Desenvolvido pela Iridium Studios e publicado pela Annapurna Interactive, People of Note é um RPG por turnos baseado em ritmo, no qual acompanhamos Cadence, uma cantora pop, em sua jornada para recrutar novos músicos e alcançar o estrelato. A mistura de estilos musicais é o que dá charme ao jogo, mesmo que o equilíbrio entre combate e narrativa ainda precise de ajustes.
Cadence e sua jornada
A demo começa já no Capítulo 2 e traz alguns textos introdutórios para contextualizar os acontecimentos anteriores. Descobrimos que Cadence — ou Cadência, na tradução do jogo — é uma estrela pop da cidade de Acordia que sonha em vencer o Concurso Musical Dignas de Notas e, assim, alcançar o topo da indústria musical.
Logo somos levados a Durandis, a terra do rock clássico, onde começamos a formar a banda. A proposta de misturar estilos musicais é vista quase como um pensamento exótico naquele mundo, já que cada cidade representa um gênero específico. Ainda assim, essa é justamente a grande ideia da protagonista: quebrar barreiras e provar que a música pode ir além das divisões tradicionais.
Em Durandis, descobrimos que uma organização misteriosa está espalhando o caos. É ao se envolver em uma confusão que Cadence conhece Fret, um veterano roqueiro que entra na batalha quase por acaso. Após recrutá-lo — em uma cena de corte muito bem produzida, vale destacar —, a dinâmica da narrativa ganha ainda mais força. A interação entre Cadence e Fret é um dos pontos altos da demo, com piadas afiadas sobre diferenças musicais e geracionais que funcionam muito bem. A expectativa é de que, com mais integrantes na banda, essa química se torne ainda mais interessante.
A demo se encerra ao apresentar pistas sobre um dos principais mistérios da trama: as Chaves. Ainda é cedo para entender completamente sua importância, mas o enigma é instigante o suficiente para despertar curiosidade.
No geral, a premissa é bastante interessante: um mundo onde a música molda a identidade das pessoas e os estilos se transformam em cidades inteiras. Ainda não dá para afirmar se a execução sustentará a ideia até o fim, mas o potencial está lá. Conversar com os habitantes e ouvir suas visões sobre o mundo adiciona camadas à ambientação. E há também criaturas “mágicas” que ajudam a dar personalidade ao universo, com destaque para o cachorro-sanfona, facilmente um dos elementos mais carismáticos apresentados até agora.
Um RPG
O combate de People of Note segue a estrutura de um RPG por turnos, mas com várias mecânicas e nuances estratégicas. O grande diferencial está no ritmo: as batalhas acontecem como se fossem uma música. Dentro de uma estrofe, temos alguns turnos para atacar ou usar habilidades e, então, a vez passa para o inimigo.
Cada habilidade consome PB, variando entre ataques, buffs ou curas. Os ataques contam com animações em formato de QTE, exigindo que o jogador acerte o tempo da música. Ao alcançar um “Perfeito”, o dano causado é máximo. A ideia funciona muito bem, mas senti falta de opções defensivas mais ativas além dos buffs, especialmente contra inimigos mais fortes.
Os equipamentos também influenciam bastante na estratégia. Armas (que são, em sua maioria, instrumentos musicais), roupas e acessórios concedem passivas interessantes, como recuperar vida após usar uma habilidade ofensiva. Além disso, é possível personalizar as habilidades no menu de Pedras Melódicas, equipando ataques e buffs, e adicionando pedras de aprimoramento que fortalecem efeitos específicos. Conforme evoluímos de nível, o número de espaços disponíveis aumenta, expandindo as possibilidades táticas.
Pelo menos nesta demo, não existe uma forma tradicional de grind. Cada batalha parece única, inclusive na última masmorra. Isso pode mudar na versão final, como acontece em áreas específicas de RPGs mais lineares — algo semelhante ao que vimos em Gran Pulse, em Final Fantasy XIII.
No início, antes da entrada de Fret no grupo, os combates são apenas funcionais e pouco empolgantes. A dinâmica melhora significativamente quando temos mais de um membro na equipe, principalmente ao desbloquear as habilidades de “mashup”, que combinam estilos musicais e causam grande dano. Felizmente, não ficamos sozinhos por muito tempo na demo, mas isso levanta uma preocupação sobre o ritmo do início da campanha completa.
