Crônica

Trine 5: A Clockwork Conspiracy (Multi): pai e filhos superando desafios de puzzle e de união

Diversão, aprendizado, desafios e muita, muita paciência.


Esta é uma série de textos chamada Jogando com Crianças, com foco na experiência de jogar com meus filhos, Heitor, de 8 anos, e Dante, de 4 anos. O objetivo é prover reflexões e parâmetros para aqueles que querem jogar com crianças – quaisquer crianças: filhos, sobrinhos, irmãos, amigos, etc. – e não sabem como, quando e quais jogos.

Toda criança é diferente e não há uma fórmula única. Portanto, tudo aqui vem da construção de minha visão pessoal, combinado? Ao final, você poderá conferir os links para os demais textos da série. O jogo da vez foi Trine 5: A Clockwork Conspiracy, analisado recentemente.


Aventuras de Zoya, Amadeus e Pontius

Minha história com a série Trine é antiga. Começou lá em 2009, quando um amigo me apresentou o trailer do primeiro título e eu fiquei deslumbrado com a atmosfera de fantasia pincelada por cores, luzes, sombras e músicas tão cativantes. Foi amor à primeira vista.

Fiquei empolgado também por reconhecer de cara a inspiração em The Lost Vikings, a dupla de clássicos dos anos 1990 que reunia um trio de guerreiros trabalhando em cooperação para superar puzzles e desafios. Revisitar o passado para modernizá-lo mostrou-se uma excelente ideia.
Joguei Trine assim que pude ter um PS3 e, depois, me impressionei com o capricho da sequência, Trine 2, em criar beleza ainda mais feérica que o antecessor. Alertado pelas evidências e opiniões alheias, evitei o terceiro episódio, Trine 3: The Artifacts of Power, de 2015.




Trine 3 não é exatamente um jogo ruim, mas, em resumo, o estúdio finlandês Frozenbyte deu um passo muito maior que as pernas ao tentar passar sua fórmula para um mundo tridimensional. Acabou custando 5 milhões de dólares, o triplo do jogo anterior, mas isso foi longe do suficiente para alcançar a ambição do projeto. Apenas quando o desenvolvimento estava em estágio avançado, os desenvolvedores perceberam que precisariam de três vezes mais que isso.

O resultado foi uma obra curta e reduzida, aquém do que deveria ser, dando a sensação de que acabava assim que a aventura começava de verdade. O futuro da série ficou incerto e não alimentei esperanças.

No entanto, bastou ver o trailer de Trine 4: The Nightmare Prince, de 2019, para que a confiança fosse completamente restaurada e a mesma mágica daquela paixão à primeira vista me encantasse mais uma vez. Se antes eu havia jogado a série sozinho, agora havia uma novidade para mim: meu filho de cinco anos me acompanhou em cooperação a campanha inteira, cujas maravilhas superaram completamente as da trilogia passada. Retornar às raízes 2D para melhorar a fórmula foi um grande acerto da Frozenbyte.



Aguardei que a expansão Melody of Mystery, lançada para PC em 2020, chegasse aos consoles como prometido, mas ela sumiu do mapa sem explicações. Frustrado, finalmente em 2023 veio uma notícia ainda melhor: a série ainda não havia acabado e um novo título despontava nos horizontes fabulosos das aventuras de Zoya, Pontius e Amadeus.

Aventuras de pai e filhos

Desta vez, com Trine 5: A Clockwork Conspiracy, a experiência foi ainda mais dinâmica que a última: aventurei-me ao lado dos meus dois filhos. Minha esposa se juntou a nós apenas uma ou duas vezes porque, infelizmente, não pudemos conciliar as janelas de tempo livre dos quatro. Um redator tem que jogar dentro do prazo, sem poder esperar a disponibilidade da família toda para jogar.



Os meninos, porém, deram conta do recado. Heitor já tinha a pegada de quando jogou Trine 4 uns anos atrás e precisou apenas de dicas para relembrar o básico. Ficou muito empolgado para gastar todos os pontos ganhos em novas habilidades para os heróis, monopolizando as escolhas. Como ele já tem alguma bagagem em jogos de plataforma, entendeu logo como as coisas funcionam e trouxe soluções para o grupo.

Se tem algo que pode atrapalhar o clima cooperativo, é quando alguém resolve ir na frente sem olhar para os outros ou foge ao seu papel do plano combinado, muitas vezes levando o parceiro a mortes súbitas que obrigam a fazer toda a preparação para o puzzle novamente. É hora de respirar fundo e tentar ensinar sem rispidez.




