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Análise: Resident Evil Village (Multi) mostra que a franquia está mais forte do que nunca

Ethan Winters fará de tudo para resgatar sua filha em uma das melhores entradas da série desde Resident Evil 4.


Continuando a história do protagonista sem rosto Ethan Winters, Resident Evil Village nos leva a um novo patamar no gênero de horror em uma impressionante experiência para a nova geração de consoles e PC. O oitavo jogo da série principal coloca a franquia novamente no centro das atenções durante as comemorações dos 25 anos de seu nascimento, com uma aventura cheia de revelações e mais mistérios envolvendo as letais armas biológicas.
Para preservar sua experiência com o jogo, a análise a seguir não discute detalhes da narrativa de Resident Evil Village além do que já foi divulgado em trailers e outros materiais de divulgação. Boa leitura!

Três anos depois


Ethan e Mia vivem juntos longe de Louisiana, local do incidente com a família Baker. Depois de três anos do ocorrido, o casal agora só quer ter uma vida normal e criar com tranquilidade sua filha Rose. Tudo vai bem até que um repentino ataque à residência do casal Winters tira a vida de Mia e o responsável é justamente o homem que os salvou três anos atrás, Chris Redfield.

Na ocasião, a filha do casal é levada e Ethan acaba chegando em um estranho e desconhecido vilarejo nas montanhas em busca da criança. Os poucos moradores do local idolatram uma figura religiosa chamada de Mãe Miranda que, junto com outras entidades diabólicas, estão aterrorizando a região do vilarejo, matando todos que são contrários à sua ideologia, além de forasteiros.


Ethan chega no pior momento e se vê novamente vivendo um inferno em sua vida, remetendo aos traumáticos eventos de três anos atrás. Mas ele fará de tudo para resgatar sua filha, o que consequentemente fará com que entre nos jogos demoníacos da estranha seita da Mãe Miranda, e em uma série de descobertas envolvendo sua família e até mesmo o incidente com os Baker no passado.

Um flerte com o horror

Resident Evil Village continua com a abordagem adotada pela série em seu antecessor, Resident Evil 7 biohazard, com uma experiência totalmente em primeira pessoa e uma narrativa sob o ponto de vista de Ethan Winters. Toda a história apresentada durante o jogo é contada como se estivéssemos na pele de Ethan, o que traz novamente uma relação mais íntima com toda a tensão e horror da narrativa.


Desta forma, todos os sentimentos do protagonista são facilmente transmitidos ao jogador graças a um excelente trabalho de imersão proporcionado pelo jogo de câmera e engenharia de som, nos fazendo sentir facilmente a dor e o pânico de Ethan durante sua estadia no vilarejo. Adentrar corredores escuros, ouvir gritos e grunhidos de monstros, e até mesmo o manuseio das armas é favorecido com os elementos de gameplay desenvolvidos para este fim. Um trabalho mais refinado do jogo de 2017. Houve momentos em que fiquei realmente perturbado e apavorado com algumas situações, me vendo forçado a dar uma pausa no jogo e me distrair pra não dar aquela surtada básica.

Os inimigos em Resident Evil Village chegam para somar a essa experiência. Muitos possuem aparências perturbadoras que transmitem com muita facilidade seu grau de ameaça. Quanto mais grotescos e estranhos, uma coisa é certa, mais perigosos são. Os vilões são um show à parte, em especial Alcina Dimistrescu e Karl Heisenberg, já introduzidos durante os trailers e apresentações do jogo. Para uma franquia que imortalizou outras figuras antológicas como Nemesis, Albert Wesker e o mais recente Jack Baker, o que posso dizer é que esse departamento foi um dos que mais me agradou em um título da franquia, pois além dos dois, os demais seres que querem tirar a vida de Ethan formam um dos mais notáveis grupos de antagonistas da série que já vi desde Resident Evil 4.


Junto com essas características que deixam nossa estadia no vilarejo mais interessante, temos algumas novidades em relação ao crescimento de Ethan durante sua jornada. Muito disso, aproveitando elementos que consagraram entradas anteriores da franquia. No decorrer da história, Ethan conhece uma grotesca, porém simpática, figura chamada de Duque. Ele é um mercador na região e único amigo, por assim dizer, de Ethan neste diabólico lugar. Os momentos em que encontramos o personagem são um momento de alívio durante nossa jornada.