Durante a exploração, encontramos lojas que utilizam dinheiro ou discos de vinil como moeda — estes também funcionam como vida adicional. Ambos são obtidos ao derrotar inimigos ou abrir baús. Há ainda puzzles ambientais que cumprem bem seu papel, embora o excesso de vai e volta no mapa possa cansar, já que Cadence não se movimenta com tanta agilidade.
O maior problema, porém, está na curva de dificuldade. Contra inimigos comuns, fui derrotado apenas uma vez. Já o chefe da última área apresenta um salto de desafio desproporcional. Ele reúne praticamente todas as mecânicas possíveis: reduz o número de ações por estrofe, enfraquece turnos específicos, ataca três vezes seguidas e ainda possui golpes em área. A dificuldade parece inflada sem preparação adequada. Ou essa será uma mecânica recorrente que deveria ter sido melhor introduzida ao longo do jogo, ou trata-se de algo exclusivo desse chefe — o que também preocupa em relação aos próximos confrontos.
Após diversas derrotas, precisei reduzir a dificuldade para vencê-lo. O problema não foi apenas o desafio, mas a frustração acumulada. Ao final da batalha, em vez de satisfação, senti que o ritmo divertido que o jogo vinha construindo simplesmente se perdeu.
No geral, People of Note funciona bem mecanicamente, mas esse desequilíbrio na dificuldade compromete a experiência. Espero que a versão final traga um ajuste mais refinado na progressão dos combates.
Vale destacar que o jogo oferece várias opções de acessibilidade, incluindo a possibilidade de remover combates ou puzzles, permitindo que quem quiser apenas aproveitar a história possa fazê-lo. São adições bem-vindas que ampliam o público potencial da obra.
A vida pela música
Artisticamente, o jogo é bastante inspirado. O visual dos personagens é ótimo dentro de suas representações musicais. Cadence realmente transmite a imagem de uma estrela pop, enquanto Fret incorpora perfeitamente o estereótipo do roqueiro veterano, algo que remete até a figuras caricatas como as vistas em Brütal Legend.
Graficamente, porém, a simplicidade do jogo às vezes joga contra ele. O estilo é minimalista, o que não seria um problema por si só, mas em alguns momentos a diferença entre o modelo 3D e o retrato 2D exibido nos diálogos é grande demais. A discrepância chega a ser espantosa e, em certas situações, até involuntariamente cômica.
Por outro lado, os cenários funcionam muito bem. As fases são bem construídas, têm identidade própria e, em alguns momentos, conseguem até impressionar visualmente, especialmente quando exploram melhor o conceito de cada gênero musical como uma região distinta.
É no áudio, no entanto, que People of Note realmente se destaca. As músicas são excelentes e a mistura de estilos funciona de maneira surpreendentemente harmoniosa. A cena do clipe musical apresentada na demo é um dos pontos altos da experiência, extremamente bem produzida e impactante. Fiquei, inclusive, com vontade de ver mais momentos como esse, já que a demo oferece apenas um.
Durante as batalhas, as trilhas se adaptam ao estilo dos inimigos enfrentados. Confrontos contra personagens do rock trazem guitarras marcantes, enquanto lutas contra representantes do country destacam o som característico do banjo. Essa coerência sonora reforça a identidade do mundo e fortalece a imersão. Nesse aspecto, felizmente, só há elogios.
Tem potencial?
Para uma demo, People of Note conseguiu algo importante: me deixar com vontade de continuar jogando. Mesmo com o desequilíbrio no combate, foi no restante da experiência que o jogo realmente me conquistou.
Cadence é uma protagonista carismática, cheia de personalidade, e sua jornada rumo ao estrelato, misturando estilos em um mundo que vive de divisões musicais, é envolvente o bastante para sustentar o interesse. A química com Fret, o universo criativo e, principalmente, a força da trilha sonora ajudam a manter essa chama acesa.
Sim, o jogo tem potencial — e bastante. Resta saber se a versão final conseguirá ajustar o ritmo do combate e manter o mesmo nível de charme ao longo de toda a campanha. A resposta chega em 7 de abril, quando o jogo será lançado.
Revisão: Ives Boitano

