo com suas cores. Verde e Branco são recém-chegados, enquanto Laranja é representante legal da Corporação MIRA e Vermelho capitaneia a nave. Roxo — responsável pela segurança — tem uma forte rixa com Vermelho por razões pessoais exploradas temporada adentro, ao mesmo tempo em que Preto desgosta de Ciano pela personalidade alegre e otimista do colega da seção de minérios. Amarelo e Marrom têm uma forte amizade na cozinha, Azul cuida da saúde da tripulação enquanto se torna alvo da atração de todos, e o excêntrico Lima habita as entranhas do veículo para tomar conta dos sistemas. O que poderia dar errado quando misteriosos assassinatos começam a acontecer?
De suspeitas a acusações
Para além da fidelidade de ambientação e de nomeação dos tripulantes, quem escreveu Among Us teve que exercer muita criatividade para forjar uma trama a partir de um material original que não tem história alguma. De fato, as narrativas do jogo online são construídas pela ação dos jogadores, sem ter qualquer roteiro pré-pronto. Eis uma das chaves para se compreender o sucesso da série: a corda bamba de equilibrar a estrutura narrativa baseada em partidas autênticas de Among Us com um elenco de personagens recheado de relações pré-existentes ao drama da infiltração. Felizmente, a equipe de roteiristas da obra (que conta com Brian David Gilbert e Karen Han, uma criativíssima dupla que já trabalhou com YouTube e da qual eu pessoalmente sou fã há um bom tempo) acertou em cheio nesse quesito.
Na verdade, o gênero de dedução social no qual se insere o jogo original é propício para a contação de histórias e formação de narrativas. Não é raro encontrar alianças inesperadas e dramáticos últimos sobreviventes, sem falar nos antagonistas que nos são entregues. A razão disso provavelmente está na centralidade das relações interpessoais entre os envolvidos, que ocorre exatamente como em uma típica estrutura narrativa. Contudo, tais relações exigem um conteúdo prévio à dinâmica da jogatina ou da trama que as produz. Enquanto nas melhores partidas de Among Us os jogadores já se conhecem e se interrogam correspondentemente, em uma narrativa pré-existente existem personagens já criados antes dos acontecimentos contados — ou, como é o caso, mostrados em tela.
Dessa forma, a interação entre o formato típico de uma partida de Among Us e um elenco de personagens escrito com qualidade narrativa de primeira categoria produz uma química fortemente atrativa. Rixas se tornam suspeitas que se tornam acusações, enquanto evidências e testemunhos são (des)contextualizados em uma trama de perspectivas cruzadas. As sabotagens das luzes, do oxigênio e do reator se fazem presentes, bem como o trancamento de portas, todos muito comuns no gameplay original. No final das contas, Among Us vai além de simplesmente estruturar sua narrativa como um jogo de dedução social, ele interroga os princípios fundamentais desse gênero de jogo.
Animação e emoção
Mas antes de aprofundarmos essa dimensão, vale determo-nos um pouco em outros aspectos de Among Us. A animação é bastante fluida e a paisagem sonora contribui para a atmosfera de imersão com fidelidade ao material original e coragem para ir além dele. A dublagem é impecável, contando com um elenco de peso que precisa ser enaltecido: Elijah Wood (Senhor dos Anéis) e Randall Park (Marvel) entregam performances para lá de carismáticas como Verde e Vermelho respectivamente, enquanto Ashley Johnson (The Last of Us) encarna Roxo com uma amplitude emocional impressionante. Outros destaques são Yvette Nicole Brown (Community) e Dan Stevens (Legião), com atuações cheias de personalidade nos papéis de Laranja e Azul, respectivamente.
Apesar de caber sim destacar a importância dos dubladores para construir identificação e simpatia com os personagens em um contexto de trajes espaciais que não revelam rostos, isso poderia acabar sendo excessivo descrédito ao trabalho da animação. Esta é detalhada e expressiva, variada na medida certa e consistente em seu humor e seu uso das sombras. Ao mesmo tempo em que experimenta estilos diferentes em cenas como as de alucinação, desenvolve-se aqui uma arte de expressar sentimentos de personagens definidos pelos seus trajes onipresentes. De fato, o que não falta em Among Us é emoção: da comédia irreverente ao uso certeiro de elementos do terror e de construção de suspense, passando pelo mistério constante, o espectador que gosta de fortes sensações não sairá decepcionado. Visuais, sons e narrativa se unem para forjar uma experiência emocionante e envolvente.
Interrogando o ato de interrogar
Agora sim, vamos examinar o aspecto mais interessante de Among Us: sua relação temática com o próprio gênero de dedução social que constituiu o material original. Os jogos desse tipo são baseados na interação entre jogadores que se dão para que sejam descobertos os impostores e os genuínos aliados. Para tal fim, pode-se usar testemunho direto, evidências relacionadas às mecânicas dos jogos (como a máquina de escanear de Among Us, também utilizada na série) e, crucialmente, o escrutínio dos depoimentos dos outros jogadores. É nesse último elemento que surgem os dois temas centrais da obra: a empatia e a confiança.
Para determinar se alguém está falando a verdade em Among Us, costuma-se levar em conta não somente a consistência do relato, como também o quão convincentemente ele é relatado. A empatia se faz essencial para que se leia nas entrelinhas das emoções expressas autenticidade ou falsidade, e é comum um grupo de jogadores ter que contrastar depoimentos contraditórios em um contexto de ausência de evidências concretas. Do outro lado do gameplay, os impostores têm que manipular o coração e a mente dos oponentes para que seja possível alcançar a vitória. No fundo, a dedução social é baseada no refinamento da arte da empatia.
Among Us (o jogo) foi lançado em 2018, mas explodiu no número de jogadores durante a pandemia da COVID-19. Enquanto estávamos em isolamento social, fomos atraídos por um jogo baseado na instrumentalização e aperfeiçoamento da empatia; na capacidade de se ler emoções alheias e escrutinar os testemunhos jurados. Assim, amizades eram suspensas enquanto o jogo estava valendo, e relações de intimidade eram as armas dos impostores e as vulnerabilidades dos tripulantes.
Ou talvez essa seja a leitura cínica da coisa. Na realidade, para vencer em Among Us, é preciso unir os benfeitores contra os infiltrados. É preciso deixar de lado tensões e rixas anteriores, e construir crédito uns nos outros para identificar coletivamente quem não pertence àquele grupo. É preciso não somente que haja empatia, mas também uma profunda aposta na confiança para se vencer a paranoia. E o desenho aqui resenhado entende isso como poucas outras adaptações entendem a essência do seu material original. Se eu fosse você, não votaria para pular Among Us, essa aventura que já se tornou clássica.
Revisão: Juliana Santos