Ao troco de Lei, a moeda local, Ethan tem à sua disposição um vasto catálogo de itens durante a campanha. É com o Duque que temos acesso à maioria das armas e acessórios que vão ajudar o rapaz a sobreviver no vilarejo, além de receitas de fabricação para ajudar o rapaz nas horas de improvisar um item extra em um momento oportuno. Também dá pra fazer uma grana vendendo objetos de valor e outros itens que não serão mais úteis a Ethan no decorrer da história. O sujeito até faz uma excelente referência a um conhecido mercador que gostava de perguntar “o que estamos comprando”. Achei isso genial!


Outro ponto alto da experiência são os já conhecidos puzzles e desafios que devem ser cumpridos para que possamos progredir na história e na exploração. São bem feitos, não passando a ideia de que estão ali só para cumprir seu papel, mas possuem um contexto que até ajudam a contar um pouco da história daquela localidade em específico. Nenhum chega a ser indecifrável, mas contam com uma criatividade bem peculiar em sua maioria, o que não deixa suas resoluções tão óbvias. Desafios estimulam fortemente o fator replay, por concederem pontos usados para adquirir conteúdo adicional após a conclusão da história principal pela primeira vez. Algo também comum nos demais jogos da franquia.

Quem é veterano de Resident Evil sabe que uma mente afiada deve acompanhar uma boa mira, que no meu caso ficou levemente prejudicada pelo fato do jogo não oferecer uma experiência tão satisfatória como em outros jogos de tiro em primeira pessoa. Alguns ajustes ali e aqui sanaram um pouco isso, mas deixo essa observação sobre algo que pode prejudicar jogadores mais acostumados com esse gênero.

Um vilarejo com grandes mistérios

A região do vilarejo que dá nome a Resident Evil Village é vasta, dividida em regiões que podem ser livremente exploradas conforme ganhamos acesso. Essa exploração sempre recompensa o jogador com itens para auxiliar Ethan durante sua busca por Rose e revelam mais sobre a mitologia do lugar através de diferentes documentos como diários, anotações, bilhetes e artefatos espalhados pelo lugar.

Entretanto, tanto o vilarejo quanto o castelo de Lady Dimitrescu, dois locais parcialmente explorados nas versões de demonstração, disponibilizadas pela Capcom durante a segunda quinzena de abril e início de maio, são apenas uma fina casca de algo muito maior por trás de tudo o que ocorre com Ethan durante sua missão para resgatar Rose.

Uma das melhores coisas, diga-se de passagem, é poder descobrir junto com o rapaz as verdades sobre o local, além das circunstâncias que o fizeram chegar até aquele ponto, sendo alguns até relacionados com os eventos de três anos antes. São momentos assim que “explodem nossa cabeça” e nos mantém animados até o fim de Resident Evil Village.


Muitos buracos da história até então são tapados no decorrer de nossa passagem pelo vilarejo, alguns até explicando pontos absurdos, e consequentemente outros até maiores são abertos. É como tapar um buraco aberto no chão com a terra de outro que cavamos do lado. O primeiro buraco vai ficar com a terra mexida, ainda denunciando que havia um buraco ali, mas tapado. Já o segundo, feito para tirar a terra, chega a ser até maior. No fim da campanha eu fiquei um tempo processando toda a informação que coletei e cheguei à conclusão de que a Capcom ainda tem muita coisa pra contar ali, e estou ansioso para ver o que será.

Outro ponto que não posso deixar passar batido é o fato deste ser o primeiro jogo da Capcom a ser totalmente localizado para nosso idioma. Com grandes nomes da dublagem nacional, como Adriana Pissardini, Luiz Carlos de Moraes e Beatriz Villa, o destaque maior fica para Raphael Rossato, que dá voz a Ethan Winters. A atuação de um dos melhores profissionais da dublagem da atualidade engrandece o personagem com uma atuação impecável e, me atrevo a dizer, uma das melhores que já presenciei desde a popularização da localização de jogos no Brasil.

Alguns de seus principais papéis no cinema e TV foram dublando os atores Chris Pratt (Guardiões da Galáxia, Jurassic World) e Joey Batey (The Witcher), em que foi responsável pela adaptação da versão em português da música Toss a Coin to Your Witcher/Dê um Trocado pro seu Bruxo, além de diversos outros papéis. Também veterano nos games, seus trabalhos mais recentes foram os personagens Alexios (Assassin 's Creed Odyssey) e Jesse (The Last of Us Parte II). Que venham mais com essa mesma qualidade, Capcom!


