Discussão

Cyberpunk 2077 (Multi) – o trem do hype descarrilou

Como um dos jogos mais aguardados dos últimos anos acabou se tornando o protagonista de escândalos, mentiras e decepções na indústria de games.


Hype. Em tradução literal a palavra significa exagero, alvoroço, furor ou até sensacionalismo. Na indústria do entretenimento, o hype é a definição máxima quando algo está com uma gigantesca expectativa acerca de seu lançamento. Quem não se lembra do fervor dos fãs para a estreia de Vingadores: Ultimato (Marvel Studios, 2019) ou do lançamento de The Last of Us Part II (PS4) em junho deste ano? Até a expectativa do anúncio de algum novo produto, como um smartphone, se encaixa nesta situação.


Quando falamos em “trem do hype”, nos referimos à massa de pessoas que estão com o mesmo nível de expectativa para o lançamento de algo. E por que um trem? Acredito que seja pela imponência e o poder praticamente implacável que esta máquina possui. É aí que temos um risco, quando essa metafórica massa de energia atinge altas velocidades, pois pode chegar ao ponto de perder o controle e causar enormes danos, as vezes irreversíveis.

O trem que trouxe Cyberpunk 2077 para o que conhecemos hoje iniciou sua viagem em 2012, com um humilde anúncio revelando o título oficial do game em 19 de outubro. O título é livremente inspirado no famoso RPG de mesa Cyberpunk 2020, criado por Mike Pondsmith.

Trazendo uma releitura do jogo de Pondsmith, Cyberpunk 2077 coloca o jogador na pele de V, um avatar customizável do jogador que é um mercenário na fictícia megalópole de Night City, onde acontecem as principais tramas do game. A promessa da CD Projekt Red era de entregar uma experiência de jogo revolucionária, onde muitas das decisões tomadas pelo jogador moldam a história à medida que mergulhamos na caótica rotina da cidade.
V é sua personificação em Night City para fazer a sua história
Com um sistema de evolução de personagem único e cheio de detalhes, e uma cidade praticamente viva com seus inúmeros habitantes e eventos, Cyberpunk 2077 se tornou um dos títulos mais ambiciosos dos últimos tempos, e conforme o desenvolvimento progredia, mais e mais coisas eram anunciadas e prometidas, fazendo o trem do hype que carregava o jogo alcançar uma velocidade estupenda, até o dia do lançamento chegar e uma inesperada, porém evitável, tragédia pudesse ocorrer.

Passos mais largos que as pernas

Inicialmente anunciado para PC e os então novos PlayStation 4 e Xbox One, o desenvolvimento de Cyberpunk 2077 atravessou a geração, e eventualmente também foi anunciado para as atuais novas plataformas, PlayStation 5 e Xbox Series X, além do serviço de streaming Stadia, disponível em alguns países.
Liberdade ao criar sua história foi uma das principais promessas do RPG
Nisso, já temos um ponto para discutir que pode ter contribuído para o alargamento da produção. O número de plataformas em que o jogo seria lançado dobrou, indo de três (PC, PS4, XBO) para seis (PS5, XSX, Stadia). Com certeza não houve uma, digamos, humildade da direção do desenvolvimento na hora de priorizar em que o trabalho deveria ser concentrado. Afinal, não foi de repente que os novos consoles foram anunciados. E com certeza a CD Projekt Red sabia, de alguma forma, que novas versões de duas das maiores bases de consoles do planeta seriam lançadas em algum momento.

Se o desenvolvimento para a atual geração de consoles já estava sendo realizada desde 2012, por que a direção não manteve o cronograma para priorizar essas plataformas para então começar a fazer as devidas preparações para a próxima? PS5 e Series X ainda estão no início, e isso daria mais conforto para o desenvolvimento do game para a nova geração. Que levasse mais alguns anos! Dois, três, o que fosse. Não sou a última pessoa do mundo a dizer isso, mas fazer mais de uma atividade ao mesmo tempo tem um preço: qualidade.
O ator Keanu Reeves, que interpreta Johnny Silverhand no jogo, foi um dos principais garotos propaganda
Foi isso o que faltou para a equipe de desenvolvimento para as versões inicialmente anunciadas. Com tamanhos erros, até críticos, nas versões base dos consoles atuais. A única versão que realmente teve algum zelo foi a do PC. Tanto é que esta é a que estamos vendo com mais frequência nas lives e vídeos na internet. Quando voltamos nossa atenção para os consoles, o que vemos são memes, piadas e insatisfação de quem ainda está tentando jogar o game.

Algo estava errado, e eles sabiam

Um dos principais fatos que reforçam essa acusação pôde ser observado quando as primeiras análises oficiais do game começaram a sair. A CD Projekt Red só forneceu cópias para o PC, e ainda impôs uma série de restrições para os portais que envolviam a não utilização de capturas feitas pelo próprio jogador, tanto em imagens estáticas quanto em vídeo.