Afinal, jogamos para nos divertir uns com os outros, não é? É claro, mas crianças também parecem que jogam para brigar, em eterna competição. Não raro alguém gritava: “ei, eu queria ter feito isso!”, só para ouvir a minha resposta: “então deveria ter avisado antes. Na próxima vez será você”. É preciso sabedoria, ou a coisa toda pode desandar do nada.

Mais de uma vez eu decidi desligar o videogame porque os ânimos estavam muito exaltados ou porque um dos pequenos estava imerso em seus próprios objetivos imaginários, como ficar saltando em um cogumelo-mola em vez de ajudar a passar adiante.




Felizmente, o Modo Ilimitado permite mudar de personagem à vontade e até repeti-los. Do contrário, teríamos muitas brigas toda vez que alguém batesse o pé para jogar com um personagem e, no minuto seguinte, mudasse de ideia ao achar que o do outro era mais legal.

Jogar com crianças pode ser mais difícil que se aventurar solo. Acima de tudo, requer paciência para entender as diferenças de maturidade, habilidade e atenção. Se isso pode ser um desafio para mim, imagine como é para Heitor ter que ser compreensivo com Dante.



O caçula foi como o esperado. Demorou um pouco para pegar o ritmo e, principalmente, para conseguir usar a mira circular multidirecional, movida pelo analógico direito e muito importante na gameplay. Diante desse verdadeiro desafio ergonômico para mãos tão pequenas, Dante mudava a pegada do controle para usar a mão esquerda ali também. Ou seja, usava um analógico por vez: ou move o personagem, ou usa a habilidade.

Não demorou muito a melhorar e, no fim das contas, deu certo, mas continuou sendo um esforço que impactou na agilidade e precisão do menino. O que importa é que ele continuava envolvido, dizendo: “sabe qual vou jogar hoje? Meu jogo favorito: Trine!”. Há uma lógica por trás desse tipo de afirmação aparentemente boba e sem critério. Para a criança, sua coisa favorita é a atual, aquela que lhe dá bons sentimentos agora.




Com o tempo, a lógica vai se invertendo e se tornando memória afetiva: o favorito é aquilo que me faz lembrar de sentimentos antigos que eu gostaria de sentir novamente. Ou seja: nostalgia. Aos quatro anos, Dante é jovem demais para ser nostálgico, ele vive no hoje e usa sua prerrogativa de desfrutar do agora. Por enquanto, Trine 5 é seu jogo favorito. Com o tempo, será uma boa lembrança das tardes jogando com o pai e o irmão.

Aventuras das crianças

A razoável desenvoltura dos meninos não quer dizer que conseguiriam jogar Trine 5 sozinhos. Às vezes, eu precisava parar de jogar e dizia: “continuem sem mim, preciso preparar o jantar/estender roupa no varal/postar uma notícia no Blast”. Até avançavam um pouco em dupla, mas, fatalmente, chegavam a algum puzzle que não conseguiam resolver sozinhos por mais que tentassem, então lá vinham os gritos de “papai” me chamando de volta.




Algo parecido também aconteceu na inversa. Nas vezes em que joguei Trine 5 sozinho, mesmo sentindo que estava mais fácil seguir meu caminho por depender apenas de minhas mãos adultas, houve momentos em que eu pensei em soluções que não consegui reduzir a um só jogador. Precisava de um parceiro para levitar uma pedra, erguer um escudo ou atirar uma flecha enquanto eu estava ocupado com outra parte do enigma.

É claro que o jogo pode ser perfeitamente jogável solo, mas, uma vez que nos acostumamos ao design do multiplayer, há algo nele que nos leva a pensar mais no trabalho simultâneo de Zoya, Amadeus e Pontius do que nas iniciativas individuais. Considero isso um sucesso da proposta de cooperação que define o jogo e o nomeia. Na série, três são um. Três heróis de habilidades únicas, três facetas que se complementam sem anular umas às outras.

Como eu disse na análise, é louvável que esse objetivo seja alcançado independentemente do número de jogadores.



Que venham mais aventuras!

A série Trine tem seu lugar de honra em meio aos jogos cooperativos. Mesmo com altos e baixos, mostra-se forte o suficiente para chegar ao quinto título em uma década e meia. Ainda que jogue de maneira segura, a série está sempre refinando sua qualidade e renovando os encantos. Se houver um Trine 6, daqui a uns anos, meus filhos e eu estaremos lá novamente, mais capazes e experientes com o tempo.

Jogando com crianças

Nintendo Blast

Revisão: Heloísa D'Assumpção Ballaminut
Imagens: FrozenByte

Admiro videogame como uma mídia de vasto potencial criativo, artístico e humano. Jogo com os filhos pequenos e a esposa; também adoro metroidvanias, souls e jogos que me surpreendam e cativem, uma satisfação que costumo encontrar nos indies.
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