Outra coisa que gostei bastante foi o conteúdo da galeria, em que a maioria também só é liberada após a conclusão do jogo principal. Alguns detalhes da produção surpreendem simplesmente por terem sido pensados para esta sequência, mas ver os detalhes do processo de produção mostra a preocupação da Capcom com uma de suas franquias mais valiosas.

E não acaba no fim

Anunciado em uma das edições mais recentes do Resident Evil Showcase, um dos extras de Village é a volta de Os Mercenários. Este modo de jogo ficou popular em Resident Evil 4 e apresenta uma abordagem mais voltada ao Arcade em Resident Evil. O objetivo do jogador é obter a maior quantidade de pontos possível em mapas pré-definidos situados em localidades visitadas durante a campanha principal. Sendo assim, este modo só pode ser habilitado após o término do jogo pela primeira vez.


Por ser um jogo em primeira pessoa, desta vez a experiência tira proveito desta jogabilidade para trazer uma experiência renovada, mas que ainda deixa a desejar em alguns pontos que relatarei logo mais. Assim como em jogos anteriores, o jogador precisa alcançar uma quantidade mínima de pontos para habilitar mais mapas para jogar. Cada investida tem seus pontos calculados de acordo com o tempo restante, dinheiro coletado e pontos obtidos com abates.

Ao derrotar vários inimigos em sequência, um medidor de combo vai acumulando pontos que vão potencializar o placar do jogador, além de oferecer um bônus extra de tempo por cada inimigo derrotado durante a rodada. Caso o jogador sofra dano, ou demore para realizar um novo abate, o combo é quebrado e o bônus é calculado até onde alcançou.

Uma das mecânicas novas neste modo é a obtenção de melhorias que vão ajudar o jogador durante cada rodada. Elas são permanentes durante as diferentes etapas da fase e não há um limite de quantas o jogador pode obter para fortalecê-lo. Estas melhorias incluem o aumento de dano de armas específicas, como pistolas, espingardas e fuzis, mais velocidade de movimento, possibilidade de explodir inimigos derrotados com tiros, recuperar vida com abates, dentre vários outros.


Os Mercenários é muito divertido e desafiador, exigindo pontuações consideráveis para desbloquear recompensas melhores. Mas por não ter uma mecânica de seleção de personagens que limitam seu arsenal, tira um pouco do que também era uma parte legal da experiência deste modo em jogos anteriores, em que cada personagem tinha habilidades especiais únicas que além de limitar nossas habilidades, estimulavam mais o fator replay.

O modo é bem legal e continuo tentando alcançar as pontuações mais altas nele, mas algo interessante poderia ser feito usando um grupo de personagens que aparece durante o jogo, mas por se tratar de algo sobre a narrativa do game, não posso entrar em detalhes. Deixo esse “gancho” pra quem for jogar e creio que muitos vão concordar comigo quando virem estes indivíduos na história.

Outra experiência que seria lançada junto com Village é Resident Evil Re:Verse. O extra foi adiado para o terceiro trimestre deste ano e os detalhes sobre ele vão ficar para uma outra oportunidade. Nele teremos uma experiência online estrelando os principais heróis e vilões da franquia em embates nos principais cenários da série. Traremos uma análise dedicada a ele assim que for lançado.

Um título de transição de gerações

Feitas as devidas observações sobre a experiência do jogo, optei por dedicar um trecho de nossa análise para discutir os aspectos técnicos do jogo. Resident Evil Village é o primeiro jogo da franquia na nova geração de consoles, mas pelo fato da geração estar ainda no início, também é um do que chamamos de título de transição, que foi lançado simultaneamente nas duas gerações.

Village foi desenvolvido com o intuito de aproveitar ao máximo as propriedades do PlayStation 5 e Xbox Series X, capazes de reproduzir os jogos em resolução nativa 4k, altas taxas de atualização de quadros e Ray Tracing. As principais metas de performance prometidas para os jogos lançados para consoles daqui pra frente. Sendo assim, é válida a preocupação dos jogadores que não tem, ou não podem comprar, um PS5 ou XSX. Sou uma das pessoas incluída neste grupo.