Para deixar esse ponto claro, essas restrições não são exceção. Nós do GameBlast, quando recebemos cópias de jogos para análise, também estamos sujeitos a atender estas exigências, principalmente de grandes publicadoras, para receber o material com alguma antecedência e produzir nossos materiais. Muitas são até justificáveis, para evitar possíveis spoilers de jogos onde a narrativa é o ponto alto da experiência.
A CD Projekt Red não autorizou o uso de imagens capturadas pelas pessoas que realizaram as análises do game
Para ilustrar a situação, fiquei responsável pela análise de The Last of Us Part II em junho e também fiquei impedido de muitas atividades, mas por motivos devidamente justificados pela Sony, para que pudesse nos fornecer uma cópia com antecedência para produzir materiais.

Porém, o outro ponto que dá base para essa desconfiança foi o fato da desenvolvedora polonesa não mostrar, em nenhum momento, seja por vídeos, notícias ou publicações em redes sociais, alguma informação sobre o desempenho do game nos consoles. A única coisa que foi oficialmente mostrada só surgiu há poucos dias do seu lançamento, em 24 de novembro.

A demanda por algum material nos consoles atuais foi, de certa forma, suprida. Mas, visto o quão problemático o game se mostrou em seu lançamento, fica também o questionamento sobre a autenticidade do vídeo. Tanto que a própria CDPRED pediu desculpas por não ter mostrado o desempenho nos consoles atuais antes do lançamento.

Recordes de vendas e reembolsos

Com os primeiros reviews sendo publicados pela mídia especializada, em esmagadora maioria da versão para PC, o título foi um sucesso comercial no dia do lançamento. Atingiu 91 pontos na média de avaliação do agregador Metacritic, o que também lhe rendeu o selo de must-buy, que é obtido quando um game é aclamado pela crítica e é altamente recomendado. Mais de 8 milhões de cópias foram vendidas apenas na pré-venda, para todas as plataformas, e no último dia 22 de dezembro o total de vendas atualizado chegou a 13 milhões de cópias.
Mesmo com recordes de vendas, outra marca histórica também foi atribuída a Cyberpunk 2077: a de game com maior pedido de reembolso da história. Nunca na indústria de games mundial se ouviu falar em pedidos de devolução do valor pago em um jogo como aconteceu com o RPG da CD Projekt Red. O motivo: a péssima performance, bugs e defeitos apresentados nas versões do game para PS4 e Xbox One.

Por conta de políticas bem mais restritivas para a solicitação de um reembolso, a comunidade PlayStation se viu refém do próprio serviço de suporte da marca, que deixa claro em sua política de cancelamento e reembolsos que uma vez iniciado o download ou transmitido o conteúdo em questão, o pedido não pode ser feito. A mesma política faz uma ressalva para a situação, dizendo que pode realizar tal diretiva caso o produto apresente defeito. O que era o caso apresentado na plataforma da Sony. Mesmo assim, muitos pedidos seguiam sendo negados.

A comunidade Xbox, por ter um serviço de suporte mais “amigável”, já conseguia realizar o procedimento sem muitos problemas, apesar de relatos de alguns usuários nas redes sociais também exporem o insucesso no pedido de devolução de seus pagamentos. No PC, o caso foi bem semelhante.

No fim de semana seguinte ao lançamento de Cyberpunk 2077, a CD Projekt Red expôs pela primeira vez sua opinião sobre o assunto, principalmente os massivos e crescentes pedidos de reembolso pedidos pelas comunidades dos consoles da Sony e Microsoft. Na publicação, a empresa orienta os jogadores sobre dois grandes pacotes de correção que estão sendo criados para as duas plataformas, que tem previsão de chegar em janeiro e em fevereiro de 2021, respectivamente.
Na mesma nota, encoraja os jogadores que estão insatisfeitos com o game nos consoles a solicitarem o pedido de reembolso nos locais onde realizaram suas compras, sejam lojas físicas ou digitais oficiais das respectivas marcas, oferecendo também um canal de comunicação via e-mail para auxiliar os que estiverem com dificuldades para realizar a solicitação.

Tamanha foi a demanda por reembolsos do game, além de inúmeras solicitações negadas que geraram mais fúria entre os consumidores, que a PlayStation resolveu ceder de uma forma inesperada e até inédita no mercado. O título foi removido da PlayStation Store por tempo indeterminado, impedindo que mais jogadores comprem o jogo, e disponibilizou um site onde os usuários que realizaram a compra do game na loja possam solicitar o reembolso. A Microsoft tomou a mesma iniciativa, no dia seguinte, para os jogadores da comunidade Xbox.
A atitude prova mais uma vez que o RPG não estava pronto para ser lançado nestas plataformas, confirmando novamente a falta de competência da direção do game, que só deu a devida atenção para o desenvolvimento dele para o PC. Um novo adiamento poderia ajudar a sanar esse problema, mas depois de três mudanças de data, uma nova poderia causar mais rancor dos jogadores que já estavam ansiosos para jogá-lo. Nesse caso, ninguém saiu ganhando.

