Kumitantei: Old-School Slaughter, nascido como fangame da franquia Danganronpa (“Fangan”) e transformado em um IP próprio, começou assim, durante a pandemia de covid-19, antes da volta inesperada da série, marcada para este ano: um remake e reimaginação do segundo jogo, Danganronpa 2: Goodbye Despair, chamado Danganronpa 2x2.
A diretora do projeto, Selina Kibara, disse ao GamesRadar+ que “[prefere] fazer algo derivativo a fazer algo dissimulado”, ou seja, que não se importa de ser vista como uma “cópia”, porque tem confiança nas próprias ideias originais que agrega à fórmula. O Episódio 1 de Kumitantei, primeiro de seis a serem lançados aos poucos, é uma boa amostra desse pensamento. Junte suas cartas e vamos brincar de detetive!
Bem-vindos ao Império
Jogamos como Himari Sanada, uma moça comum que foi reconhecida pelo Instituto Janus como a “Absolute Barista” (para quem conhece Danganronpa, que se passa em uma escola cheia de jovens tidos como os melhores no que fazem, é a mesma dinâmica).
Himari, seu irmão gêmeo Moichiro “Moichi” Sanada e 14 outros estudantes, todos talentosos, são aparentemente recrutados pelo Instituto para um experimento, dentro de um bunker misterioso, a respeito dos “limites da apatia”: quantos assassinatos precisam ser cometidos até alguém perder as emoções por completo?
O aparato inteiro é velho conhecido das convenções de Danganronpa, porém é elevado a novas proporções pelo pano de fundo: o Império do Japão, um país de uma realidade alternativa na qual os nipônicos nunca se juntaram à Segunda Guerra Mundial e, como consequência, nunca perderam suas colônias, como a Coreia, ou seu modelo de governo.A fim de ressaltar a estética do imperialismo japonês, Kumitantei se passa em 1989, e o bunker para o qual os Absolutes são levados parece não ter sido tocado desde os anos 1950. A apresentação estilística em geral, como já dito na prévia que publicamos anteriormente, se inspira bastante no anime e mangá Urusei Yatsura (Turma do Barulho) de Rumiko Takakashi, uma das grandes paixões de Kibara. O game, assim, desfruta de belíssimas ilustrações retrô, bem animadas e cheias de pequenos floreios, que conseguem reter o tom tenso sem sacrificar seu charme.
Neste primeiro episódio, as sementes da dinâmica de grupo, já vistas no prólogo (expandido desde então), começam a ter a chance de germinar. Além dos já clássicos eventos opcionais com cada personagem que podemos desbloquear entre assassinatos — escolhi conversar com a meteorologista arrogante Shigure, a lenhadora calada Kazan, o soldado machão Tamotsu e o apicultor simpático Benjiro —, um dos grandes destaques é a presença de conversas aleatórias que podemos ouvir o elenco tendo por aí, sobre assuntos como música, vida pessoal e a natureza de certos criptídeos.
Em geral, e sem entrar muito em spoilers, Kumitantei já está entregando bastante do que promete: uma roupagem política interessante, algumas provocações aos clichês narrativos de Danganronpa (há um certo momento após a primeira morte que gerou em mim uma profunda sensação de “por que ninguém nos originais falou disso?!”), um elenco coeso… mas e a gameplay, como é?Acredite no coração das cartas
Quando alguém nesse experimento de apatia é morto, todos os sobreviventes devem participar do Clinical Trial, um julgamento para decidir quem matou. Se esta pessoa for identificada corretamente, receberá uma execução; caso contrário, o grupo inteiro morre, menos ela, que terá a chance de sair do jogo da morte. O mascote Nyanus, supervisor da “brincadeira”, pode ofertar uma série de motivos extras para que o assassinato aconteça, como uma suposta saída escondida do local.
A maior parte dessa fase de jogo acontece de forma bem similar a Danganronpa: temos a já icônica parte na qual contra-argumentamos com a lista de provas que coletamos (tematicamente, não funciona tão bem quando estamos jogando cartas de baralho em vez de atirando balas uns nos outros), além de minigames de soletração e algumas outras surpresas.
Dentro desses elementos mais alinhados ao padrão, existem alguns segmentos retratados como jogos de fliperama retrô, paródias de games como Donkey Kong; Himari é uma grande fã dos títulos da Kibaraco, uma “Nintendo” fictícia cujo nome faz referência à própria Selina Kibara e família, e racionaliza as perguntas que tem de responder usando tais títulos como ponto de referência. O conceito é interessante, porém o ritmo mais lento dessas partes acaba atrapalhando o resto da dinâmica dos Clinical Trials às vezes.
A parte que realmente impressiona são os debates com cartas. Apesar do tutorial não ter melhorado muito desde a demo do prólogo, ter entendido e internalizado a dinâmica foi fundamental para apreciá-los de maneira apropriada. Pessoalmente, sou do grupo que absorve melhor as regras do jogo quando tenho a oportunidade de jogá-lo por conta própria (e a introdução por aqui ainda é um calhamaço de texto) — ainda acredito que existe a chance de tornar esse bloco fundamental da gameplay mais acessível.Conforme o julgamento progride, os debates ficam mais tensos e difíceis, porém nunca acabaram me perdendo por completo. Mesmo o timer que passa a existir depois de certo ponto não é muito restritivo; em geral, existe uma boa margem para erro. Atrelados às cartas específicas de cada personagem, que conseguimos ao interagir com nossos colegas no tempo livre, a possibilidade de embates ainda mais complexos é palpável — e estimulante.
Mas o que seria uma gameplay de mistério sem um bom mistério? Bem, Kumitantei ainda não fornece nenhuma resposta a essa pergunta, visto que o primeiro caso é muito bem escrito. É difícil dar detalhes, dadas as circunstâncias: entenda-se que, apesar dos personagens se demorarem bastante nos mínimos detalhes (o que é intencional e previsto pela narrativa), é um estilo que valoriza uma observação atenta e, desde muito antes do corpo ter caído ao chão, já vai plantando toda sorte de suspeitas, ajudando (ou não) o raciocínio lógico dos jogadores.
Para fechar a análise deste primeiro episódio, algumas críticas mais pontuais: o texto, por vezes, apresenta certas inconsistências internas (alguns termos alternam entre a ortografia do inglês americano e britânico, por exemplo), e existem algumas construções pouco naturais no idioma (“leave me to be” em vez de “leave me be”).A mixagem do áudio, especialmente no meio do Clinical Trial, também sofreu bastante e chegou a dar a impressão de que alguém estava brincando com os níveis do volume. Tudo isso pode ter sido consertado durante a build de lançamento, mas vale a nota pela versão que joguei.
Absolute Videogame
Kumitantei: Old-School Slaughter - Episode 1 traz um novo interesse à fórmula do jogo da morte, entre questionamentos mais abertos à filosofia meritocrática do mundo de Danganronpa e um elenco coeso, muito bem posicionado para o caos (ou a apatia, como planejam seus captores). Vale a pena seguir o projeto até sua eventual conclusão.
Prós
- História lança boas bases políticas;
- Bela apresentação visual;
- Dinâmica de grupo interessante, que vai além do molde de Danganronpa;
- Apesar da curva de aprendizado, o modo deckbuilder diverte;
- Boa escrita de mistérios.
Contras
- Muitos dos minigames acabam atrapalhando o ritmo geral;
- Problemas com o texto e a mixagem de áudio.
Kumitantei: Old-School Slaughter - Episode 1 - PC - Nota: 8.5
Revisão: Beatriz Castro
Análise produzida com cópia digital cedida pela Akupara Games









