O GameBlast bateu um papo com Ariel Velloso, um dos dois organizadores do evento, a respeito da cena queer, seu presente e futuro. Confira abaixo a conversa.
Observação: as perguntas e respostas foram editadas para clareza.
Hiero de Lima: Atualmente, com a Parada do Orgulho de SP perdendo patrocínio porque empresas dos EUA não querem arriscar se associar com a comunidade na era Trump 2.0, qual a maior importância de eventos como este?
Ariel Velloso: Primeiro de tudo, ser queer é ser resistência. Acho que sempre foi, e não sei se sempre será, mas pelo menos nesse futuro próximo, enquanto eu continuar vivo, eu sei que continuará sendo. É sempre uma luta, né?
Por exemplo, no primeiro NewGame+, tivemos o apoio do Sesc, e o investimento veio de termos sido contemplados por um edital. No ano seguinte, 2025, não só a gente não ganhou o edital de novo, como também houve a recusa do Sesc de agregar a gente uma segunda vez. Desconfiamos que tem a ver com um viés político: a gestão da casa mudou, e talvez não achassem mais interessante associar esses temas queer à instituição.
Agora, em 2026, a Poc Con acabou sendo um match perfeito com o público que já temos. Estamos percebendo essa diferença: lá no Sesc Avenida Paulista, era legal porque jogava todo tipo de gente. Jogava a mãe, gente que passava na rua aleatoriamente, gente voltando do trabalho, engravatado, enfim, todo esse pessoal vinha e jogava jogos bem queer, com personagens trans lutando de espada, a coisa toda.
High Times, mistura de simulador de romance e gerenciamento de loja de donuts
Já por aqui, é um público que gosta, entende, celebra, gasta dinheiro com produtos [vendidos pelos artistas da feira], engaja com séries e cultura pop, essas coisas que estão efervescendo. Apesar de ser um evento menor, é um lugar onde essa cultura é celebrada.
Voltando ao começo, agora, nessa época de Trump e também pós-Bolsonaro, mais conservadora, é muito importante a gente não tirar a bandeirinha de LGBTQ+ que foi fincada. Não é tipo “ah, conquistamos”. Não, tem que manter lá todo ano, bater o pezinho, mostrar que tá aqui, porque no momento em essa bandeira sair um pouquinho do lugar, eles já apagam a história, sabe?
Hiero: Como é o processo de curadoria do NewGame+?
Ariel: É muito importante para a gente que pelo menos metade dos jogos sejam brasileiros, então já começa daí. A gente faz metade brasileira e metade internacional. Na primeira edição, eram 10 jogos, logo 5 brasileiros. Nesta, são 4, ou seja, dois daqui e dois de lá. Alguns vêm em português mesmo sendo gringos, e alguns não vêm mesmo sendo nacionais, porque faltou o patch em português.
Também buscamos um mix de jogos que todo mundo pode jogar: os mais casuais, visual novels, simuladores de fazendinha, de romance, de vida, cozy games e tal. Digamos que entre um terço deles são para o “grande público”, para que sejam mais acessíveis a quem só está passando pela mostra e não tem muita experiência com games.
Daí tem também a outra metade, a parte dedicada a quem já é gamer: jogos de ritmo, ação, tiro, com combate etc. Quem não pega num videogame há uns 10 anos talvez não vai conseguir jogar, mas os mais acostumados vão se divertir. A gente vai tentando equilibrar essas nuances todas, entre casual e hardcore, nacional e internacional.
MAW, mistério distópico em um país totalitário
A última “camada”, por assim dizer, seria dos jogos “feel good”, os mais alegres, com tom de celebração, e os mais pesados, com temas mais complexos e delicados. Quando se trata de temas LGBTQ+, é importante não ser positivo demais, achando que tudo é sempre lindo, ou negativo demais, retratando a experiência da comunidade como miséria pura. Precisamos ter essas duas visões em convivência.
Hiero: Existe algum aspecto da vivência queer que você acha que falta ser bem representado por um game?
Ariel: Ainda tem vários. Um deles, na minha opinião, é a disforia de gênero, algo que muitas pessoas trans sentem. Existe um jogo chamado dys4ia que retrata a vivência da desenvolvedora com a transição de gênero dela e com esses sentimentos, de uma forma bem poética e até nonsense às vezes, mas são raros os games que lidam com essa experiência de se transformar na pessoa que você é.
Normalmente, mesmo quando existem narrativas queer em geral em jogos, é algo que ou não está no centro da história ou é tratado de maneira fetichizada. É aquela coisa: ter lésbicas, até tem, mas são retratadas como objeto de feitche. Apesar de existirem exemplos que não são assim, e que retratam realmente o amor entre duas mulheres, como em The Last of Us [Part II] com a Ellie e a Dina, são poucos.
Até nesse caso que eu cito, antes do lançamento do segundo jogo, era preciso comprar um DLC para descobrir que a Ellie tem uma namorada, então a narrativa LGBTQ+ fica jogada para escanteio.
Cupid Island, cozy game que gira em torno de uma jovem cupido
Hiero: Entre os que já passaram por aqui e os da cena queer de outros lugares, quais seus jogos com temática LGBT+ favoritos para indicar aos leitores?
Ariel: Um mais mainstream e um tanto mais casual que eu recomendo é ABYSS X ZERO, [um Metroidvania] das desenvolvedoras de Unsighted, que são duas mulheres trans casadas. Elas chegaram até a palestrar no último NewGame+, e também tivemos uma demo deste jogo na época. Apesar de ainda não ter lançado, já está fantástico e super polido.
Outro, mais de nicho, é Other People’s Problem, que está disponível gratuitamente no itch.io e foi feito por um único desenvolvedor [DevVand™]. É uma experiência bem abstrata, mais subjetiva, artística e experimental, sobre autoaceitação sendo queer. Me tocou bastante, particularmente.
Set Yourself on Fire, jogo de terror e romance lésbico
Hiero: Algum recado para o público cis-hétero que tenha curiosidade de engajar com jogos LGBT+?
Ariel: Vou “lacrar” um pouco aqui, tá?
Hiero: Lacre, pode lacrar.
Ariel: Então, recentemente houve o caso do novo God of War. Vi muitos homens cis e hétero falando “ah, tem de ser protagonista masculino, a franquia é violenta, não tem nada que colocar mulher no papel principal”.
O meu recado é: se permita viver uma experiência que não é a de um homem machão. O que você pode aprender sob essa luz diferente? Celebre o experimento, porque o diferente também é bom. Não é preciso que uma narrativa te espelhe pessoalmente para ser poderosa.
Às vezes, a realidade é outra e te toca mesmo assim, não por você ter se visto, mas por ter te dado uma perspectiva nova que você nunca teria alcançado sem ter tido contato com isso.
Na foto, estou usando um cosplay do 9th Man, da série Zero Escape. Que tal?
E você, do outro lado da tela? O que acha deste tipo de game? Conheceu algo interessante por meio da nossa conversa (ou das imagens incluídas, que retratam os quatro jogos presentes na edição da Poc Con)? Deixe seu comentário — e feliz Mês do Orgulho para quem celebra!
Revisão: Ives Boitano







