Série Yakuza: cinco pontos diferentes pelos quais você pode começar

Virar fã desta amada — e gigante — franquia de beat-‘em-ups e RPGs é mais simples do que parece.



Desde o lançamento de Like a Dragon: Infinite Wealth em janeiro deste ano (na verdade, cada vez que um jogo novo é anunciado), fãs de Yakuza por todo o mundo são inundados pela mesma pergunta nas redes sociais: "eu quero jogar, mas por onde eu começo?"

Dona de dez jogos principais, três remakes, três edições remasterizadas e nove spin-offs em quase vinte anos de história, a franquia realmente parece não ter fim — ou começo. Contudo, apesar do tamanho intimidador, existem várias maneiras de se conhecer a história que o Dragão de Dojima começou.

Hoje, eu, enorme fã das histórias de Kiryu, Ichiban, Yagami e amigos, apresentarei os cinco pontos de partida possíveis, com seus prós e contras; também é parte da minha missão dizer por quais jogos você, futuro visitante de Kamurocho, NÃO deve começar. 

Antes, porém, devo dar um aviso: yakuza de verdade usam controles — assim dizem os portes para PC. Pode parecer esnobismo para alguns, mas é real. Caso você planeje jogar nesta plataforma, é altamente recomendado que use um controle próprio, visto que a maioria dos títulos da franquia foi pensada para eles, e jogar no teclado pode tornar a experiência frustrante.

Dito isso, vamos lá!

Yakuza (PS2, 2005)


A primeira — e menos popular atualmente — opção possível é começar do começo, com o Yakuza original de PlayStation 2. Kazuma Kiryu, membro da Família Dojima, aceita ser condenado injustamente a dez anos de prisão para proteger o irmão de criação e juramento Akira "Nishiki" Nishikiyama, assassino do oyabun (chefe) dos dois. Na ausência de Kiryu, Nishiki muda radicalmente, e os dois se veem em lados opostos na busca pela amiga de infância, Yumi Sawamura.

Muitos podem considerá-lo defasado, especialmente depois do lançamento do remake, que tem gráficos e combate muito melhores (mais sobre ele abaixo), mas o jogo tem charmes próprios: o mais citado atualmente é a dublagem em inglês, que contém Mark Hamill — sim, o Luke Skywalker! — dublando o amado antagonista Goro Majima, além de ser uma fonte quase infinita de memes pela baixa qualidade, que, na minha opinião, só melhora uma franquia que já é maluca.

Outra grande vantagem de escolher este como primeiro jogo é acompanhar o desenvolvimento da franquia, que foi ganhando histórias e gráficos melhores com o tempo. Para jogadores dos remakes modernos, por exemplo, a transição entre Yakuza Kiwami 2 e Yakuza 3 pode ser bastante complicada, visto que o público tem de passar de um jogo recente para uma remasterização de um título de PlayStation 3; desse modo, as expectativas permanecem adequadas quando se escolhe a ordem de lançamento.

Para quem gostaria de tomar este caminho, devo avisar a respeito de dois grandes pontos: primeiramente, o jogo não possui versão em português (atualizarei este artigo se encontrar uma tradução de fãs), apenas em inglês ou japonês. Além disso, a localização da versão em inglês altera incorretamente o nome de alguns personagens, chamando Shintaro Kazama de "Shintaro Fuma" e Futoshi Shimano de "Futo Shimano", por exemplo. Vale a pena jogar os nomes no Google (depois de terminar, claro, para não correr risco de spoiler) para saber qual o nome oficial de todo mundo. 

Como o Yakuza original está fora do mercado, as opções são comprar uma cópia usada (e talvez um PlayStation 2) ou rodá-lo com o uso de um emulador do console. Para quem tem um Wii U (e sabe falar japonês), também existe um relançamento em HD no console da Nintendo.

Yakuza Kiwami (PC/PS4/XONE, 2016)


Kiwami é o remake moderno do primeiro Yakuza, 11 anos depois, seguindo a mesma história. Além de tornar o primeiro capítulo da história de Kiryu mais acessível para novos fãs, a diferença principal desta versão é a adição de novo conteúdo, incluindo minijogos como Pocket Circuit (autorama, basicamente), o modo Majima Everywhere (no qual o jogador constantemente periga ter de lutar contra Majima, que usa uma fantasia mais bizarra do que a outra), e o ponto mais relevante: ganhamos 15 minutos de cutscenes inéditas para desenvolver Nishiki, que era extremamente raso no original.