De janeiro pra cá, recebi alguns jogos que foram lançados para as duas gerações, e uma de minhas principais críticas sempre foi a de que as plataformas anteriores têm sua experiência prejudicada por conta do hardware. Com o anúncio oficial da Capcom sobre as metas de performance de Resident Evil Village nos consoles, ficou evidente a discrepância das antigas plataformas com as atuais, e nos restava tirar a prova com o jogo em nossa mão.


A versão utilizada para esta análise foi a do PlayStation 4. Todas as imagens que vocês estão vendo nesta matéria foram capturadas do meu console e comprovam que, pelo menos em qualidade gráfica, Resident Evil Village não deixou a desejar, superando bastante minhas expectativas. A iluminação, que é altamente favorecida pelo Ray Tracing, foi o que realmente demonstrou uma diferença relevante nesta versão do jogo.

A taxa de quadros é variável, mas se mantém alta a maior parte do tempo, sempre tentando alcançar os ideais 60 quadros por segundo, mas raramente caindo a 45 ou menos, que é a meta estipulada para o console. O máximo de problemas que notei foram problemas pontuais no carregamento de texturas durante o jogo. Carregamentos lentos ou travamentos não ocorreram durante as várias horas que joguei a campanha e o modo Mercenários.

A performance do jogo em um console de 2013 me surpreendeu de uma forma muito satisfatória. Jogadores mais exigentes com esses aspectos técnicos vão reclamar, dizendo que alguns modelos estão mais bonitos no PC ou um dos novos consoles, e errados não estão. Afinal, como já disse, Resident Evil Village foi feito pensando neles, e isso já cai no gosto pessoal de cada um. O fato de termos um título com este nível de qualidade no PlayStation 4 mostra a competência da Capcom e o excelente desempenho da RE Engine, já usada em Resident Evil 7 biohazard, nos remakes de RE2 e RE3, e em Devil May Cry 5.


A título de registro, meu setup é um PS4 base (o popular modelo FAT) de 2015 e minha TV possui resolução 4k com HDR. Um bom monitor ou TV também ajuda bastante na experiência de qualquer jogo, mesmo com o console sendo velho para os padrões atuais. Se você estava com dúvidas sobre adquirir o jogo no PlayStation 4, garanto que você não vai se arrepender. E de qualquer modo, a aquisição de Village na geração anterior garante também a da nova. Nisso também saímos ganhando.

Resident Evil está mais vivo do que nunca

Resident Evil Village é uma referência ao gênero de horror e um importante marco para a série nas comemorações de seus 25 anos. A jogabilidade em primeira pessoa continua sendo uma decisão acertada da Capcom, unindo jogabilidade e narrativa de uma forma excelente. Tem como principal inspiração seu irmão mais velho, Resident Evil 4, com mecânicas, elenco e qualidade que o fazem ser uma espécie de sucessor espiritual de um dos mais cultuados jogos da franquia. Um título obrigatório para os fãs de Resident Evil.


Prós

  • História intrigante que segura nossa atenção até o último minuto;
  • Um memorável elenco de vilões;
  • Novos elementos (compra, melhoria e fabricação de equipamentos; melhoria de atributos de personagem) deixam o gameplay mais refinado e maduro;
  • Puzzles inteligentes e criativos;
  • Desafios estimulam fortemente o fator replay;
  • Modo Mercenários dá um fôlego extra ao jogo após a conclusão da história principal;
  • Galeria rica em conteúdo adicional;
  • Ótima performance no PlayStation 4;
  • Upgrade gratuito para PlayStation 5 e Xbox Series X;
  • Excelente localização para o português.

Contras

  • Combate em primeira pessoa ainda não é o ideal para o gênero;
  • Modo Mercenários abandonou alguns elementos clássicos, como seleção de personagens e de dificuldade;
  • Problemas pontuais de carregamento de texturas.
Resident Evil Village – PC/PS5/PS4/XSX/XBO – Nota: 9.0
Versão utilizada para análise: PS4
Revisão: José Carlos Alves
Análise feita com cópia digital cedida pela Capcom

Tecnólogo em Gestão Ambiental, produtor do BlastCast e sincero até demais. Jogador casual de muitos e hardcore em poucos. Adora jogos que acabam em discórdia e fogo no parquinho. @XelaoHerege


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