O resultado

A repercussão negativa foi tanta que até mesmo portais que não são voltados para coberturas de notícias sobre videogames como Folha de São Paulo, Agência Brasil e até a CNN noticiaram o assunto. As principais manchetes destacam a gigantesca expectativa que se tornou em frustração, os memes mostrando os inúmeros bugs do jogo nas redes sociais e a queda expressiva das vendas com apenas uma semana de lançamento. Já é possível encontrar versões em disco do game sendo vendidas pela metade do preço original em varejistas online e marketplaces.

As ações da CD Projekt Red sofreram constantes e fortes quedas desde a semana do lançamento de Cyberpunk 2077, o que deixou mais um grupo decepcionado e preocupado com a situação: os investidores. Por conta das crescentes perdas, membros do grupo de investidores da empresa já começam a se organizar para abrir um processo judicial coletivo contra o estúdio polonês, alegando que informações sobre o desenvolvimento do game não foram precisas ou até forjadas, já que muitas das promessas do game não foram concretizadas.
Bugs gráficos e desempenho ruim nos consoles foram extremamente criticados nas redes sociais
Até dentro da própria empresa o clima ficou tenso, com funcionários que foram obrigados a realizar crunching, que é quando necessita-se trabalhar por inúmeras horas em busca de eventuais erros que passaram batidos durante o desenvolvimento de um jogo, além da ironia de se criar um game em que corporações lucram em cima do abuso de trabalho de seus funcionários. E apesar da péssima recepção do jogo, os bônus que antes seriam atrelados à sua boa recepção pela crítica foram pagos aos funcionários de forma integral.

O portal de críticas OpenCritic — que também conta com uma página do GameBlast — deixou claro que há divergências nas análises das versões para PS4 e Xbox One do game, devido a discrepância de performance destas para a versão de PC. O aviso será retirado em fevereiro de 2021, data em que foi prometida a segunda leva do grande pacote de correção para o jogo nos consoles. O portal ainda publicou um artigo falando sobre o conhecimento da CDPRED sobre os problemas nestas versões do RPG, e que mesmo assim optou por lançá-lo desta forma. Um verdadeiro desrespeito com a comunidade gamer, que a tinha como umas das empresas mais amigáveis com o consumidor.

Voando perto demais do Sol

Na mitologia grega, Ícaro, filho de Dédalo, caiu no mar por voar muito próximo do Sol, o que fez a cera em suas asas, usadas para fugir do labirinto criado por seu pai, derreterem; ele se aproximou demais da estrela por conta de sua beleza. O mito de Ícaro ilustra que quando almejamos algo, devemos agir com parcimônia para atingir nossos objetivos. Nem alto demais para derreter a cera de nossas asas, nem baixo demais para que a umidade vinda do mar as deixe pesadas e nos impeçam de voar.
O início do sonho
Algo como “ter a faca e o queijo na mão”, falando como bom brasileiro. A CD Projekt Red conseguiu criar uma das maiores ondas de expectativa já vistas para um jogo nos últimos tempos, com uma campanha de marketing agressiva e promessas de revolucionar a indústria com um produto que iria, no mínimo, redefinir um gênero.

Infelizmente, “quando a esmola é muita, o santo desconfia”. O excesso de propaganda e expectativa gerada pela empresa com seu ambicioso projeto se tornou também seu ponto mais vulnerável, fazendo com que um dos maiores lançamentos da indústria se tornasse o fenômeno que não queria; um título cheio de problemas, gerador de escândalos e que marcou a geração como o trem do hype que descarrilou e causou um imenso dano comercial, em todos os sentidos possíveis.
Cyberpunk 2077 virou um gerador de memes na internet
Por hora, o jeito é aguardar para ver se os tais pacotes de correção prometidos irão mesmo limpar a mancha que está cobrindo a reluzente capa amarela do game e possamos ver seu verdadeiro brilho como produto de entretenimento. Uma pena que como uma flecha lançada, ou um tiro disparado, um lançamento problemático seja também um evento irreversível. Outros jogos já passaram por esse problema, e alguns se reergueram com o passar do tempo. Será que Cyberpunk 2077 conseguirá ser o próximo a realizar este feito?

Compartilhe nos comentários sua opinião sobre o assunto. Você comprou o jogo? Se sim, em qual plataforma? Você pediu o reembolso? Vai esperar as correções? Comprou uma passagem para esse trem? Acredita que Cyberpunk 2077 ainda tem salvação? Até a próxima!

Revisão: José Carlos Alves

Tecnólogo em Gestão Ambiental, produtor do BlastCast e sincero até demais. Jogador casual de muitos e hardcore em poucos. Adora jogos que acabam em discórdia e fogo no parquinho. @XelaoHerege


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