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Análise: Atlas Fallen (Multi) traz ação e diversão nas areias de um planeta misterioso

Novo título da Deck13 peca em alguns aspectos, mas consegue entreter graças ao seu combate ágil e universo intrigante.

Com os projetos e orçamentos cada vez mais ambiciosos da indústria dos games, não é sempre que temos a oportunidade de contemplar e analisar novas e promissoras IPs — pesquise os melhores jogos de 2023 até agora e comprove que é possível contar nos dedos de uma mão os que não são sequências ou remakes de franquias há muito estabelecidas, por exemplo.


Desenvolvido pelo estúdio alemão Deck13, o mesmo por trás dos soulslikes The SurgeThe Surge 2, o exclusivo da nova geração, Atlas Fallen, ruma então contra a maré, apresentando um universo interessante que, apesar de uma ou outra falha, oferece momentos divertidos, capazes de agradar especialmente os fãs de ação e mundo aberto.

Cresça a partir da areia

Atlas Fallen nos conduz a um universo misterioso em que deuses caminhavam pela terra junto com os humanos. Esses tempos de paz, porém, há muito estão no passado. Hoje, Thelos, o deus corrupto, escraviza a humanidade há séculos em busca de Essence: um recurso valioso cuja utilidade real não é compreendida pelos meros mortais.

Nesse cenário de completa desesperança, o seu personagem (que pode ser moldado ao seu gosto por meio do recurso de criação) é um Unnamed (sem-nome, em tradução livre) integrante de uma caravana que acaba de se salvar de um estranho acidente no deserto, causador de muitas baixas. 

Indignado com a falta de consideração dos servos de Thelos pelas vidas perdidas no acontecido, você decide conseguir a atenção do comandante da caravana, aceitando a missão praticamente suicida de recuperar um item nas areias perigosas e habitadas por monstros que cercam o lugar onde ocorreu o acidente. 

Contrariando as expectativas, você não somente consegue completar a tarefa, como também encontra algo inesperado: uma manopla antiga capaz de manipular as areias e usá-las ao seu favor, seja para combate ou movimentação.

Auxiliado por Nyaal — o ser espiritual que habita no artefato — você então surge, enquanto portador da manopla, como a grande esperança da humanidade de se libertar da opressão de Thelos e de seu exército de criaturas arenosas que vagam pelo mundo, dando início à aventura em si.

Quase uma manopla do infinito à sua disposição

Na prática, Atlas Fallen é um RPG de ação em mundo aberto, o que significa que, após a sequência inicial de acontecimentos, você estará relativamente livre para percorrer o universo criado pela Deck13 enquanto aprimora as suas capacidades e as da manopla e tenta ajudar a humanidade a derrotar Thelos de uma vez por todas.

Logo de início, o que chama a atenção é a ambientação do jogo: a maior parte da campanha se passa em um vasto deserto, uma temática pouco explorada no mundo dos games, salvo as ocasionais exceções, como Assassin’s Creed Origins (Multi) e Journey (Multi). Sendo Atlas Fallen um título exclusivo da nova geração, os seus cenários também não deixam a desejar, com paisagens e vistas que impressionam já nas primeiras horas.

Como portador da antiga manopla, o deserto existe para ser dominado por você: a capacidade de deslizar pelas dunas é apresentada logo cedo e, quando combinada com o impulso aéreo desbloqueável, configura o meio mais divertido de se movimentar por um mundo aberto desde as teias e acrobacias de Marvel’s Spider-Man Remastered (PC/PS5) e Marvel’s Spider-Man Miles Morales (Multi), na minha opinião. 

Claro, esquiar pelo deserto logo o fará encontrar tesouros, sidequests, NPCs e, principalmente, várias criaturas arenosas pertencentes ao exército de Thelos, revelando outro ponto forte do jogo: o seu ágil e desafiador sistema de combate. 

Bem, considerando a expertise da Deck13 com a franquia The Surge, não é exatamente uma surpresa que Atlas Fallen seja viciante em seus momentos de ação, mas é preciso enfatizar que o que temos aqui está muito mais para jogos como Darksiders e Monster Hunter do que para o gênero soulslike, ao qual pertenceram os títulos anteriores da produtora.

Nada como o momentum...

Conforme se progride na história, você desbloqueará três tipos de armas diferentes (machado, espada e punhais), sendo que até dois deles podem ser equipados simultaneamente na manopla. Além disso, Atlas Fallen usa um sistema chamado momentum para tornar suas armas mais ou menos letais em tempo real, criando uma dinâmica bem interessante e viciante no processo.

Basicamente, acertar oponentes cria momentum, que é indicado por uma barra azul no canto inferior esquerdo da tela. Quanto mais momentum você acumular, mais dano as suas armas causarão, mas, em contrapartida, mais dano você receberá quando for atingido.