Este remake existe de maneira simbiótica com Yakuza 0, que discutiremos adiante; os dois jogos usam o mesmo motor, e o combate é parecido. Além disso, muito da história de 0 foi escrita para desembocar no enredo e personagens de Kiwami, o que pode fazer começar por aqui parecer contraintuitivo. 

Contudo, o grande argumento a favor de priorizar este título é que, com o conhecimento do futuro, retornar ao passado fica ainda mais dolorido (e você não se perderá, já que, apesar de fazer várias referências ao 0, você não necessita tê-lo jogado para entender o que acontece em Kiwami). Para quem está jogando no PC, este jogo possui uma tradução em português feita pelo grupo de fãs Brazil Alliance, que também traduziu Yakuza 0. Infelizmente, jogadores do PlayStation ou Xbox terão de saber inglês ou japonês.

 Yakuza 0 (PC/PS3/PS4/XONE, 2015/2017)

Um plano milionário de desenvolvimento do bairro de Kamurocho, Tóquio, depende de um único lote vazio. Kazuma Kiryu, yakuza recém-iniciado, é acusado de assassinar um civil no local. Em Sotenbori, Osaka, Goro Majima, gerente do cabaré Grand como punição por seus pecados, recebe a chance de voltar à família da qual foi banido... se conseguir matar alguém de nome Makoto Makimura. 

Assim começa Yakuza 0, lançado em 2015 no Japão e 2017 mundialmente. O jogo é especificamente pensado para ser um ponto de partida (foi o meu caso), sendo seguido por Yakuza Kiwami, conforme explicado acima. Desta vez, os jogadores têm a oportunidade de controlar Kiryu e Majima em histórias paralelas, que se propõem a apresentar o início das lendas, expandindo informações já apresentadas em títulos como Yakuza 4 (Multi). 

A história é o grande destaque de 0. Com entendimento profundo do submundo japonês e personagens extremamente cativantes — destaco os três antagonistas principais, Kuze, Awano e Shibusawa, tão amados que retornam no remake do spin-off de samurai Ishin! (Multi) —, é fácil entender por que este foi o jogo que fez a franquia finalmente ganhar popularidade do lado de cá do oceano. 

Icônico também é o completamente maluco conteúdo extra, que envolve de cultos incompreensíveis a galinhas corretoras de imóveis, provendo leveza que balanceia perfeitamente o peso da narrativa principal. Porém, tamanha qualidade pode acabar por ser um ponto contra, dependendo do ponto de vista. 

Na minha experiência pessoal, indo de 0 a Kiwami, achei que a história original foi muito mal-escrita em comparação, mesmo com as atualizações feitas a personagens como Nishiki, o que foi uma decepção imensa. O fato é que 0 foi escrito em um ponto onde o Ryu Ga Gotoku Studio já sabia muito bem como construir uma narrativa, o que não era o caso anteriormente, e mesmo os remakes dos jogos antigos não podem mexer muito no cânone.  

Assim como Kiwami, Yakuza 0 tem uma tradução feita pela Brazil Alliance para jogadores do PC. Também existe uma continuação da história de Majima incluída como modo extra em Yakuza Kiwami 2 (Multi), a Majima Saga.

Yakuza: Like a Dragon (PC/PS4/PS5/XONE/XSX, 2020)


Nossa próxima opção é um soft reboot da franquia. Em vez de Kiryu ou Majima, Yakuza: Like a Dragon segue o novíssimo protagonista Ichiban Kasuga, membro leal da Família Arakawa. Assim como seu antecessor, Ichiban passou mais de uma década preso injustamente, e agora está em uma missão para entender por que acordou em outra cidade depois de ter tomado um tiro inexplicável de seu patriarca. Como exemplo famoso, o streamer Alanzoka começou por aqui.

Este jogo é marcado, principalmente, pela mudança de gêneros: todos os jogos da série Yakuza até este ponto foram beat-'em-ups, mas sob o nome Like a Dragon (uma tradução mais direta do título original, Ryu Ga Gotoku) e protagonismo de Ichiban, passamos a receber RPGs de turno. A transição é controversa entre os fãs, mas, em minha opinião (e como pessoa que já gosta do gênero), senti que foi suave e não estranhei quando voltei a jogos anteriores. Ainda é Yakuza, e ainda é um jeito legítimo de começar — você só tem de estar preparado para as mudanças mais tarde. 