Preencher a barra de momentum também desbloqueará bônus especiais acumulados nas Essence Stones, joias míticas que você encontrará ao longo da jornada e que podem ser acopladas à sua manopla (lembra algo?). Por fim, você também pode usar toda a sua barra acumulada de momentum para potencializar um golpe especial, capaz de derrotar inimigos instantaneamente se for usado no momento certo.

Juntamente com as já elogiadas possibilidades de movimentação, a necessidade imperativa de criar momentum faz com que os conflitos em Atlas Fallen sejam sempre empolgantes e letais, especialmente quando há mais de um inimigo na tela, o que não é nem um pouco raro de acontecer.

Como seu personagem causa e leva mais dano quanto mais momentum possui, há aqui um sistema de risco e recompensa bem interessante e que exigirá que o jogador domine todos os recursos à disposição para superar os desafios mais brutais, como os chefes obrigatórios.

Alma independente

Dito tudo isso, Atlas Fallen tem algumas falhas notáveis que precisam ser mencionadas. Para começo de conversa, a maioria dos NPCs do jogo não tem muita personalidade e suas animações são bem rígidas, o que pode prejudicar a imersão em um nível mais profundo. Também não há suporte a português brasileiro, nem mesmo na forma de legendas, e falta carisma na dublagem e nas atuações de forma geral.

O maior problema, no entanto, diz respeito à pequena variedade de inimigos. Com exceção dos chefões, não há tantas variações de oponentes no fim das contas (essa é uma falha que também afetou o primeiro The Surge). Assim, mesmo com o sistema de combate sendo bem divertido, é difícil não se desapontar quando se está enfrentando os mesmos adversários, só que mais fortes, por diversas horas.

Apesar da sua ambientação fantástica, o mundo de Atlas Fallen também não oferece nada radicalmente diferente do que o tradicional do gênero. Há itens para encontrar, coisas para entregar, missões em que você precisará derrotar certo número de inimigos ou sobreviver a uma emboscada do exército de Thelos, torres ao "estilo Ubisoft” e… nada além. 

Justamente por isso, convém temperar as expectativas: se você não é fã de jogos de ação ou mundo aberto, Atlas Fallen certamente não irá lhe converter em um apreciador do gênero. Porém, se o que você deseja é uma experiência sólida nesse estilo, há pelo menos duas dezenas de horas a serem (bem) gastas aqui, enfrentando monstros arenosos e desvendando os mistérios da manopla sozinho ou com mais um amigo online na mesma plataforma (nada de crossplay até o momento, infelizmente).

Por fim, preciso elogiar a otimização do jogo, pelo menos no PC, onde experimentei a obra: embora não conte com recursos de última geração como DLSS e Ray Tracing (há suporte somente ao FSR, da AMD), Atlas Fallen oferece uma performance fluida, sem os travamentos e engasgos que têm aflingido tantos outros jogos na plataforma recentemente.

Em meu computador (Ryzen 7 5700x e RTX 3060 12GB), pude jogar o título no preset mais alto em 1080p sempre acima dos 60 quadros por segundo sem nenhum tipo de upscaling, resultando em uma experiência responsiva, agradável e certamente muito recomendável para quem está cansado de jogos que não performam como o devido já em seu lançamento. Quem dera se todos fossem assim!

Liberte a humanidade da tirania!

Como fã de jogos de ação, eu estaria mentindo se dissesse que não me diverti com Atlas Fallen. Embora não tenhamos aqui um título revolucionário sob nenhum prisma, a mais nova obra da Deck13 é mais um dos lançamentos competentes que 2023 nos traz. Ser o portador da manopla não vem sem problemas, mas derrotar monstros arenosos enquanto se surfa em um deserto pós-apocalíptico é algo empolgante demais para ser ignorado.

Prós

  • Ambientação e apresentação fantásticas;
  • Deslizar pelas dunas no deserto é tão divertido quanto parece;
  • Sistema de combate ágil e intenso, que recompensa a habilidade do jogador;
  • História intrigante;
  • Bem otimizado no PC.

Contras

  • Pouca variedade de inimigos;
  • Atuações e dublagens abaixo dos padrões atuais;
  • Pode se tornar repetitivo com relativa facilidade;
  • Sem suporte a crossplay;
  • Sem suporte a português brasileiro.
Atlas Fallen — PC/PS5/XSX — Nota: 8.0
Versão utilizada para análise: PC
Revisão: Juliana Paiva Zapparoli
Análise produzida com cópia digital cedida pela Focus Entertainment

é bacharel em Produção Cultural pela UFF e estudante de Comunicação Social pela FSMA. Na infância, ganhou um Super Nintendo dos pais e, desde então, nunca mais deixou o mundo dos games. Ainda sonha em ser um Mestre Pokémon.
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