A história (para a qual cabe o mesmo ponto do 0) também é geralmente compreensível para novos jogadores, sendo desconectada da maioria dos figurões do passado, apesar dos capítulos finais fazerem uma ponte mais direta para o resto da franquia. Por volta do capítulo 12, novatos podem ficar um pouco perdidos com a aparição de tantos personagens que parecem novos, mas são de outros jogos. 

Também podem aparecer spoilers sem contexto, especialmente do jogo anterior, Yakuza 6: The Song of Life. Em geral, quem deseja começar por aqui precisa exercer cautela. Pela primeira vez na franquia, Yakuza: Like a Dragon foi lançado com uma (ótima) tradução oficial para o português, disponível em todas as plataformas.

Judgment (PC/PS4/PS5/XSX, 2019)

Nossa última opção é partir de um spin-off. Em Judgment, ao invés de um yakuza, seguimos o ponto de vista de um civil navegando o submundo: nosso protagonista é o ex-advogado Takayuki Yagami, que largou a profissão depois de um caso desastroso e hoje é dono de uma agência de detetives em Kamurocho. Quando a polícia prende o capitão da Família Matsugane, Kyohei Hamura, por assassinato, cabe a Yagami provar sua inocência — enquanto descobre vários outros crimes que Hamura e amigos de fato cometeram.

Ao contrário de Yakuza: Like a Dragon, Judgment é completamente divorciado da história de qualquer outro jogo, seguindo um novo elenco no mesmo cenário de sempre. A narrativa aqui, mais uma vez, é de altíssimo nível, fazendo críticas diretas ao severo sistema de justiça japonês enquanto constrói uma verdadeira teia de conexões, interações e paralelos entre os diversos personagens, que conversam com os temas da história e com os próprios arcos uns dos outros de maneira riquíssima. Segue o mesmo ponto de Yakuza 0, mas, ao mesmo tempo, personagens diferentes podem trazer expectativas diferentes.

Em matéria de jogabilidade, esta série de spin-offs foi criada diretamente para seguir o legado dos beat-'em-ups, enquanto os jogos principais fazem a transição para RPGs de turno. Judgment segue a mesma fórmula de qualquer Yakuza anterior, adicionando mecânicas de investigação (um tanto controversas) e, pelo bem do tom muito mais pesado da narrativa, removendo muitas das loucuras em que Kiryu ou Ichiban seriam passíveis de se meterem. 

Importante, também, é destacar que, apesar de Judgment poder ser jogado a qualquer momento, sua sequência, Lost Judgment, parte diretamente de um acontecimento do final de Like a Dragon; logo, precisa ser jogada obrigatoriamente depois, a não ser que você não ligue para spoilers. 

No momento, não existe tradução finalizada para Judgment em nenhuma capacidade, mas a Brazil Alliance está trabalhando em sua versão. 

Por onde não começar?

Para finalizar nosso guia pela série Yakuza, gostaria de destacar pontos ruins para começar, por deixar qualquer novato absolutamente perdido. São eles:

  • Qualquer título numerado. Pode parecer óbvio, mas deve ser dito. Yakuza Kiwami 2 até faz uma recapitulação do primeiro jogo, mas vale mais a pena ter tido a experiência por conta própria.
  • Yakuza: Dead Souls e Like a Dragon: Ishin!. Estes spin-offs são queridos por fãs, mas por serem muito diferentes em tom (e dependerem de você já conhecer os personagens), não são boas pedidas para quem acabou de chegar. 
  • Like a Dragon Gaiden: The Man Who Erased His Name. Conforme diz o colega João Pedro Boaventura na análise linkada, Gaiden é uma tentativa de justificar a presença de Kazuma Kiryu em Infinite Wealth, e não fará sentido nenhum para quem não conhece o precedente dado pelos jogos anteriores — além de ser lotado de spoilers.
  • Like a Dragon: Infinite Wealth. É extremamente tentador começar pelo jogo mais recente, especialmente um tão adorado quanto Infinite Wealth, mas ele depende demais de seus antecessores para ter impacto máximo. Grande parte deste título diz respeito a fazer uma retrospectiva das aventuras de Kiryu, coisas para as quais um recém-chegado dificilmente irá ligar. 
Aqui acaba nosso tour por Kamurocho e arredores! Espero que tenha sido de ajuda, e que tenha desmistificado um pouco a franquia para quem se sentia intimidado pelo tamanho. Bom jogo! 
 
Revisão: Juliana Paiva Zapparoli

Jornalista formada pela PUC-SP e eterna apaixonada por videogames, especialmente aqueles japoneses de mistério. Sempre tem alguma redação gigante para escrever depois que zera um Yakuza.
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